Capítulo II - A Fada Seduziu o Viajante A Rainha do Ignoto · Capítulo 2 de 70
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Capítulo II - A Fada Seduziu o Viajante

II - A Fada Seduziu o Viajante

Já os galos amiudavam o canto e as nuvens do alvorecer do dia se espalhavam no céu, deixando ver uma tênue claridade.

O Dr. Edmundo, adormecido há pouco tempo, sonhava ainda com a cantora do bote, a náiade do Jaguaribe, quando duas fortes pancadas na porta do quarto o fizeram despertar sobressaltado:

- Quem bate? O que quer? perguntou enfadado.

- O dia já vem rompendo, Sr. Doutor, disse o criado, Valentim já está aí com os cavalos.

- Vai-te daí! Deixa-me dormir, não me aborreças!

- Acorde, Sr. Doutor, são horas.

- Horas de quê, marmanjo?

- De partirmos, senhor.

- Para onde?

- Valha-me Deus, dizia o pachorrento criado, continuando a bater de vagarinho, já é muito tarde: o Valentim não quer mais esperar.

- Diz-lhe que vá embora.

Adriano, assim se chamava o criado, estranhou a contraordem; mas obedeceu, e esperou que o amo se levantasse das oito para as nove horas do dia. Enquanto passava o tempo, foi Adriano sentar-se ao batente do portão e observar os costumes matinais daquela aldeia:

Alguns camponeses passavam de enxada ao ombro, seguindo para seus rústicos trabalhos; uma mulher vinha entrando na povoação trazendo à cabeça uma grande cuia de beijus de goma, alvos como jasmins; um pescador vinha mais atrás, trazendo a tiracolo um uru de peixes; outros os levavam em cambadas presas a um pau que traziam ao ombro, e assim os ofereciam pelas portas.

Valentim, apesar da hora adiantada do dia, esperava ainda à porta, tendo um cavalo selado preso à mão pelas cambas do freio, e outros pelos cabrestos.

Edmundo, tendo se levantado, chegou à janela para lançar uma vista aos lugares da visão da noite; e, vendo ainda o paciente rapaz a esperar pela última decisão, disse-lhe:

- Leva, Valentim, diz a teu pai que trate da minha cavalgadura, não pretendo sair já, quando decidir-me te avisarei.

O menino afastou-se com os três cavalos, e Edmundo foi entender-se com o criado:

- É preciso, Adriano, procurar-me uma cozinheira e arranjar-me alguns móveis mais indispensáveis.

Adriano saiu em busca do necessário, pasmo de admiração daquela resolução repentina do amo.

O Doutor Edmundo teria vinte e quatro a vinte e cinco anos. Seu pai fora um rico negociante da Fortaleza: foi nessa bela cidade do norte que ele passou os seus primeiros anos, onde fez os preparatórios, e de onde mandaram-no para a Academia de Direito do Recife. Ali fez ele sempre um dos mais brilhantes papéis, apesar de não ser gênio nem um talento de primeira plana. Mas, bem apessoado e único herdeiro de uma boa fortuna, era o eldorado das moças, e até dos próprios pais!

Não havia baile, jantar, batizado ou casamento para o qual não tivesse um convite formal, além de receber muitos recadinhos particulares e íntimos. Nessas ocasiões apresentava-se sempre como um figurinho da última moda; além disso, tocava flauta, cantava árias e duetos, recitava ao piano versos próprios ou dos poetas de maior nomeada, contava anedotas, dançava admiravelmente e ninguém o vencia no galanteio!

Em matéria de amor não admitia a verdade; zombava de meia dúzia de corações, verdadeiros tesouros de sentimento, onde tinha feito despertar o mais sincero e puro afeto, e depois ia escrever folhetins, nos rodapés dos jornais dos estudantes, contra a inconstância e leviandade das mulheres; rindo-se ao mesmo tempo com os amigos de ter feito no mesmo jornal, com diversos pseudônimos, quatro ou cinco sonetos: a Marília, Laura, Beatriz, Leonor e Julieta!

Mas isto não privava de que o acadêmico gozasse da maior consideração dos pais e simpatia das filhas... Era tão afável... tão elegante e delicado... quem poderia deixar de estimá-lo? Depois não eram aquelas as qualidades mais próprias para atrair na sociedade?

O nosso herói, aos vinte e dois anos, defendeu tese e recebeu a carta de doutor, formado em Direito pela Academia do Recife.

Por esse tempo perdeu o pai. Já não tinha mãe, portanto recolheu a herança que lhe competia e foi viajar.

Dois anos depois voltou ao Rio de Janeiro quase pobre. Vinha do estrangeiro farto de divertimentos cortesãos; sentindo fastio e aborrecimento das grandes cidades; então lembrou-se de ir visitar uma fazenda que possuía nos sertões do Ceará, para os campos do Jaguaribe: eis aí por que o encontramos pernoitando na povoação da Passagem das Pedras, onde ficou fascinado pela voz da fada encantada da gruta do Areré.

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