Livro 5 — Capítulo IV
Livro 5 — Capítulo IV
Contudo, pareceu sarar.
Todos os sábados, os Mendigos o viam medir a cintura do monge com uma longa correia de couro.
No primeiro sábado, ele disse:
— Quatro pés.
E, medindo-se a si mesmo, disse:
— Quatro pés e meio.
E pareceu melancólico.
Mas, falando do monge, no oitavo sábado mostrou-se alegre e disse:
— Quatro pés e três quartos.
E o monge, irritado, quando ele lhe tirava a medida, dizia:
— Que queres de mim, homem gordo?
Mas Lamme, mostrando-lhe a língua, não dizia palavra.
E sete vezes por dia os marinheiros e soldados mercenários o viam chegar com algum prato novo, dizendo ao monge:
— Eis favas gordas com manteiga de Flandres. Comias iguais em teu convento? Tens boa cara; ninguém emagrece neste navio. Não sentes crescerem almofadas de gordura em tuas costas? Em breve, para deitar, já não precisarás de colchão.
Na segunda refeição do monge:
— Toma, dizia ele, aqui estão koeke-backen à moda de Bruxelas. Os franceses dizem panqueca, porque as carregam no chapéu em sinal de luto. Estas não são negras, mas louras e douradas ao forno. Vês a manteiga escorrendo delas? Assim acontecerá com tua pança.
— Não tenho fome, dizia o monge.
— Tens de comer, dizia Lamme. Pensas que são panquecas de trigo-sarraceno? É trigo puro, meu padre, padre em gordura, flor de trigo, meu padre de quatro queixos. Já vejo nascer o quinto, e meu coração se alegra. Come.
— Deixa-me em paz, homem gordo, dizia o monge.
Lamme, ficando colérico, respondia:
— Sou o senhor de tua vida. Preferes a corda a uma boa tigela de purê de ervilhas com croûtons, como vou te trazer daqui a pouco?
E, chegando com a tigela:
— O purê de ervilhas, dizia Lamme, gosta de ser comido em companhia; por isso acabo de lhe juntar knödels da Alemanha, belas bolinhas de farinha de Corinto, lançadas ainda vivas na água fervente. São pesadas, mas fazem toucinho. Come quanto puderes; quanto mais comeres, maior será minha alegria. Não sejas enjoado, não sopres tão forte como se já tivesses demais. Come. Não é melhor comer que ser enforcado? Vejamos tua coxa! Ela também engorda: dois pés e sete polegadas de circunferência. Que presunto mede tanto?
Uma hora depois, voltava para junto do monge:
— Toma, dizia, aqui estão nove pombos. Abateram-nos por tua causa, esses animais inocentes que voavam sem medo por cima dos navios. Não os desprezes. Pus na barriga deles uma bolinha de manteiga, miolo de pão, noz-moscada ralada e cravos-da-índia esmagados num almofariz de cobre, brilhante como tua pele. O senhor Sol está muito alegre por poder contemplar-se num rosto tão lustroso quanto o teu, por causa da gordura, da boa gordura que eu te fiz.
Na quinta refeição, trazia-lhe um waterzooi.
— Que pensas, dizia-lhe, deste cozido de peixe? O mar te carrega e te alimenta. Não faria mais nem mesmo por Sua Majestade Real. Sim, sim, vejo o quinto queixo nascer visivelmente, um pouco mais do lado esquerdo que do direito. Será preciso engordar esse lado desfavorecido, pois Deus nos diz: “Sede justos com cada um.” Onde estaria a justiça, senão numa distribuição equitativa da gordura? Em tua sexta refeição, trarei mexilhões, essas ostras dos pobres, como jamais serviram em teu convento. Os ignorantes os fazem ferver e assim os comem, mas isso é apenas o prólogo da fricassê. Depois é preciso tirá-los das conchas, pôr seus delicados corpos numa caçarola, refogá-los brandamente com aipo, noz-moscada e cravo-da-índia, engrossar o molho com cerveja e farinha e servi-los com torradas na manteiga. Assim os preparei para ti. Por que os filhos devem tão grande gratidão ao pai e à mãe? Porque lhes deram abrigo, amor, mas sobretudo alimento. Deves, portanto, amar-me como a teu pai e tua mãe, e, como a eles, deves-me gratidão da boca. Não revire contra mim esses olhos tão ferozes.
— Daqui a pouco te trarei uma sopa de cerveja e farinha, bem açucarada, com muita canela. Sabes por quê? Para que tua gordura se torne transparente e trema sobre tua pele. Já se pode vê-la assim quando te agitas. Agora eis que soa o toque de recolher. Dorme em paz, sem preocupação com o amanhã, certo de reencontrar tuas refeições untuosas e teu amigo Lamme para dá-las sem falta.
— Vai-te embora e deixa-me rezar a Deus, dizia o monge.
— Reza, dizia Lamme, reza com a alegre música dos roncos. A cerveja e o sono te farão gordura, boa gordura. Eu estou contente.
E Lamme ia se deitar.
E os marinheiros e soldados mercenários lhe diziam:
— Que tens tu para alimentar tão fartamente esse monge que não te deseja bem algum?
— Deixai-me fazer, dizia Lamme. Estou realizando uma grande obra.