Livro 4 — Capítulo II A Lenda de Ulenspiegel · Capítulo 151 de 182
Obra Menu

Livro 4 — Capítulo II

Livro 4 — Capítulo II

Nos primeiros dias de maio, sob um céu claro, enquanto o navio singrava altivo as ondas, Ulenspiegel cantou:

As cinzas batem sobre o meu coração.

Vieram os carrascos, e feriram

Com o punhal, o fogo, a força e a espada.

Pagaram a vil espionagem.

Onde havia Amor e Fé, doces virtudes,

Puseram Delação e Desconfiança.

Que sejam feridos os açougueiros,

Batei o tambor de guerra.

Viva o Mendigo! Batei o tambor!

Brielle foi tomada,

E também Flessingue, chave do Escalda;

Deus é bom, Camp-Veere foi tomada.

Onde estava a artilharia da Zelândia?

Temos balas, pólvora e projéteis,

Projéteis de ferro e projéteis de fundição.

Deus está conosco, quem será contra nós?

Batei o tambor de guerra e glória!

Viva o Mendigo! Batei o tambor!

A espada foi desembainhada, erguidos estejam nossos corações,

Firmes os nossos braços, a espada foi desembainhada.

Ao diabo a décima parte, inteira ruína,

Morte ao carrasco, a corda ao espoliador.

A rei perjuro, povo rebelde.

A espada foi desembainhada por nossos direitos,

Por nossas casas, nossas mulheres e nossos filhos.

A espada foi desembainhada, batei o tambor!

Erguidos estão nossos corações, firmes nossos braços.

Ao diabo a décima parte, ao diabo o infame perdão.

Batei o tambor de guerra, batei o tambor!

— Sim, compadres e amigos — disse Ulenspiegel —, sim, levantaram em Antuérpia, diante da Casa Comunal, um esplêndido cadafalso coberto de pano vermelho. O duque está ali sentado como um rei em seu trono, no meio de esbirros e soldados mercenários. Querendo sorrir com benevolência, faz uma careta amarga. Batei o tambor de guerra!

Concedeu um perdão. Fazei silêncio. Sua armadura dourada reluz ao sol, o grande preboste está a cavalo junto ao dossel. Eis que chega o arauto com seus timbaleiros. Ele lê: é o perdão para todos os que não pecaram; os demais serão cruelmente punidos.

Ouvi, compadres, ele lê o édito que ordena, sob pena de rebelião, o pagamento da décima e da vigésima partes.

E Ulenspiegel cantou:

Ó duque! Ouves a voz do povo,

O forte rumor? É o mar que sobe

No tempo das grandes vagas.

Basta de dinheiro, basta de sangue,

Basta de ruínas! Batei o tambor!

A espada foi desembainhada. Batei o tambor de luto!

É a unha rasgando a ferida sangrenta,

O roubo depois do assassinato. Precisas então

Misturar todo o nosso ouro ao nosso sangue para bebê-lo?

Caminhávamos no dever, fiéis

A Sua Majestade Real. Sua Majestade é perjura.

Estamos libertos dos juramentos. Batei o tambor de guerra.

Duque de Alba, duque de sangue,

Vê estas barracas e lojas fechadas,

Vê estes cervejeiros, padeiros, merceeiros,

Recusando-se a vender para não pagar.

Quem te saúda quando passas?

Ninguém. Sentes, como névoa de peste,

Ódio e Desprezo cercarem-te?

A bela terra de Flandres,

O alegre país de Brabante,

Estão tristes como cemitérios.

Onde outrora, no tempo da liberdade,

Cantavam violas, guinchavam pífaros,

Há silêncio e morte.

Batei o tambor de guerra.

Em vez dos rostos alegres

De bebedores e amantes cantando,

Há os rostos pálidos

Dos que esperam, resignados,

O golpe da espada da injustiça.

Batei o tambor de guerra.

Já ninguém ouve nas tavernas

O alegre tilintar das canecas,

Nem a voz clara das moças

Cantando em bandos pelas ruas.

E Brabante e Flandres, terras de alegria,

Tornaram-se terras de lágrimas.

Batei o tambor de luto.

Terra dos pais, amada sofredora,

Não curves a fronte sob o pé do assassino.

Abelhas laboriosas, lançai-vos em enxames

Sobre os vespões de Espanha.

Cadáveres de mulheres e meninas enterradas vivas,

Clamai a Cristo: Vingança!

Errai à noite pelos campos, pobres almas,

Clamai a Deus! O braço estremece para ferir.

A espada foi desembainhada, duque, nós te arrancaremos as entranhas

E com elas te açoitaremos o rosto.

Batei o tambor. A espada foi desembainhada.

Batei o tambor. Viva o Mendigo!

E todos os marinheiros e soldados mercenários do navio de Ulenspiegel, assim como os dos demais navios, cantavam do mesmo modo:

A espada foi desembainhada, viva o Mendigo!

E suas vozes ribombavam como um trovão de libertação.

1/1
Menu

Fazer anotação