Livro 5 — Capítulo I
Livro 5 — Capítulo I
O monge capturado por Lamme, percebendo que os Mendigos não o queriam morto, mas pagando resgate, começou a erguer o nariz pelo navio:
— Vede, dizia ele, caminhando e sacudindo a cabeça com furor, vede em que abismo de imundas, negras e vis abominações vim cair ao pôr os pés nesta tina de madeira. Se eu não estivesse aqui, eu, a quem o Senhor ungiu...
— Com gordura de cão? perguntavam os Mendigos.
— Cães sois vós, respondia o monge, prosseguindo em seu discurso, sim, cães sarnentos, errantes, cobertos de esterco, de espinha magra, que fugistes do caminho gorduroso de nossa mãe, a Santa Igreja Romana, para entrar nas veredas secas de vossa esfarrapada igreja reformada. Sim! Se eu não estivesse aqui, dentro de vosso tamanco, dentro de vossa tina, há muito o Senhor a teria engolido nos mais profundos abismos do mar, com todos vós, vossas armas malditas, vossos canhões do diabo, vosso capitão cantor, vossos crescentes blasfemos, sim! Até o fundo da insondável profundeza do reino de Satanás, onde não ardereis, não! Mas onde gelareis, tremereis e morrereis de frio por toda a longa eternidade. Sim! Assim o Deus do céu apagará o fogo de vosso ódio ímpio contra nossa doce mãe, a Santa Igreja Romana, contra os senhores santos, os monsenhores bispos e os benditos editos, tão suave e maduramente concebidos. Sim! E eu vos veria do alto do paraíso, roxos como beterrabas ou brancos como nabos, tamanho seria o vosso frio. ’T sy! ’T sy! ’T sy! Assim seja, seja, seja, seja!
Os marinheiros, soldados mercenários e grumetes zombavam dele e lhe atiravam ervilhas secas por meio de zarabatanas. E ele cobria o rosto com as mãos para se proteger daquela artilharia.