Capítulo XXXIX - É Bom Achar um Amigo em Terra Estranha
Capítulo XXXIX - É Bom Achar um Amigo em Terra Estranha
O Dr. Edmundo apenas desembarcou, viu a pouca distância, conversando com outro que estava em pé no meio da rua, um moço que lhe fez alvoroçar o coração.
Foi direito a ele, e disse:
— Edmundo! exclamou ele abraçando-o, desembarcaste?
— Agora mesmo, e bem longe estava de pensar que encontraria, logo no porto, um amigo velho, um colega de estudo. Então o que tens feito em tua carreira?
— Não me formei, disse Armando, não sabias ainda?
— Não.
— Os negócios de meu pai andaram mal, não pôde mais despender com os meus estudos e achou necessário que eu procurasse um emprego. Vim ao Pará, e aqui fiquei como guarda-livros de uma casa aviadora. E tu que tens feito, não és ainda juiz de direito? Ou vens como chefe de polícia?
— Qual! Tenho sido um malandro! Viajei pela Europa, gastei uma boa soma, e agora a pretexto de descansar das viagens vivo dos magros rendimentos que me ficaram, sem cuidar do futuro.
— Este podes obter facilmente por meio de um casamento rico: aqui no norte não faltam negociantes com filhas para quem compram carta de bacharel a peso de ouro.
— Estás zombando, conheces o meu caráter...
— E sei, disse Armando, que vives como outrora correndo em busca de uma visão de mulher como não existe, e que nisto perdes muito tempo impressionado com lances dramáticos e sentimentais, que depois se evolam como o fumo do teu charuto.
— É certo. E tu já te casaste?
— Não. Para onde vais?
— Para o hotel; mas, contra vontade, servia-me antes uma casinha alugada.
— Se a hospedagem que te oferece com sinceridade um antigo camarada te serve, vem comigo, disse Armando.
— Aceito com muito gosto, respondeu o Dr. Edmundo, moras só?
— Só, tenho mesada na casa vizinha, onde mora uma respeitável família. Ali vem o bonde, tornou ele fazendo sinal ao condutor. São cinco horas da tarde ainda teremos tempo de visitar a cidade antes do jantar.
Passearam até as sete horas, dali em diante Armando pareceu inquieto, distraído.
— Que tens? perguntou o Dr. Edmundo, se a minha presença te embaraça em algum negócio, deixo-te.
— Nada, é que estamos defronte da porta de D. Margarida, e estou ansioso por saber como vai D. Laura; a febre subiu muito esta manhã...
— Quem é esta D. Laura?
— É filha da que eu desejo ter por mãe, e minha noiva.
E os dois amigos entraram por um corredor estreito e mal iluminado, no fim do qual havia uma escada.
Eles subiram, e no último degrau Armando parou para recomendar silêncio; depois penetraram quase sorrateiramente, pisando leve no taboado de uma sala caiada de branco, tendo ao meio uma mesa posta, onde ardia um candeeiro de querosene com abat-jour.
D. Margarida mal pressentiu pisadas, saiu do compartimento imediato com uma garrafinha na mão, e vendo um estranho ficou embaraçada.
Armando perguntou:
— Como vai D. Laura?
— Assim, creio que mal... enquanto não passar a febre dá muito cuidado; mas quem é este Senhor?
— Um antigo condiscípulo, o Dr. Edmundo Lemos, que acaba de desembarcar, vem passar alguns dias comigo.
— Não há dúvida, vou mandar servir o jantar.
— Logo, agora mesmo mamãe, pois o Sr. Armando custou muito, disse uma menina que vinha de dentro.
— Se soubesse que era cedo tinha me demorado mais, disse Armando gracejando.
A pequenina fez uma careta e seguiu a mãe; mas nem por isso o seu rostinho de anjo, louro, ficou menos interessante.
— Ouve Amélia, chamava Armando, e ela seguia.
— D. Laura é bonita assim? perguntou o Dr. Edmundo.
— Não sei, D. Laura é morena, e prefiro esta cor à mais bela neve.
Pouco depois entrou D. Margarida e os convidou para mesa.
O Dr. Edmundo comia com satisfação e recordava com Armando as suas temporadas de estudantes, quando ouviu-se o rodar de uma carruagem que parou defronte da porta.
Minutos depois bateram palmas na escada.
D. Margarida levantou-se, saiu, e tornou a entrar com uma Senhora vestida de preto, trazendo sobre a cabeça mantilha de renda da mesma cor.
— Com quem tenho a honra de falar? perguntou ela introduzindo-a na sala.
— Com a viúva Zuleika Neves, respondeu a desconhecida, não é aqui que mora D. Margarida Pinheiro e sua filha D. Laura?
— É, minha Senhora; mas Laura está muito doente. Tenha a bondade de sentar-se.
— Trazia-lhe aqui um trabalho, mas em vista disso volto com ele, disse a viúva Zuleika Neves, não mandou ainda ir o médico?
— Não, os meus recursos são poucos, e os médicos nesta cidade, as boticas deixam os pobres sem calçado.
— Conheço uma Senhora que é médica, se permite lha enviarei, e não lhe custa nada, nem a cura nem os remédios.
— Lhe serei eternamente agradecida, volveu D. Margarida.
— Pode conceder-me licença para vê-la?
— Pois não, tenha a bondade de entrar aqui para a alcova.
As duas Senhoras entraram, e o Dr. Edmundo ficou pasmado! Ele via nas feições da viúva Zuleika Neves um retrato meio apagado da sua visão do Areré; a voz não podia denunciar-lhe a Rainha do Ignoto, porque estava protegida por uma rouquidão intensa.
Tomado de uma curiosidade extrema foi até a porta da alcova, e D. Margarida convidou-o a entrar.
Zuleika Neves chegou ao pé do leito da doente e pegou-lhe na mão ardente de febre perguntando-lhe:
— Como se acha?
— Boa, respondeu Laura com os olhos brilhantes e parados nas órbitas, que queres aqui... vai-te embora.
— Vim visitar-vos, trazer-vos o médico...
— Mentes! tornou ela cobrindo o rosto com a coberta, viestes roubar-me Armando... mas ele não gosta de ti.
O Dr. Edmundo com a vista cravada no rosto de Zuleika Neves viu a contração amarga de seus lábios, a profunda expressão de seus olhos; mas D. Margarida só viu um sorriso, e ouviu dizer:
— Nada, Senhora, não sou quem pensais... só quero a vossa saúde e vossa felicidade.
D. Margarida foi chamada para dar uma determinação doméstica e só Armando e Edmundo ouviram o resto do diálogo.
— Pensas que me enganas, dizia Laura com os lábios secos e a voz sibilante, não: és tu mesma, bem sei que vens fazer...
— Não; fica descansada, não sou aquela de quem falas; ela já não existe, morreu já há sete anos.
— Mentes! mentes! és tu mesma, e bem te conheço, deixa-me.
A doente terminou com uma agitação nervosa, uma ânsia que assustou aos assistentes.
Então a viúva Zuleika Neves retirou-se fazendo a D. Margarida milhares de oferecimentos.
Armando saiu preocupado com a moléstia da noiva, e o Dr. Edmundo cogitando sobre o que vira e ouvira.