Livro 1 — Capítulo LVI A Lenda de Ulenspiegel · Capítulo 56 de 182
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Livro 1 — Capítulo LVI

Livro 1 — Capítulo LVI

Naquele tempo, Lamme Goedzak voltou a morar em Damme, pois a terra de Liège já não estava tranquila por causa das heresias. Sua mulher o acompanhou de bom grado, porque os habitantes de Liège, grandes zombadores por natureza, caçoavam da mansidão do marido.

Lamme ia frequentemente à casa de Claes, que, desde que recebera a herança, frequentava a taverna da Blauwe-Torre e ali escolhera uma mesa para si e seus companheiros.

Na mesa vizinha ficava Josse Grypstuiver, o avarento deão dos peixeiros, bebendo parcamente sua meia pinta. Era sovina, mesquinho, vivia de arenques defumados e amava o dinheiro mais do que a salvação da alma.

Claes guardava na bolsa o pedaço de pergaminho em que estavam escritos seus dez mil anos de indulgências.

Certa noite, quando estava na Blauwe-Torre em companhia de Lamme Goedzak, Jan van Roosebeke e Mathys van Assche, estando também Josse Grypstuiver na taverna, Claes bebeu muito bem.

Jan van Roosebeke lhe disse:

— É pecado beber tanto!

Claes respondeu:

— Por uma pinta a mais, só se arde meio dia. E tenho dez mil anos de indulgências em minha bolsa. Quem quer cem, para poder afogar sem medo o estômago?

Todos gritaram:

— Por quanto as vendes?

— Uma pinta — respondeu Claes —, mas dou cento e cinquenta por um muske conyn.

Alguns bebedores pagaram a Claes um quartilho, outros presunto. Ele cortou para cada um uma pequena tira do pergaminho.

Não foi Claes quem comeu e bebeu o preço das indulgências, mas Lamme Goedzak, que comeu tanto que inchava a olhos vistos, enquanto Claes ia e vinha pela taverna vendendo sua mercadoria.

Grypstuiver voltou para ele a cara azeda:

— Tens indulgências para dez dias? — perguntou.

— Não — respondeu Claes —, isso é difícil demais de cortar.

E todos riram, enquanto Grypstuiver engolia a cólera.

Depois Claes voltou à choupana, seguido por Lamme, que caminhava como se tivesse pernas de lã.

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