Livro 1 — Capítulo II
Livro 1 — Capítulo II
Enquanto Ulenspiegel bebia diretamente deles, todos os pássaros despertaram nos campos.
Claes, que atava feixes de lenha, olhava sua comadre dar o peito a Ulenspiegel.
— Mulher — disse ele —, fizeste provisão desse bom leite?
— Os cântaros estão cheios — respondeu ela —, mas isso não basta para a minha alegria.
— Falas de tamanha felicidade de modo muito lastimoso.
— Penso — disse ela — que não há um só patard traidor naquela bolsa de couro que vês pendurada na parede.
Claes tomou a bolsa nas mãos, mas, por mais que a sacudisse, não ouviu nela serenata alguma de moedas. Ficou desconcertado. Querendo, contudo, reconfortar sua comadre:
— Com que te preocupas? — disse ele. — Não temos na arca o bolo que Katheline nos ofereceu ontem? Não vejo ali um grande pedaço de carne bovina, que dará pelo menos três dias de bom leite para a criança? Será profeta de fome esse saco de favas tão bem escondido naquele canto? É um fantasma aquela vasilha de manteiga? Serão espectros essas insígnias e bandeirolas de maçãs, alinhadas guerreiramente, onze em fila no celeiro? Não anuncia fresca bebedeira aquele gordo e bonachão tonel de cuyte de Bruges, que guarda em sua pança o nosso refresco?
— Quando levarem a criança ao batismo — disse Soetkin —, teremos de dar dois patards ao padre e um florim para o banquete.
Nesse momento entrou Katheline, trazendo um grande ramalhete de plantas, e disse:
— Ofereço à criança nascida com a coifa a angélica, que preserva o homem da luxúria; o funcho, que afasta Satanás...
— Não tens — perguntou Claes — a erva que atrai os florins?
— Não — respondeu ela.
— Então — disse ele —, vou ver se não há alguma no canal.
E partiu, levando a linha e a rede, certo, aliás, de não encontrar ninguém, pois faltava ainda uma hora para o oosterzon, que é, nas Flandres, o sol das seis horas.