Livro 3 — Capítulo IX
Livro 3 — Capítulo IX
No dia seguinte, tendo o povo sabido por Ulenspiegel o que acontecera, disse ser zombaria maldosa fazê-lo adorar como santo um choramingas que deixava correr as águas pelas calças.
E muitos se tornaram hereges. E, partindo com seus bens, foram engrossar o exército do príncipe.
Ulenspiegel voltou em direção a Liège.
Estando sozinho no bosque, sentou-se e ficou a devanear. Contemplando o céu claro, disse:
— A guerra, sempre a guerra, para que o inimigo espanhol mate o pobre povo, saqueie nossos bens e viole nossas mulheres e filhas. Entretanto, nossa bela prata se vai, e nosso sangue corre em riachos sem proveito para ninguém, salvo para aquele patife real, que quer acrescentar mais um florão de autoridade à sua coroa. Florão que julga glorioso, florão de sangue, florão de fumaça. Ah! Se eu pudesse te enfeitar como desejo, somente as moscas quereriam fazer-te companhia.
Enquanto pensava nessas coisas, viu passar diante dele um bando inteiro de cervos.
Havia entre eles grandes e velhos animais que ainda conservavam seus escudeiros e ostentavam orgulhosamente galhadas de nove pontas. Graciosos veados jovens, que eram seus pajens, trotavam ao lado deles, parecendo prontos a ajudá-los com seus chifres agudos. Ulenspiegel não sabia aonde iam, mas julgou que se dirigiam ao lugar de repouso.
— Ah! — disse ele. — Velhos cervos e jovens veados, ides alegres e orgulhosos ao fundo do bosque, para vosso repouso, comendo os brotos novos, aspirando os aromas perfumados, felizes até que chegue o caçador-carrasco. Assim sucede conosco, velhos cervos e jovens veados!
E as cinzas de Claes bateram sobre o coração de Ulenspiegel.