Livro 3 — Capítulo XVIII
Livro 3 — Capítulo XVIII
Ulenspiegel chegou a Namur em março. Ali encontrou Lamme, que, tendo concebido grande amor pelos peixes do Mosa, sobretudo pelas trutas, alugara um barco e pescava no rio com permissão da comunidade. Contudo, pagara cinquenta florins à corporação dos peixeiros.
Vendia e comia o peixe e, nesse ofício, ganhou uma pança ainda melhor e um pequeno saco de carolus.
Ao ver seu amigo e companheiro caminhando pelas margens do Mosa para entrar na cidade, alegrou-se, empurrou a pequena embarcação contra a margem e, subindo o barranco não sem perder o fôlego, foi ao encontro de Ulenspiegel.
Gaguejando de alegria:
— Eis-te aqui, então — disse ele —, meu filho, filho em Deus, pois minha arca pançuda poderia carregar dois como tu. Aonde vais? Que desejas? Sem dúvida não estás morto? Viste minha mulher? Comerás peixe do Mosa, o melhor que existe neste baixo mundo. Fazem nesta terra molhos tão bons que se comem os dedos até o ombro. Estás altivo e soberbo, com o bronzeado das batalhas no rosto. Eis aqui meu filho, meu amigo Ulenspiegel, o alegre vagabundo.
Depois, falando baixo:
— Quantos espanhóis mataste? Não viste minha mulher nos carros deles, cheios de prostitutas? E o vinho do Mosa, tão delicioso para os constipados, tu o beberás. Estás ferido, meu filho? Ficas então aqui, fresco, disposto e ágil como uma jovem águia. E as enguias, provarás delas. Não têm gosto algum de pântano. Beija-me, minha pança. Glória a Deus, como estou contente!
E Lamme dançava, saltava, bufava e obrigava Ulenspiegel a dançar.
Depois caminharam em direção a Namur. À porta da cidade, Ulenspiegel mostrou seu salvo-conduto assinado pelo duque.
E Lamme conduziu-o para casa.
Enquanto preparava a refeição, fez Ulenspiegel contar suas aventuras e narrou-lhe as próprias, dizendo ter deixado o exército para seguir uma moça que julgara ser sua mulher. Nessa perseguição chegara até Namur.
E não cessava de perguntar:
— Não a viste?
— Vi outras muito belas — respondeu Ulenspiegel —, sobretudo nesta cidade, onde todas são amorosas.
— De fato — disse Lamme —, quiseram possuir-me umas cem vezes, mas permaneci fiel, pois meu coração dolorido está cheio de uma única lembrança.
— Assim como tua pança está cheia de numerosos pratos — respondeu Ulenspiegel.
Lamme disse:
— Quando estou aflito, preciso comer.
— Então tua tristeza não tem descanso? — perguntou Ulenspiegel.
— Ai, não! — disse Lamme.
E, tirando uma truta de uma tina:
— Vê — disse ele — como é bela e firme. Esta carne é rosada como a de minha mulher. Amanhã deixaremos Namur. Tenho um saco cheio de florins; compraremos um asno para cada um e partiremos cavalgando em direção à terra de Flandres.
— Perderás muito com isso — disse Ulenspiegel.
— Meu coração puxa para Damme, que foi o lugar onde ela me amou bem. Talvez tenha voltado para lá.
— Partiremos amanhã — disse Ulenspiegel —, já que assim desejas.
E de fato partiram, cada qual montado num asno, cavalgando lado a lado.