Livro 3 — Capítulo XIII A Lenda de Ulenspiegel · Capítulo 117 de 182
Obra Menu

Livro 3 — Capítulo XIII

Livro 3 — Capítulo XIII

Não querendo travar batalha, o duque acossava sem descanso o Taciturno, que vagueava pela planície entre Juliers e o Mosa, mandando sondar o rio por toda parte, em Hondt, Mechelen, Elsen e Meersen, e encontrando-o em todos esses lugares cheio de estrepe, destinada a ferir homens e cavalos que tentassem atravessá-lo a vau.

Em Stockem, os sondadores não encontraram nenhuma.

O príncipe ordenou a passagem.

Os reiters atravessaram o Mosa e dispuseram-se em ordem de batalha na outra margem, para proteger a travessia pelo lado do bispado de Liège. Depois se alinharam de uma margem à outra, rompendo assim a corrente do rio, dez fileiras de arqueiros e arcabuzeiros, entre os quais se encontrava Ulenspiegel.

A água chegava-lhes às coxas, e muitas vezes alguma onda traiçoeira erguia Ulenspiegel e seu cavalo.

Ele viu passarem os soldados de infantaria, trazendo sobre a cabeça um saquinho de pólvora e os arcabuzes erguidos no ar. Depois vinham os carros, arcabuzes de gancho, soldados de manobra, acendedores, colubrinas, colubrinas duplas, falcões, falconetes, serpentinas, meias-serpentinas, serpentinas duplas, canhões curtos, canhões curtos duplos, canhões, meios-canhões, canhões duplos; sacres, pequenas peças de campanha montadas em reparos dianteiros, puxadas por dois cavalos, capazes de manobrar a galope e em tudo semelhantes àquelas que foram chamadas de Pistolas do Imperador. Atrás deles, protegendo a retaguarda, vinham lansquenetes e reiters de Flandres.

Ulenspiegel procurou alguma bebida que o aquecesse.

O arqueiro Riesencraft, alto-alemão, homem magro, cruel e gigantesco, roncava a seu lado sobre o cavalo e, ao respirar, perfumava o ar com aguardente.

Ulenspiegel procurou uma garrafa na garupa do cavalo e encontrou-a atravessada sobre o peito por um cordão, que cortou. Pegou a garrafa e bebeu alegremente.

Os arqueiros companheiros disseram-lhe:

— Dá-nos um pouco.

E ele deu.

Bebida a aguardente, tornou a atar o cordão da garrafa e quis recolocá-la sobre o peito do soldado. Quando levantava o braço para passá-la, Riesencraft despertou.

Pegando a garrafa, quis ordenhar sua vaca costumeira. Ao descobrir que ela já não dava leite, entrou em grande cólera:

— Ladrão — disse ele —, que fizeste de minha aguardente?

Ulenspiegel respondeu:

— Eu a bebi. Entre cavaleiros encharcados, a aguardente de um é a aguardente de todos. Maldito seja o avarento.

— Amanhã cortarei tua carne em campo fechado — respondeu Riesencraft.

— Nós nos cortaremos — respondeu Ulenspiegel —, cabeça, braços, pernas e tudo o mais. Mas não estás constipado, para teres a cara tão azeda?

— Estou — respondeu Riesencraft.

— Então — replicou Ulenspiegel —, deves purgar-te, e não lutar.

Ficou combinado entre eles que se encontrariam no dia seguinte, montados e vestidos cada qual a seu gosto, e cortariam um ao outro o toucinho com um estoque curto e rígido.

Ulenspiegel pediu que lhe permitissem substituir o estoque por um bastão, o que lhe foi concedido.

Nesse meio-tempo, tendo todos os soldados atravessado o rio e se disposto em boa ordem à voz dos coronéis e capitães, as dez fileiras de arqueiros também passaram.

E o Taciturno disse:

— Marchemos sobre Liège!

Ulenspiegel alegrou-se e, com todos os flamengos, exclamou:

— Longa vida a Orange! Marchemos sobre Liège!

Mas os estrangeiros, sobretudo os altos-alemães, disseram que estavam lavados e enxaguados demais para marchar.

Em vão o príncipe lhes garantiu que iam a uma vitória certa, numa cidade amiga. Eles não quiseram ouvir nada, acenderam grandes fogueiras e aqueceram-se diante delas, com os cavalos sem arreios.

O ataque à cidade foi adiado para o dia seguinte, quando Alba, muito espantado com a ousada passagem, soube por seus espiões que os soldados do Taciturno ainda não estavam prontos para o ataque.

Então mandou ameaçar Liège e toda a região ao redor com fogo e sangue, caso os amigos do príncipe fizessem qualquer movimento.

Gérard de Groesbeke, o apanha-carne episcopal, armou seus soldados contra o príncipe, que chegou tarde demais por culpa dos altos-alemães, que haviam tido medo de um pouco de água nas calças.

1/1
Menu

Fazer anotação