Livro 1 — Capítulo XVI A Lenda de Ulenspiegel · Capítulo 16 de 182
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Livro 1 — Capítulo XVI

Livro 1 — Capítulo XVI

Certa manhã, Ulenspiegel estava sozinho em casa e, entediado, cortava um sapato do pai para fazer dele um pequeno navio. Já havia fincado o mastro principal na sola e perfurado o peito do calçado para ali colocar o gurupés, quando viu passar pela meia-porta o busto de um cavaleiro e a cabeça de um cavalo.

— Há alguém em casa? — perguntou o cavaleiro.

— Há — respondeu Ulenspiegel — um homem e meio e uma cabeça de cavalo.

— Como assim? — perguntou o cavaleiro.

Ulenspiegel respondeu:

— Porque vejo aqui um homem inteiro, que sou eu; metade de um homem, que é teu busto; e uma cabeça de cavalo, que é a de tua montaria.

— Onde estão teu pai e tua mãe? — perguntou o homem.

Ulenspiegel respondeu:

— Meu pai foi fazer o mal ficar ainda pior, e minha mãe cuida de nos trazer vergonha ou prejuízo.

— Explica-te — disse o cavaleiro.

Ulenspiegel respondeu:

— Meu pai está cavando mais fundo os buracos de seu campo, para que neles caiam, indo de mal a pior, os caçadores que pisoteiam o trigo. Minha mãe foi tomar dinheiro emprestado: se devolver pouco demais, isso nos trará vergonha; se devolver demais, trará prejuízo.

O homem perguntou-lhe então por onde deveria seguir.

— Por onde estão os gansos — respondeu Ulenspiegel.

O homem partiu e voltou no momento em que Ulenspiegel transformava o segundo sapato de Claes numa galera a remos.

— Enganaste-me — disse ele. — Onde estão os gansos, só há lama e brejos em que eles chafurdam.

Ulenspiegel respondeu:

— Não te disse que fosses aonde os gansos chafurdam, mas por onde caminham.

— Mostra-me ao menos — disse o homem — um caminho que vá a Heyst.

— Nas Flandres, são os pedestres que vão, não os caminhos — respondeu Ulenspiegel.

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