Livro 1 — Capítulo XXVIII A Lenda de Ulenspiegel · Capítulo 28 de 182
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Livro 1 — Capítulo XXVIII

Livro 1 — Capítulo XXVIII

Naquele tempo, Gante, a nobre, recusou-se a pagar a parte que lhe cabia no auxílio solicitado por seu filho Carlos, imperador. Não podia fazê-lo, pois, por obra de Carlos, estava esgotada de dinheiro. Isso foi um grande crime, e ele resolveu ir pessoalmente castigá-la.

Pois o bastão de um filho é mais doloroso do que qualquer outro nas costas da mãe.

Francisco do Nariz Comprido, seu inimigo, ofereceu-lhe passagem pelo reino da França. Carlos aceitou e, em vez de ser feito prisioneiro, foi festejado e tratado como imperador.

É soberano acordo entre príncipes ajudarem-se uns aos outros contra os povos.

Carlos permaneceu muito tempo em Valenciennes sem demonstrar sinal algum de cólera.

Gante, sua mãe, vivia sem medo, acreditando que o imperador, seu filho, lhe perdoaria por haver agido conforme o direito.

Carlos chegou às muralhas da cidade com quatro mil cavalos. Acompanhavam-no o duque de Alba e o príncipe de Orange.

O povo miúdo e os membros dos pequenos ofícios desejavam impedir aquela entrada filial e pôr de pé os oitenta mil homens da cidade e do campo. Mas os grandes burgueses, chamados hoogh-poorters, opuseram-se por medo do predomínio popular. Assim, Gante poderia ter reduzido a pedaços o filho e seus quatro mil cavalos. Mas amava-o, e até os pequenos ofícios haviam recuperado a confiança.

Carlos também a amava, mas por causa do dinheiro que dela guardava em seus cofres e daquele que ainda desejava obter.

Tendo-se tornado senhor da cidade, estabeleceu postos militares por toda parte e fez rondas vagarem por Gante de dia e de noite. Depois pronunciou, com grande aparato, a sentença da cidade.

Os burgueses mais notáveis tiveram de apresentar-se diante do trono com uma corda ao pescoço e fazer pública penitência. Gante foi declarada culpada dos crimes mais dispendiosos, a saber: deslealdade, violação de tratados, desobediência, sedição, rebelião e lesa-majestade.

O imperador declarou abolidos todos e quaisquer privilégios, direitos, franquias, costumes e usos, estipulando e comprometendo o futuro, como se fosse Deus, que dali em diante seus sucessores, ao assumirem o senhorio, jurariam não observar coisa alguma além da Concessão Carolina de servidão por ele outorgada à cidade.

Mandou arrasar a abadia de São Bavão para erguer ali uma fortaleza de onde pudesse, com toda a comodidade, trespassar com balas o peito da mãe.

Como bom filho apressado em herdar, confiscou todos os bens de Gante, rendas, casas, artilharia e munições de guerra.

Achando-a bem defendida demais, mandou demolir a torre Vermelha, a torre do Buraco do Sapo, a Braampoort, a Steenpoort, a Waalpoort, a Ketelpoort e muitas outras construídas e esculpidas como joias de pedra.

Quando, mais tarde, estrangeiros chegavam a Gante, perguntavam entre si:

— Que cidade baixa e desolada é esta, de cujas maravilhas se cantava?

E os habitantes de Gante respondiam:

— O imperador Carlos acaba de retirar da cidade seu precioso cinturão.

Ao dizerem isso, sentiam vergonha e cólera. E dos escombros dos portões o imperador retirava tijolos para suas fortalezas.

Queria que Gante fosse pobre, pois assim ela não poderia, por trabalho, indústria ou dinheiro, opor-se a seus altivos desígnios. Condenou-a, portanto, a pagar a parte recusada do auxílio, quatrocentos mil florins carolus de ouro; além disso, cento e cinquenta mil carolus de uma só vez e, a cada ano, outros seis mil em rendas perpétuas.

A cidade lhe emprestara dinheiro, e ele lhe devia uma renda de cento e cinquenta libras de grossos. Pela força, mandou que lhe entregassem os títulos da dívida e, pagando-a dessa maneira, enriqueceu de verdade.

Gante, em muitas ocasiões, o amara e socorrera, mas ele lhe cravou um punhal no peito, procurando sangue porque não encontrava leite suficiente.

Depois olhou para Roelandt, o belo sino, e mandou pendurar em seu badalo aquele que tocara o alarme para chamar a cidade a defender seu direito.

Não teve piedade de Roelandt, a língua de sua mãe, a língua por meio da qual ela falava a Flandres. Roelandt, o sino altivo, que dizia de si mesmo:

Als men my slaet dan is ’t brandt,

Als men my luyt dan is ’t storm in Vlaenderlandt.

Quando tilinto, é porque há incêndio;

Quando repico, há tempestade na terra de Flandres.

Achando que sua mãe falava alto demais, retirou-lhe o sino.

E os habitantes do campo disseram que Gante estava morta, porque seu filho lhe arrancara a língua com tenazes de ferro.

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