Livro 4 — Capítulo VII
Livro 4 — Capítulo VII
Sobre as hulcas da Zelândia, sobre os boeiers e croustèves, segue Thyl Claes Ulenspiegel.
O mar livre transporta os valentes flibotes, sobre os quais há oito, dez ou vinte peças, todas de ferro. Vomitam morte e carnificina sobre os Espanhóis traidores.
Thyl Ulenspiegel, filho de Claes, é hábil artilheiro. É preciso vê-lo apontar com precisão, mirar bem e furar como uma parede de manteiga os cascos dos carrascos.
Traz no chapéu o crescente de prata com esta inscrição: Liever den Turc als den Paus. Antes servir ao Turco que ao papa.
Os marinheiros que o veem subir a bordo, ágil como um gato, esperto como um esquilo, cantando alguma canção ou dizendo algum dito alegre, interrogam-no, curiosos:
— Como pode ser, homenzinho, que pareças tão jovem, se dizem que nasceste há muito tempo em Damme?
— Não sou corpo, mas espírito — responde ele —, e Nele, minha amiga, é semelhante a mim. Espírito de Flandres, Amor de Flandres, não morreremos.
— Contudo — dizem eles —, quando te cortam, tu sangras.
— Vedes apenas a aparência — responde Ulenspiegel. — É vinho, não sangue.
— Enfiaremos um espeto em tua barriga.
— Só eu me esvaziaria — responde Ulenspiegel.
— Zombas de nós.
— Quem bate na caixa ouvirá o tambor — respondia Ulenspiegel.
E as bandeiras bordadas das procissões romanas flutuavam nos mastros dos navios.
Vestidos de veludo, brocado, seda e tecidos de ouro e prata, como os que os abades usam nas missas solenes, trazendo mitra e báculo e bebendo o vinho dos monges, os Mendigos montavam guarda nos navios.
Era estranho espetáculo ver saírem dessas ricas vestes as mãos rudes que carregavam o arcabuz ou a besta, a alabarda ou a lança; e todos aqueles homens de rosto duro, cingidos por cima com pistolas e cutelos que reluziam ao sol, bebiam em cálices de ouro o vinho abacial transformado em vinho da liberdade.
E cantavam e gritavam:
— Viva o Mendigo!
E assim percorriam o Oceano e o Escalda.