Livro 3 — Capítulo XX A Lenda de Ulenspiegel · Capítulo 124 de 182
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Livro 3 — Capítulo XX

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Entraram numa hospedaria, onde lhes deram a ceia numa sala alta.

Abrindo as janelas, Ulenspiegel viu dali um jardim onde passeava uma moça atraente, bem fornida, de seios redondos, cabelos dourados e vestida apenas com uma saia, um corpete de linho branco e um avental furado de tecido preto.

Camisas e outras roupas femininas branqueavam sobre cordas. A moça, voltando-se sempre para Ulenspiegel, tirava as camisas das cordas, tornava a colocá-las e, sorrindo e olhando continuamente para ele, sentava-se sobre faixas de linho, balançando-se nas duas pontas amarradas.

Na vizinhança, Ulenspiegel ouvia um galo cantar e via uma ama brincando com uma criança, cujo rosto ela voltava para um homem em pé, dizendo:

— Boelkin, faz olhinhos para papai.

A criança chorava.

E a moça graciosa continuava passeando no cercado, mudando e tornando a mudar as roupas de lugar.

— É uma espiã — disse Lamme.

A moça pôs as mãos sobre os olhos e, sorrindo por entre os dedos, olhou para Ulenspiegel.

Depois, erguendo os dois seios com as mãos, deixou-os cair novamente e tornou a balançar-se, sem que seus pés tocassem o chão. E as peças de linho, destorcendo-se, faziam-na girar como um pião, enquanto Ulenspiegel via seus braços nus até os ombros, brancos e redondos sob o sol pálido.

Girando e sorrindo, ela continuava a fitá-lo.

Ele saiu para ir ao seu encontro.

Lamme o seguiu.

Junto à cerca do jardim, procurou uma abertura por onde passar, mas não encontrou nenhuma.

A moça, vendo a manobra, tornou a olhar sorrindo por entre os dedos.

Ulenspiegel tentava passar através da cerca, enquanto Lamme, detendo-o, dizia:

— Não vás. É uma espiã. Seremos queimados.

Depois, a moça passeou pelo cercado, cobrindo o rosto com o avental e olhando pelos buracos para ver se seu amigo casual não viria logo.

Ulenspiegel ia saltar de uma vez por cima da cerca, mas Lamme o impediu. Agarrando-lhe a perna, fê-lo cair, dizendo:

— Corda, espada e forca! É uma espiã. Não vás.

Sentado no chão, Ulenspiegel debatia-se contra ele.

A moça gritou, erguendo a cabeça acima da cerca:

— Adeus, senhor. Que o Amor mantenha pendente Vossa Longanimidade.

E ele ouviu uma gargalhada zombeteira.

— Ah! — disse. — Isso entra em meu ouvido como um feixe de alfinetes!

Depois uma porta se fechou com estrondo.

E ele ficou melancólico.

Lamme, ainda o segurando, disse:

— Estás enumerando os doces tesouros de beleza assim perdidos, para tua vergonha. É uma espiã. Quando cais, cais muito bem. Vou arrebentar de tanto rir.

Ulenspiegel não respondeu, e os dois tornaram a montar nos asnos.

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