Capítulo XXXVI - A Procela, o Navio Naufragado e a Temeridade de uma Alma Sensível A Rainha do Ignoto · Capítulo 36 de 70
Obra Menu

Capítulo XXXVI - A Procela, o Navio Naufragado e a Temeridade de uma Alma Sensível

Capítulo XXXVI - A Procela, o Navio Naufragado e a Temeridade de uma Alma Sensível

Começava a anoitecer. O trovão ribombava ao longe e havia indícios de um próximo temporal! O Tufão jogava cada vez mais forte!

As Paladinas do Nevoeiro não se apercebiam disto, e continuavam em suas conversações, jogos, toque de piano e cantos.

A Rainha do Ignoto, concentrada e só, subiu ao convés, para ver o mar que sussurrava espumante e enraivecido!

A atmosfera estava úmida e o vento crescendo de pouco a pouco elevava as ondas à altura da amurada!

Cessaram de repente os cantos e fez-se um profundo silêncio a bordo; mas não foi o medo que tomou de assalto aqueles ânimos feminis que deveriam ser fracos, e eram fortes pelo infortúnio, pela dedicação ao bem, e pela abnegação de si mesmas: fez-se silêncio porque elas recolheram-se naturalmente aos camarotes para dormir.

A Rainha do Ignoto, agora comandante do Tufão, dirigiu-se à proa e fez uma recomendação a Coleta Fulgina que estava de quarto, e mandou três marujas para a escotilha de proa vigiarem o mar, que estava assanhado como uma cascavel prestes a dar o bote!

Depois debruçou-se na amurada e assestou o binóculo para diversos pontos do horizonte. Outro menos habituado à caça do infortúnio não teria visto aparecer dentre as profundas trevas da noite, quase imperceptível, ao clarão do relâmpago, um vultozinho de navio quase a submergir-se... e ela viu.

O navio arquejava, não podia mais! Era um enfermo no último arranco!

Ela largou o binóculo e foi ao leme para mandar que navegasse nas águas daquele navio, procurou a maquinista e disse-lhe que desse à caldeira toda a força que pudesse.

A maquinista executou a ordem, e o Tufão voou escabeceando nas asas de outro tufão!

Era sublime! Terrível como o desespero perseguindo o desespero em sua marcha vertiginosa!

As Paladinas do Nevoeiro levantaram-se sobressaltadas, perguntando:

— O que houve?

— O que é isto?

— Vamos a pique?!

— Nada, minhas senhoras, respondeu a Rainha do Ignoto, o navio é forte e novo, não há perigo para nós, há muito e eminente para os infelizes que vão naquele que já vai se enterrando no mar!

E apontou para o navio, já muito perto, ao alcance do porta-voz, se a pancada de mar e o sibilar do vento deixasse ouvi-lo. As paladinas viram aparecer, de espaço em espaço iluminado pelo clarão do relâmpago, um espetáculo terrível! medonho! Era o quadro do naufrágio!

A lancha e os botes tinham sido levadas por um golpe de mar furioso!

Pelos lados da embarcação carneiros e bois batendo uns contra os outros misturavam seus batidos e urros com o queixume dos homens, gritos das mulheres e choro das crianças!

Era uma coisa sinistra! um combate em turbilhão infernal!

As marujas do Tufão corriam a calafetar as portinholas e as escotilhas, e algumas já com as bombas e baldes esperavam o momento preciso para esgotar o porão.

Mas a Rainha do Ignoto não as via, nada ordenava, tinha a alma suspensa entre o abismo do céu e o abismo do mar!

O seu grande coração, por onde haviam passado as tempestades ignotas do infortúnio, não esmorecia aos arranques furiosos dos elementos revoltados. Ela sentia na alma a ânsia do bem, e afagava a ideia de arriscar a vida para a salvação daqueles que morriam deixando talvez a felicidade, o amor.

— Companheiras de minha alma! gritou ela com voz alterada, corramos a salvar aquela gente!

— Como? perguntou a imediata, se nós mesmas corremos perigo em nossa embarcação!

— Lanchas ao mar! tornou ela com energia.

Ninguém se moveu; as paladinas estavam estateladas!

— Ignez Racey, tome conta do comando.

E já no portaló, com um pé na escada, gritava no delírio de sua aflição:

— Meu salva-vidas! tragam-me o meu salva-vidas! King! Fiel! Vamos depressa... Oh! Deus, uma criança que se afoga! caiu dos braços da mãe!

E correu para saltar no barco salva-vidas, que três marujas corajosas haviam lançado ao mar.

Mas, só acompanhada por King que remava desesperadamente, e por seu Terra-Nova, lá se foi ela misturando os seus gritos de animação com o clamor dos náufragos, o bramido do mar e o sussurro do temporal!

As paladinas tomadas de um só pensamento bradaram:

— Está louca! Está louca a comandante do Tufão!

— Adeus Rainha do Ignoto! exclamou Roberta ajoelhando, banhada em pranto.

Alguns minutos depois elas viram um espetáculo sublime!

Aquela mulher extraordinária aparecia iluminada pelo relâmpago como um ser sobrenatural recebendo a bordo do barco os náufragos que se agarravam a ela e os que Fiel arrebatava às ondas com uma perícia sem nome!

Uma chuva de palmas ressoou a bordo do Tufão e as paladinas gritavam em frenético delírio:

— Bravo! Bravo!

A tempestade começava a serenar e a lua vinha rompendo a grossa camada de nuvens como um anúncio de paz.

As Paladinas do Nevoeiro se animaram, mandaram arriar as lanchas e escaleres, e foram ajudar a recolher os náufragos.

A atmosfera já havia descarregado, e o céu se mostrava quase limpo, quando acabaram de salvar o último passageiro e o último tripulante da galera Zenon.

O resto da noite passaram a prestar socorros aos infortunados náufragos, a maior parte num estado lastimoso! Alguns mesmo feridos:

Aqui era Martha Vieira que esfregava o corpinho rosado de uma criança de dois anos que jazia inanimada; ali era Angelina Dulce que conduzia as senhoras para mudarem as roupas encharcadas, que escorriam pelo taboado do convés; adiante era a doutora Clara Benício dando um cálice de conhaque a um pobre velho, que o não podia sustentar, tanto era o tremor das mãos!

A Rainha do Ignoto, ajudada por Octavia Milão, Coleta Fulgina e Roberta, cuidava dos feridos, estancando-lhes o sangue, pondo ligaduras e acomodando os mais doentes para serem pensados pelo médico da Zenon, que nada sofrera no desastre.

Ela estava em toda parte! Era o centro de todo movimento! O seu coração retraído de prazer dilatava-se para o infortúnio.

1/1
Menu

Fazer anotação