Capítulo LVII - A Confissão do Preso
Capítulo LVII - A Confissão do Preso
Em nome de Deus, senhora, juro que não sou gatuno, disse o preso, sou um infeliz! É o ódio que me arrasta para o crime. Houve um tempo em que a minh'alma nos sonhos da poesia também idealizou a virtude. Foram os preconceitos da sociedade que me fizeram mau; foi um louco amor que me reduziu a isto. Não há de crer-me ninguém porque sou definitivamente um miserável! Entretanto nasci na opulência, e se vivo em companhia dos gatunos é para ver roubar os que roubaram. E também para vingar os inocentes.
E o chefe dos gatunos apontando para D. Mathilde disse com asco:
— Vêm esta respeitável viúva? Herdou uma boa fortuna, trouxe sempre as filhas vestidas de seda e cobertas de brilhantes, bom dote além da herança paterna; mas, para gozar desta ventura foi preciso espoliar uma triste órfã e depois roubá-la no que há de mais santo, no seu amor puro e sincero, que lhe poderia salvar do abandono em que morre.
Virgínia veio à mente de todos; mas D. Mathilde prorrompeu em gritos de indignação:
— Levem daqui quanto antes este ladrão atrevido! Basta! isto é de mais! matem este diabo senão agarro na tranca da porta e meto-lhe na cabeça.
Ninguém se moveu, e a própria D. Mathilde baixou a cabeça influenciada pelo poder desconhecido do olhar profundo da senhora de preto.
O preso continuou apontando para o português Domingos:
— Este homem que todos cortejam porque chegou à corte com a bolsa e as mãos cheias de dinheiro, foi fornecedor d'um batalhão em uma das províncias do norte, e de parceria com o comandante encheu a barriga à custa dos pobres soldados. Enquanto os infelizes arruinavam o organismo com gêneros podres e além disso escassos, Domingos criava banhas à custa de trapaças, estelionatos e contrabandos. Muitos órfãos ficaram sem pão! muitas viúvas sem teto e muitos anciãos sem calçado somente pela faina gananciosa deste miserável de casaca. E amanhã por todas as ruas por onde passar serei apontado como uma besta-fera, um escândalo da mesma sociedade em que Domingos ostenta o seu orgulho, apresenta sua comenda a bordo dos paquetes, no teatro lírico, nos clubs e por toda a parte onde apresenta-se com a família coberta de brilhantes.
Domingos quis reagir; mas, o mesmo poder que subjugou D. Mathilde subjugou também o genro, e o preso continuou com tristeza modificando o tom áspero da voz em que falava:
— Fiz-me chefe dos bandidos para vingar-me do desprezo da sociedade a que ela pertencia; mas nada partilho dos saques de meus companheiros. Não ambiciono riquezas, e vivo somente das recordações de minha visão de outros tempos. Perdi-a de vista. Não sei aonde para o ideal de minha mocidade à beira mar, à vista dos coqueiros, das velas das jangadas de minha terra natal; e minh'alma chora ainda por ela. Ah! quanto teria sido feliz se a janelinha de minha triste habitação fosse a d'um cárcere eterno que ficasse eternamente olhando para o jardim aonde lia ou bordava aquela mulher ingrata e má. Digo má porque causou a desgraça de minha vida: ela não era má, era antes um conjunto de perfeições! A natureza dotou seu corpo com todos os encantos que se pode imaginar em uma mulher, a Providência enriqueceu-lhe o espírito com as fulgurações do gênio e fez-lhe transbordar o coração de sublimes virtudes; mas deu-lhe um defeito, o orgulho. Ela viu o meu sofrimento e com sua costumada indiferença deixou-me cair no abismo em que me lançou o desespero!
E voltando-se para o oficial da tropa, disse:
— Procurem na terra essa mulher fatal, e encerrem-na por mim que fui vítima de sua atração funesta.
Todos os semblantes exprimiam uma admiração curiosa.
A senhora de preto aproximou-se mais do preso, e disse com voz pausada e doce:
— Não inundeis a memória d'uma desventurada com suposições injustas; não foi o seu orgulho a causa de vossas desgraças, foi a vossa conduta. Deixai-vos conduzir à prisão, sofrei resignado o castigo de vossos atos e ficai certo de que uma mão providencial vos salvará, por meios desconhecidos.
O infeliz curvou a cabeça e seguiu na frente dos soldados com os olhos baixos, os braços caídos e o andar compassado como d'um autômato.
O dia vinha amanhecendo, e já começava o movimento da antiga capital do Brasil.
À noite d'aquele dia os que liam os jornais da tarde, deparavam com a seguinte notícia:
«Em Rio Comprido pela madrugada de hoje foi assaltada pelos gatunos a chácara do negociante português Domingos Lisboa. Eles arrombaram uma janela e aproveitando-se do sono dos habitantes da chácara apoderaram-se de todos os valores em dinheiro e em joias que existiam ali. E enquanto se banqueteavam com os restos de iguarias que encontraram na sala de jantar, foram cercados pela força de polícia, a qual teve nesse mesmo dia um aviso muito singular dado por meio d'uma carta anônima.
«Infelizmente não foi possível agarrá-los todos desses endiabrados capoeiros só o chefe da quadrilha, o célebre Jayme Ortiz acha-se preso, e segue amanhã com os degradados para Fernando de Noronha.