Livro 1 — Capítulo XXXVI A Lenda de Ulenspiegel · Capítulo 36 de 182
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Livro 1 — Capítulo XXXVI

Livro 1 — Capítulo XXXVI

No dia seguinte, encontrando-se numa estrada em meio a grande multidão, Ulenspiegel seguiu os caminhantes e logo soube que era o dia da peregrinação a Alsemberg.

Viu pobres velhas caminhando descalças e de costas, por um florim e em expiação dos pecados de algumas grandes damas. À margem da estrada, ao som de rabecas, violas e gaitas de fole, muitos peregrinos celebravam bodas de frituras e banquetes de bruinbier. E a fumaça dos saborosos guisados subia ao céu como suave incenso de alimento.

Havia, porém, outros peregrinos miseráveis, necessitados e tiritantes que, pagos pela igreja, caminhavam de costas por seis soldos.

Um homenzinho completamente calvo, de olhos arregalados e ar feroz, saltitava de costas atrás deles, recitando suas orações.

Ulenspiegel, querendo saber por que ele imitava assim os caranguejos, colocou-se diante dele e, sorrindo, começou a saltar no mesmo passo. Rabecas, pífaros, violas e gaitas de fole, os gemidos e murmúrios dos peregrinos compunham a música da dança.

— Jan van den Duivel — dizia Ulenspiegel —, corres assim para cair com maior certeza?

O homem não respondeu e continuou a murmurar suas orações.

— Talvez — dizia Ulenspiegel — queiras saber quantas árvores existem na estrada. Mas não contas também as folhas?

O homem, que recitava um Credo, fez sinal a Ulenspiegel para que se calasse.

— Talvez — dizia este, sempre saltitando diante dele e imitando-o —, caminhes ao contrário de todo o mundo em consequência de alguma súbita loucura. Mas quem procura obter resposta sensata de um louco não é ele próprio sensato. Não é verdade, senhor Cabeça Pelada?

Como o homem continuasse sem responder, Ulenspiegel prosseguiu saltitando, mas fazia tamanho ruído com as solas que a estrada ressoava como uma caixa de madeira.

— Talvez — dizia Ulenspiegel — sejais mudo, senhor?

— Ave Maria, gratia plena et benedictus fructus ventris tui, Jesu — dizia o homem.

— Talvez também sejais surdo? — disse Ulenspiegel. — Vamos descobrir. Dizem que os surdos não ouvem elogios nem insultos. Vejamos se a membrana de tuas orelhas é feita de pele ou bronze. Pensas, lanterna sem vela, simulacro de pedestre, parecer-te com um homem? Isso acontecerá quando os homens forem feitos de trapos. Onde se viu semelhante cara amarelada e cabeça pelada, senão num campo de forcas? Não foste enforcado em outro tempo?

E Ulenspiegel dançava, enquanto o homem, enfurecendo-se, corria de costas com cólera e murmurava suas orações com secreta irritação.

— Talvez — dizia Ulenspiegel — só entendas o alto-alemão. Falarei no baixo. Se não és glutão, és bêbado; se não és bêbado, bebedor de água, então estás terrivelmente constipado por algum lado; se não estás constipado, tens diarreia; se não és devasso, és capão. Se existe temperança, não é ela que enche o tonel de tua barriga. E, se entre os mil milhões de homens que povoam a terra houvesse apenas um corno, serias tu.

Diante dessas palavras, Ulenspiegel caiu sentado, com as pernas para o ar, pois o homem lhe dera tamanho soco debaixo do nariz que ele viu mais de cem velas.

Depois, caindo agilmente sobre ele, apesar do peso da pança, golpeou-o por toda parte, e as pancadas choveram como granizo sobre o corpo magro de Ulenspiegel.

E o bastão deste caiu por terra.

— Aprende com esta lição — disse-lhe o homem — a não atormentar pessoas honestas que vão em peregrinação. Pois fica sabendo que também vou a Alsemberg, conforme o costume, rogar a madame santa Maria que faça abortar uma criança concebida por minha mulher durante uma viagem minha. Para alcançar tão grande benefício, é preciso caminhar e dançar de costas desde o vigésimo passo depois de sua casa até o pé dos degraus da igreja, sem falar. Ai! Agora terei de recomeçar.

Ulenspiegel, depois de apanhar o bastão, disse:

— Eu te ajudarei, patife, que queres fazer Nossa Senhora servir para matar crianças no ventre das mães.

E começou a espancar o perverso corno com tamanha crueldade que o deixou como morto na estrada.

Entretanto, continuavam a subir ao céu os gemidos dos peregrinos, os sons de pífaros, violas, rabecas e gaitas de fole e, como puro incenso, a fumaça das frituras.

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