Livro 2 — Capítulo V A Lenda de Ulenspiegel · Capítulo 90 de 182
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Livro 2 — Capítulo V

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O rei Filipe, sombrio, cobria papéis sem descanso, durante todo o dia e até mesmo à noite, enchendo de rabiscos folhas e pergaminhos. A eles confiava os pensamentos de seu coração endurecido. Não amava homem algum nesta vida e sabia que ninguém o amava. Querendo carregar sozinho seu imenso império, Atlas doloroso, vergava sob o fardo. Fleumático e melancólico, os excessos do trabalho consumiam-lhe o corpo fraco. Detestando todo rosto alegre, tomara ódio aos nossos países por causa de sua jovialidade; ódio aos nossos mercadores, por seu luxo e riqueza; ódio à nossa nobreza, por sua fala livre, seus modos francos e o ímpeto sanguíneo de sua brava alegria.

Sabia, pois assim lhe haviam dito, que, muito antes de o cardeal de Cusa ter denunciado, por volta do ano de 1380, os abusos da Igreja e pregado a necessidade de reformas, a revolta contra o papa e a Igreja romana, manifestada em nossos países sob diferentes formas de seita, já fervia em todas as cabeças como água num caldeirão fechado.

Mula obstinada, acreditava que sua vontade devia pesar, como a de Deus, sobre o mundo inteiro. Queria que nossos países, desacostumados à obediência, se curvassem sob o antigo jugo sem obter reforma alguma. Queria sua Santa Madre Igreja católica, apostólica e romana una, inteira, universal, sem modificação nem mudança, sem outra razão para assim querer além de sua própria vontade. Agia nisso como mulher desarrazoada e, à noite, agitava-se em seu leito como sobre uma cama de espinhos, incessantemente atormentado pelos próprios pensamentos.

— Sim, senhor são Filipe, sim, Senhor Deus, ainda que eu tenha de transformar os Países Baixos numa vala comum e nela lançar todos os habitantes, eles retornarão a vós, meu bendito patrono, e também a vós, senhora Virgem Maria, e a vós, senhores santos e santas do paraíso.

E tentou fazer como dizia. Assim, tornou-se mais romano que o papa e mais católico que os concílios.

Ulenspiegel, Lamme e o povo de Flandres e dos Países Baixos, tomados de angústia, julgavam ver de longe, na sombria morada do Escorial, aquela aranha coroada, de longas patas e pinças abertas, tecendo sua teia para envolvê-los e sugar-lhes o mais puro do sangue.

Embora a Inquisição papal, sob o reinado de Carlos, houvesse matado pela fogueira, pela fossa e pela corda cem mil cristãos, e embora os bens dos pobres condenados tivessem entrado nos cofres do imperador e do rei como a chuva entra no esgoto, Filipe julgou que isso não bastava. Impôs ao país novos bispos e pretendeu introduzir nele a Inquisição espanhola.

E os arautos das cidades leram por toda parte, ao som de trombetas e tambores, editos que decretavam para todos os hereges, homens, mulheres e meninas, a morte pelo fogo, caso não abjurassem seu erro, e pela corda, caso o abjurassem. As mulheres e meninas seriam enterradas vivas, e o carrasco dançaria sobre seus corpos.

E o fogo da resistência correu por todo o país.

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