Livro 4 — Capítulo XVI A Lenda de Ulenspiegel · Capítulo 165 de 182
Obra Menu

Livro 4 — Capítulo XVI

Livro 4 — Capítulo XVI

Nos navios dos Mendigos, sob o céu brilhante e sobre as águas claras, guincham pífaros, gemem gaitas de foles, gorgolejam garrafas, tilintam copos, brilha o ferro das armas.

— Vamos — disse Ulenspiegel —, batamos o tambor da glória, batamos o tambor da alegria. Viva o Mendigo! A Espanha foi vencida, a goela foi domada. O mar é nosso, Brielle foi tomada. Nossa é a costa desde Nieuport, passando por Ostende e Blanckenberghe; nossas são as ilhas da Zelândia, as bocas do Escalda, as bocas do Mosa, as bocas do Reno até Helder. Nossas são Texel, Vlieland, Ter-Schelling, Ameland, Rottum e Borkum. Viva o Mendigo!

“Nossas são Delft e Dordrecht. É um rastilho de pólvora. Deus segura a lança de fogo. Os carrascos abandonam Rotterdam. A livre consciência, como leão de garras e dentes de justiça, toma o condado de Zutphen, as cidades de Deutecom, Doesburg, Goor, Oldenzeel e, sobre o Veluwe, Hattem, Elburg e Harderwyck. Viva o Mendigo!

“É o relâmpago, é o trovão: Campen, Zwol, Hassel e Steenwyck caem em nossas mãos, com Oudewater, Gouda e Leyde. Viva o Mendigo!

“Nossas são Bueren e Enckhuyse! Ainda não temos Amsterdam, Schoonhoven nem Middelburg. Mas tudo chega no devido tempo às lâminas pacientes. Viva o Mendigo!

“Bebamos o vinho da Espanha. Bebamos nos cálices em que beberam o sangue das vítimas. Seguiremos pelo Zuyderzee, pelos rios, ribeiros e canais. Temos a Holanda do Norte, a Holanda do Sul e a Zelândia. Tomaremos a Frísia Oriental e a Frísia Ocidental. Brielle será o refúgio de nossos navios, o ninho das galinhas que chocam a liberdade. Viva o Mendigo!

“Escutai em Flandres, pátria amada, rebentar o grito da vingança. Lustram-se as armas, afiam-se as espadas. Todos se movem e vibram como cordas de harpa sob um sopro quente, sopro de almas que sai das fossas, das fogueiras, dos cadáveres sangrentos das vítimas. Todos: Hainaut, Brabante, Luxemburgo, Limburgo, Namur, Liège, a cidade livre, todos! O sangue germina e fecunda. A colheita está madura para a foice. Viva o Mendigo!

“Nosso é o Mar do Norte, o vasto Mar do Norte. Nossos são os bons canhões, os navios altivos, a tropa ousada de marinheiros terríveis: maltrapilhos, ladrões, padres-soldados, fidalgos, burgueses e trabalhadores fugidos da perseguição. Todos nós unidos pela obra da liberdade. Viva o Mendigo!

“Filipe, rei de sangue, onde estás? Alba, onde estás? Gritas e blasfemas, coberto pelo santo chapéu, dádiva do Santo Padre. Batei o tambor da alegria. Viva o Mendigo! Bebamos.

“O vinho corre nos cálices de ouro. Sorvei alegremente o vinho. As vestes sacerdotais que cobrem os homens rudes estão inundadas da bebida vermelha. As bandeiras eclesiásticas e romanas flutuam ao vento. Música eterna! A vós, pífaros guinchantes, gaitas de foles gemedoras, tambores que bateis rufos de glória. Viva o Mendigo!”

1/1
Menu

Fazer anotação