Livro 1 — Capítulo III
Livro 1 — Capítulo III
Claes chegou ao canal de Bruges, não longe do mar. Ali, colocando a isca no anzol, lançou a linha à água e fez descer também a rede. Um menininho bem-vestido dormia na outra margem, como um tronco, sobre um monte de mexilhões.
Despertou com o barulho que Claes fazia e quis fugir, temendo que fosse algum sargento da comuna vindo expulsá-lo de seu leito e conduzi-lo ao Steen por vadiagem ilícita.
Mas deixou de sentir medo quando reconheceu Claes e este lhe gritou:
— Queres ganhar seis liards? Enxota os peixes para cá.
O menino, diante da proposta, entrou na água, com sua pequena pança já arredondada, e, armando-se de um penacho de grandes juncos, enxotou os peixes na direção de Claes.
Terminada a pesca, Claes retirou a rede e a linha e, atravessando a eclusa, aproximou-se do menino.
— És tu — disse ele — aquele que chamam Lamme pelo nome de batismo e Goedzak por causa de teu caráter dócil, e que mora na rua da Garça, atrás de Nossa Senhora. Como é possível que, sendo tão jovem e tão bem-vestido, precises dormir num leito público?
— Ai, senhor carvoeiro — respondeu o menino —, tenho em casa uma irmã um ano mais nova do que eu, que me enche de pancadas à menor desavença. Mas não ouso devolver-lhe no lombo o que recebo, pois eu lhe faria mal, senhor. Ontem, durante a ceia, senti muita fome e limpei com os dedos o fundo de um prato de carne com favas, do qual ela queria a sua parte. Não havia o bastante nem para mim, senhor. Quando me viu lambendo os beiços por causa do bom sabor do molho, ficou como que enfurecida e me deu tantas bofetadas, com ambas as mãos, que fugi de casa todo machucado.
Claes perguntou-lhe o que faziam seu pai e sua mãe durante aquela saraivada de tapas.
Lamme Goedzak respondeu:
— Meu pai me batia num ombro e minha mãe no outro, dizendo: “Revida, covarde”. Mas eu, não querendo bater numa menina, fugi.
De repente, Lamme empalideceu e começou a tremer dos pés à cabeça.
Claes viu aproximar-se uma mulher grande e, caminhando ao lado dela, uma menina magra e de aspecto feroz.
— Ah! — disse Lamme, agarrando Claes pelos calções. — Eis minha mãe e minha irmã vindo buscar-me. Proteja-me, senhor carvoeiro.
— Toma — disse Claes —, recebe primeiro estes sete liards como pagamento, e vamos ao encontro delas sem medo.
Quando as duas mulheres viram Lamme, correram até ele e ambas quiseram bater-lhe: a mãe, porque estivera preocupada; a irmã, porque tinha esse costume.
Lamme escondia-se atrás de Claes e gritava:
— Ganhei sete liards! Ganhei sete liards! Não me batam!
Mas a mãe já o abraçava, enquanto a menina tentava abrir à força as mãos de Lamme para tomar-lhe o dinheiro. Lamme, porém, gritava:
— É meu! Não vais ficar com ele!
E cerrava os punhos.
Claes, entretanto, sacudiu rudemente a menina pelas orelhas e lhe disse:
— Se voltares a provocar teu irmão, que é bom e manso como um cordeiro, hei de meter-te num negro buraco de carvão. E ali não serei eu quem puxará tuas orelhas, mas o vermelho diabo do inferno, que te fará em pedaços com suas grandes garras e seus dentes parecidos com forquilhas.
Ouvindo isso, a menina, já sem ousar olhar para Claes nem aproximar-se de Lamme, abrigou-se atrás das saias da mãe. Mas, ao entrar na cidade, gritava por toda parte:
— O carvoeiro me bateu! Ele tem o diabo no porão!
Depois disso, já não tornou a bater em Lamme; mas, quando cresceu, fazia-o trabalhar em seu lugar. O doce simplório obedecia de boa vontade.
Enquanto caminhava, Claes vendera sua pesca a um lavrador que costumava comprá-la. Ao voltar para casa, disse a Soetkin:
— Eis o que encontrei no ventre de quatro lúcios, nove carpas e um cesto cheio de enguias.
E lançou sobre a mesa dois florins e um patard.
— Por que não vais pescar todos os dias, meu homem? — perguntou Soetkin.
Claes respondeu:
— Para não me tornar eu mesmo peixe nas redes dos sargentos da comuna.