Livro 4 — Capítulo XVIII A Lenda de Ulenspiegel · Capítulo 167 de 182
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Livro 4 — Capítulo XVIII

Livro 4 — Capítulo XVIII

De repente, toda a frota viu na margem um rebanho negro, no meio do qual brilhavam tochas e reluziam armas. Depois as tochas se apagaram, e uma grande escuridão reinou.

Transmitidas as ordens do almirante, deu-se nos navios o sinal de alerta, e todos os fogos foram apagados. Marinheiros e soldados deitaram-se de bruços, armados de machados, sobre os conveses. Os valentes artilheiros, segurando as lanças de fogo, vigiavam junto aos canhões carregados com sacos de balas e projéteis acorrentados. Assim que o almirante e os capitães gritassem: “Cem passos!”, o que indicaria a distância do inimigo, deveriam disparar da proa, da popa ou do bordo, conforme a posição deles sobre o gelo.

E ouviu-se a voz do senhor Worst dizendo:

— Pena de morte a quem falar em voz alta!

E os capitães repetiram:

— Pena de morte a quem falar em voz alta!

A noite era sem lua e estrelada.

— Ouves? — dizia Ulenspiegel a Lamme, falando como sopro de fantasma. — Ouves a voz dos homens de Amsterdam e o ferro dos patins fazendo o gelo gritar? Avançam depressa. Ouvimo-los falar. Dizem: “Os Mendigos preguiçosos dormem. O tesouro de Lisboa é nosso!” Acendem tochas. Vês suas escadas de assalto, suas caras feias e a longa linha da tropa atacante? São mil e mais.

— Cem passos! — gritou o senhor Worst.

— Cem passos! — gritaram os capitães.

E houve um grande estrondo semelhante ao trovão e gritos lamentáveis sobre o gelo.

— Oitenta canhões trovejam ao mesmo tempo! — disse Ulenspiegel. — Eles fogem. Vês as tochas se afastarem?

— Persegui-os! — ordenou o almirante Worst.

— Persegui-os! — disseram os capitães.

Mas a perseguição durou pouco, pois os fugitivos tinham cem passos de vantagem e pernas de lebres assustadas.

Sobre os homens que gritavam e morriam no gelo encontraram ouro, joias e cordas para amarrar os Mendigos.

Depois dessa vitória, os Mendigos diziam uns aos outros:

— Als God met ons is, wie tegen ons zal zyn? Se Deus está conosco, quem será contra nós? Viva o Mendigo!

Na manhã do terceiro dia, o senhor Worst, inquieto, esperava novo ataque. Lamme saltou para o convés e disse a Ulenspiegel:

— Leva-me à presença desse almirante que não quis escutar-te quando foste profeta da geada.

— Vai sem que te levem — respondeu Ulenspiegel.

Lamme partiu, fechando à chave a porta da cozinha. O almirante estava no convés, procurando com os olhos algum movimento do lado da cidade.

Lamme aproximou-se e disse:

— Senhor almirante, pode um humilde mestre-cozinheiro dar-vos um conselho?

— Fala, meu filho — disse o almirante.

— Monsenhor — disse Lamme —, a água descongela nas jarras; as aves tornam a ficar tenras; os salsichões perdem a crosta de geada; a manteiga está untuosa; o óleo, líquido; o sal chora. Em breve choverá e seremos salvos, monsenhor.

— Quem és tu? — perguntou o senhor Worst.

— Sou — respondeu ele — Lamme Goedzak, mestre-cozinheiro do navio Brielle. E, se todos esses grandes sábios que se dizem astrônomos lessem nas estrelas tão bem quanto leio em meus molhos, poderiam dizer-nos que esta noite haverá degelo com grande estrondo de tempestade e granizo. Mas o degelo não durará.

Lamme regressou para junto de Ulenspiegel e, ao meio-dia, disse-lhe:

— Sou novamente profeta. O céu torna-se negro, o vento sopra tempestuoso, cai chuva quente e já há um pé de água sobre o gelo.

Ao anoitecer, exclamou alegremente:

— O Mar do Norte está cheio. É a hora da maré montante. As altas ondas, entrando no Zuyderzee, quebram o gelo, que se parte em grandes blocos e salta contra os navios. Lança faíscas de luz. Eis o granizo. O almirante ordena que nos retiremos de diante de Amsterdam, e há água suficiente para que nosso maior navio flutue. Eis-nos no porto de Enckhuyse. O mar torna a congelar. Sou profeta, e isso é milagre de Deus.

Ulenspiegel disse:

— Bebamos a ele, bendizendo-o.

E passou o inverno, e veio o verão.

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