Capítulo L - Uma Lição de Caráter, Cinquenta Moças Vingadas
Capítulo L - Uma Lição de Caráter, Cinquenta Moças Vingadas
Na noite daquele mesmo dia em que tinha estado oculto assistindo às audiências do Cônsul Geral do Infortúnio, o Dr. Edmundo foi à casa d'uma família de seu antigo conhecimento.
Ali conversando com D. Petronília e sua filha D. Miguelina contou o caso da manhã guardando as conveniências que julgou de acerto guardar com relação à Rainha do Ignoto.
D. Petronília e D. Miguelina riram a bom rir da extravagância do caso, e a primeira disse:
— Dr. Lemos, o senhor foi mistificado! Aqui no Recife nunca se ouviu falar em tal cônsul! Não existe tal casa!
— Minha senhora, disse ele, se eu próprio li o dístico... assisti às audiências do Cônsul Geral do Infortúnio.
— Dr., disse Miguelina, desculpe o que vou dizer-lhe: não conte este caso a ninguém, porque lhe dá direito a duvidar da saúde de sua mentalidade.
— Obrigado D. Miguelina pelo conselho, disse ele, bem vê que estou em meu senso perfeito.
Na mesma ocasião entrou da rua o dono da casa e sem mais preâmbulo foi dizendo:
— Ó Petronília, Miguelina, vão se preparar para irmos ao teatro de Santa Isabel, à representação da Mascotte. Oh! Dr. Lemos, como tem passado os dias nesta Veneza americana?
— Bem senhor Gonçalves, mas a vida aqui não é mais para mim que já estou quase sertanejo, é para o senhor, negociante capitalista, próximo a ser comendador, se já não é.
O senhor Gonçalves, sempre alegre, sempre galhofeiro, deu uma risada e ao mesmo tempo uma palmada no ombro do Dr. Edmundo e disse:
— É verdade, quem lhe disse que eu já sou comendador?
— Calculei. Agora o senhor queira dar-me licença para retirar-me, disse o Dr. Edmundo tomando o chapéu e a bengala.
— Mas o que é isto? perguntou o senhor Gonçalves tomando-lhe o chapéu e a bengala, não fuja, o senhor vai conosco, tenha um bocadinho de paciência enquanto me arranjo, divirta-se ao piano, desfolhe este álbum e espere, porque está notificado para nos acompanhar.
Minutos depois o Dr. Edmundo achava-se no teatro de Santa Isabel no mesmo camarote que o senhor comendador Gonçalves ocupava com a família.
No começo do segundo ato ouviu-se um certo rumor no teatro, todos se voltavam, quem tinha binóculo assestava-o para o único camarote que tinha ficado desocupado, cujo dono acabava de aparecer.
O camarote do comendador Gonçalves era mesmo defronte daquele que chamara a atenção do público.
Miguelina entregando o binóculo à mãe disse:
— Veja mamãe, eles já vieram, que linda gargantilha de brilhantes tem ela!
— A quem V. Ex.ª se refere? perguntou Dr. Edmundo, não sei o motivo de tanta curiosidade, há um sujeito ali da segunda fila de cadeiras que parece magnetizado, mas não sei por quem!
— Não sabe?! exclamou Miguelina, não vê o médico australiano com sua formosa filha no camarote número 27? Dizem que ela é maltez e que por isso o pai lhe chama Blandina Malta.
O Dr. Edmundo não soube o que pensar, tornou a fixar a vista para as duas pessoas que ocupavam o camarote designado, e reconheceu pela segunda vez a doutora Clara Benício e a Rainha do Ignoto; mas lembrou-se do conselho que lhe dera Miguelina algumas horas antes, e guardou-se de fazer manifestações comprometedoras de seu juízo.
A moça continuou:
— Não ouviu falar neles Dr.? Pois têm ocupado muito a atenção do público as curas maravilhosas que tem feito o Dr. William Shepherde e ainda mais a beleza de sua filha que produziu um certo desarranjo nos planos e no sossego d'uma família respeitável?
— Como então?
— A Sinhá Mesquita, disse Miguelina, ia casar-se sábado passado com o Jovelino Vileda, negociante acreditado, o sonho de muitas moças da classe média, e até d'algumas do bom tom; de repente ele retirou-se da casa da noiva, e está com pretextos falsos a espaçar o casamento, dizem que está doidamente apaixonado pela filha do médico australiano; mas ela coberta de brilhantes nem o enxerga, é como uma estátua de gelo iluminada pelo sol sem se derreter.
— Menina presta atenção ao que se está representando deixa essa conversa para depois do ato, disse D. Petronília.
Mas enquanto têm eles os olhos e os ouvidos para o palco, tratemos do fato que Miguelina começou a contar sem inteiro conhecimento dele; pois aquilo que é segredo para a família do comendador Gonçalves não o é para o leitor:
A Rainha do Ignoto já por diversas vezes tinha sido informada, pelas paladinas em comissão em Pernambuco, do procedimento d'um senhor Jovelino Veleda, muito querido das moças. Ele fazia consistir a sua glória em apaixoná-las até a loucura! para depois atormentar-lhes o coração com desprezo e chascos que fazia delas na roda dos amigos.
No dia em que saltou no Recife andava ela à noite passeando com Clara Benício, quando ao passar por uma loja de modas viram sair dela Camila Franco com farda de soldado, ao vê-las fez o sinal convencionado do grau de sua ordem e aproximou-se dizendo:
— Sabem? é aqui a loja do célebre Veleda, o leão devorador da felicidade das moças ingênuas ou sinceras; vai afinal casar-se com a filha de um engenheiro; mas acabo de ouvir uma conversa dele com dois amigos que me indignou!
— O que foi? perguntou Clara Benício.
— Ouçam, disse Camila Franco, chegou um amigo e bateu-lhe no ombro:
— Então Jovelino, sempre caíste no laço!? Vais te casar.
— É certo, disse ele rindo, mas ficam umas cinquenta chorando.
— Bravo! tornou o outro, e aquela da rua d'Aurora, já se desenganou de ti?
— A romântica? perguntou ele, esta está ficando tísica, morre logo.
— E a outra da rua do Queimado ainda te manda sempre-vivas e tranças de cabelos?
— Fez ponto final com a notícia... e eu vou mandar umas carradas destas prendas inválidas para minha futura sogra mandar com elas atear o fogo do forno que tem de cozinhar os perus e os leitões para a boda.
Duas gargalhadas fizeram coro com a dele.
Eu estava fingindo comprar lenços ao caixeiro, e não pude aturar mais, paguei pelo duplo e saí.
— Vou dar-lhe uma lição de caráter, e vingar estas cinquenta moças que ele diz terem ficado chorando, disse a Rainha do Ignoto.
E seguiram as três concertando o plano.
Duas horas depois parava um carro à porta da loja do Veleda e entrava nela o médico australiano e sua filha Blandina Malta: ela vinha procurar luvas para o baile que o barão do Valle ia dar a seu pai em sinal de reconhecimento e admiração pela cura maravilhosa, que ele havia feito dos antigos padecimentos da baronesa.
Jovelino Veleda sentiu-se imediatamente preso pelo encanto magnético dos olhos da bela Blandina Malta, e desde aquele instante perdeu o sossego, não pensou mais em outra coisa que em obter um riso amável, um olhar benévolo daquela mulher atraente que lhe pareceu uma feiticeira! uma fada ou uma deusa do paganismo!
No dia seguinte recebeu convite para o baile oferecido ao célebre médico australiano William Shepherde e concebeu esperanças de conquistar-lhe a filha.
O engenheiro Mesquita também foi convidado, e apesar do pouco ou nenhum conhecimento que tinha com esse tal barão do Valle, não deixou de comparecer com a família toda tomada de curiosidade.
Foi ali n'um turbilhão de luzes, de música, de perfumes, de sedas, de rendas e brilhantes, entre o agitar de plumas dos leques das moças e dos risos de todos que Jovelino Veleda sentiu pela primeira vez na vida os tormentos do inferno!
Sinhá Mesquita, sua noiva, já pelo espaçar das visitas nos dias anteriores, já pela esquivança dos olhares no baile, começava a entrar na fase do despeito.
Ele nem se apercebia disto, tinha a vista presa a Blandina Malta como por um ímã!
Mas ela por sua vez engolfada na amável e delicada corte que lhe fazia um grande personagem russo, era uma estátua para todos os outros cavalheiros, limitando-se apenas às restritas obrigações da cortesia.
Por maiores esforços que fizesse o Veleda para merecer-lhe um pouco de atenção, era debalde; mas esse empenho deu nas vistas de todos os convidados do barão do Valle, e o engenheiro Mesquita retirou-se logo alegando um pretexto para não declarar que a filha estava realmente incomodada.
No dia seguinte escreveu e enviou formalmente uma recusa pela filha que lhe autorizava a romper o contrato de casamento.
O caso foi rapidamente espalhado pelas relações de Veleda, e até o jornal dos estudantes tomou conta dele, e mimoseou Jovelino com gracejos picantes.
Eis o motivo do sussurro no teatro quando entrou o médico australiano e sua filha.
Terminado o espetáculo o comendador Gonçalves saiu jeitosamente dando o braço à sua cara metade, um pouco pesada, já pelos anos, já pela gordura.
Miguelina com o Dr. Edmundo seguia na frente e quando este pôs o pé no estribo do carro, ouviu:
— Psio! faça favor...
Olhou, era Probo que saindo da multidão se aproximava.
O Dr. Edmundo chamou-o de parte.
— O que há?
— Preciso falar-lhe com a maior urgência.
— Agora é impossível! Vou acompanhar a família do comendador Gonçalves à casa, é dever de cortesia, depois volto...
— Será tarde... disse Probo, preciso já...
O comendador Gonçalves que se achava perto, disse:
— Dr. parece que sua vida ou de alguém que lhe é caro corre perigo! Vá sem demora, não queremos ser causa de algum prejuízo em sua vida ou em seus negócios.
— Obrigado, volveu o Dr. Edmundo.
E despediu-se desculpando-se o melhor possível.