Livro 3 — Capítulo XXI
Livro 3 — Capítulo XXI
Seguiam caminho, cada um com uma perna de um lado e outra do outro sobre o jumento.
Lamme mastigava a última refeição e aspirava alegremente o ar fresco.
De repente, Ulenspiegel deu-lhe uma grande chicotada nas nádegas, que formavam uma almofada sobre a sela.
— Que fazes? — gritou Lamme lastimosamente.
— O quê? — respondeu Ulenspiegel.
— Essa chicotada — disse Lamme.
— Que chicotada?
— Aquela que recebi de ti — replicou Lamme.
— Do lado esquerdo? — perguntou Ulenspiegel.
— Sim, do lado esquerdo e nas nádegas. Por que fizeste isso, malandro escandaloso?
— Por ignorância — respondeu Ulenspiegel. — Sei muito bem o que é um chicote e também sei muito bem o que são nádegas apertadas sobre uma sela. Ora, vendo estas tão largas, inchadas, esticadas e transbordando da sela, disse comigo: “Já que não se pode beliscá-las com o dedo, a ponta de um chicote tampouco conseguirá beliscá-las.” Enganei-me.
Lamme sorriu com essas palavras, e Ulenspiegel prosseguiu:
— Mas não sou o único neste mundo que peca por ignorância, e existe mais de um mestre tolo espalhando sua gordura sobre a sela de um asno que poderia dar-me lições. Se meu chicote pecou contra tuas nádegas, pecaste muito mais gravemente contra minhas pernas, impedindo-as de correr atrás da moça que flertava no jardim.
— Carne para corvos! — disse Lamme. — Então foi vingança?
— Muito pequena — respondeu Ulenspiegel.