Livro 4 — Capítulo XXII
Livro 4 — Capítulo XXII
Naquele dia houve festa na frota. Apesar do vento cortante de dezembro, apesar da chuva, apesar da neve, todos os Mendigos da frota estavam sobre os conveses dos navios. Os crescentes de prata brilhavam fulvos nos chapéus da Zelândia.
E Ulenspiegel cantou:
Leyde foi libertada, o duque de sangue deixa os Países Baixos.
Tocai, sinos retumbantes;
Carrilhões, lançai aos ares vossas canções;
Tilintai, copos e garrafas.
Quando o mastim regressa dos golpes,
Com o rabo entre as pernas,
De um olho ensanguentado
Volta-se para os bastões.
E sua mandíbula rasgada
Estremece, palpitante.
Partiu o duque de sangue:
Tilintai, copos e garrafas. Viva o Mendigo!
Ele desejaria morder a si mesmo.
Os bastões quebraram-lhe os dentes.
Inclinando a cabeça maciça,
Pensa nos dias de assassinato e apetite.
Partiu o duque de sangue:
Batei, pois, o tambor da glória,
Batei, pois, o tambor da guerra!
Viva o Mendigo!
Ele grita ao diabo: “Vendo-te
Minha alma de cão por uma hora de força.”
“Tanto me faz tua alma,
Diz o diabo, quanto a de um arenque.”
Os dentes não se recuperam.
Devia ter fugido dos pedaços duros.
Partiu o duque de sangue:
Viva o Mendigo!
Os cachorrinhos das ruas, tortos, caolhos, sarnentos,
Que vivem ou arrebentam com restos,
Erguem a pata, um após o outro,
Sobre aquele que matou por amor ao assassinato...
Viva o Mendigo!
“Não amou mulheres nem amigos,
Nem alegria, nem sol, nem seu senhor,
Nada senão a Morte, sua noiva,
Que lhe quebra as patas
Como prelúdio do noivado;
Não ama homens inteiros.
Batei o tambor da alegria.
Viva o Mendigo!”
E os cachorrinhos das ruas, tortos,
Coxos, sarnentos e caolhos,
Erguem novamente a pata
De maneira quente e salgada,
E com eles galgos e molossos,
Cães da Hungria, de Brabante,
De Namur e de Luxemburgo.
Viva o Mendigo!
E, tristemente, com espuma no focinho,
Ele vai arrebentar junto de seu senhor,
Que lhe dá um pontapé
Por não haver mordido o bastante.
No inferno, desposa a Morte.
E ela o chama: “Meu duque”;
E ele a chama: “Minha Inquisição”.
Viva o Mendigo!
Tocai, sinos retumbantes;
Carrilhão, lança aos ares tuas canções;
Tilintai, copos e garrafas:
Viva o Mendigo!