Capítulo XXXIII - As Avezinhas do Ninho dos Anjos e os Desbaratos da Vida A Rainha do Ignoto · Capítulo 33 de 70
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Capítulo XXXIII - As Avezinhas do Ninho dos Anjos e os Desbaratos da Vida

XXXIII - As Avezinhas do Ninho dos Anjos e os Desbaratos da Vida

Depois do almoço, que terminou às duas horas da tarde, a Rainha do Ignoto, acompanhada pelas paladinas e as enjeitadas, entrou no salão de honra do palácio.

Aquele compartimento era o primor da fantasia! o ideal do gosto, do belo, e do sublime!

O estranho, que como o Dr. Edmundo transpusesse pela primeira vez os seus umbrais, ficaria, como ele ficou, de pé, pasmado, soerguendo o reposteiro com uma mão, e com a outra buscando o coração que parecia sem pulsações.

Estava indeciso, sem saber se devia pisar com o tacão das botas aquele tapete aveludado, macio, de onde se exalava um perfume delicioso e enlevador!

As crianças se espalhavam por ele correndo, saltando ou antes a voarem, como um bando de avezinhas pipilantes ao deixar o ninho.

As cadeiras estufadas de veludo carmesim, com franjas de ouro e bordadas a seda, pérolas e diamantes, eram atropeladas pelas pequenitas que também queriam acompanhar as maiores numa valsa doida como a alegria que se manifestava nos semblantes daquelas enjeitadas felizes.

O som do piano, que a mais crescida delas tocava com perfeição, enchia o espaço duma música viva, como o raiar do sol num dia de primavera.

Quantas risadas argentinas partiam daquelas bocas pequenas, felizes, pela idade da graça, do sonho, e da poesia?!

Uma delas chegou aos lábios os dedinhos de unhas rosadas como bagos de romã e atirou um beijo à Rainha do Ignoto, esta ergueu-se do sofá, prendeu-a nos braços, e veio com a menina sentar-se de novo:

- Como é linda! disse afagando-a, lembra-se Generalíssima, daquela noite de luar em que passeávamos nas ruas da Fortaleza?... Eram onze horas da noite, saímos duma praça e ao dobrar um canto de muro encontramos sobre o trilho do caminho de ferro uma pequenita quase a ser devorada pelos porcos?

- Perfeitamente, disse Martha Vieira, a Generalíssima, ela tremia de frio, eu a embrulhei no meu capote, e seguimos para o Palácio do Pouso, desconfiadas e cautelosas como dos salteadores!

- Celina! exclamou a Rainha do Ignoto, repreendendo a criança, que havia puxado os cabelos louros para cima do rosto, onde aparecia um biquinho de zanga.

- Não é contigo que falamos, é com uma menina que só nós conhecemos.

Celina, que pouco mais tinha de seis anos, estendeu os bracinhos ao pescoço da Generalíssima e abraçou-a sorrindo, depois beijou as mãos da Rainha do Ignoto e se afastou dançando e cantando estas estrofes infantis:

«Somos pequenas

Débeis plantinhas

Nossas cabeças

São ventoinhas.»

A menina do piano chamava-se Helena, e já tinha quinze anos feitos: era um tipo ideal da beleza! Uma rosa entreaberta, uma alvorada anunciando o sol! Ela tinha o porte altivo, os modos distintos, o olhar profundo e sério, e os lábios sempre cerrados por uma leve sombra de tristeza, ou contraídos pela ironia.

Estava claro em seu semblante inteligente o muito que ela compreendia de sua condição no mundo, via-se bem o quanto lhe estava a doer, em sua vaidade de formosa, o nome de enjeitada.

A Rainha do Ignoto fitou-a por alguns instantes acompanhando seus finos dedos sobre o marfim do teclado, e disse:

- Pobre menina! receio muito que tu não sejas feliz; mas, eu serei teu anjo da guarda.

- Parece descender de boa família, ponderou Clara Benício.

- Descende de certo, tornou a Rainha do Ignoto; mas de que vale isto para ela, se foi renegada por seus pais? Ergue a fronte com mais orgulho a filha d'um sapateiro que lhe deu seu nome honrado, embora humilde, que a filha d'um príncipe que se oculta na sombra para que ela não lhe chame pai.

- Mas, isto é uma injustiça da sociedade, replicou a doutora Clara Benício, Helena vale por si: é formosa, bem educada, e tem um belo caráter. O que lhe falta para hombrear com outras que andam por aí a ostentar grandeza, sem possuírem nem metade de seu valor moral?

- Falta-lhe o nome que a sociedade egoísta mesma lhe roubou, volveu a Rainha do Ignoto, quase ninguém ignora os erros e preconceitos desarrazoados da sociedade; mas, é raríssimo o ser que os despreza e os arrosta sem temor. Não é a primeira a reconhecer o mérito de Helena, contudo, tenho a certeza de que nas altas rodas, terá muitas vezes de ser ferida em seu amor próprio, e, eis porque acabo de dizer que receio que não seja feliz.

- Há um remédio, ponderou a Generalíssima Martha Vieira, só apresentar-se na sociedade depois de casada, com o nome do marido ninguém se atreverá a desconsiderá-la.

- É aí no remédio que está a maior dificuldade, tornou a Rainha do Ignoto, tenho um projeto que ela mesma inspirou-me sem o saber, casá-la com Zoroastro, sei que se amam, e são ambos dignos um do outro.

- Muito bem, aprovou a doutora Clara Benício, ele forma-se este ano, em direito; é bem apessoado, inteligente e de boa conduta, está no caso de fazer-lhe a felicidade.

- A senhora sabe que ele forma-se este ano, que é inteligente e tem boa conduta; mas, o que não sabe é que não tem um nome para ofertar a Helena, lhe oferecendo a mão.

- Que diz? Zoroastro Brasil? exclamou Clara.

- Brasil, minha doutora, porque é filho desta terra que já chamaram de Santa Cruz; mas, ele foi o primeiro enjeitado que recolhi ao Ninho dos Anjos.

- Como? Não sabia! exclamou Clara Benício admirada.

- Também não sabia, acudiu a Generalíssima Martha Vieira.

- Eu navegava neste tempo com Ignez Racey, só ela me acompanhou nas pesquisas que fiz para descobrir quem eram os pais do infeliz chegado à terra como um lixo varrido de todas as portas.

- Pelo que ouço suponho que o Dr. Zoroastro tem uma história muito trágica, observou Clara Benício, conte-nos isso.

- Vejam como começou ele a sua vida no mundo: a mãe, que provavelmente não tinha coração, o mandou expor à porta d'um desembargador riquíssimo e sem filhos; mas tão egoísta era ele, como a desembargadora, que só faltou atirar com a ponta do pé para o meio da rua a infeliz criança. Ora, ambos cheios de cólera, revoltados na justa indignação de se crerem respeitabilíssimos! mandaram deixar o recém-nascido na chefatura.

O chefe de polícia, não sabendo que destino dar à criança, mandou por um soldado lançá-la à porta da Santa Casa de Misericórdia. Mas já sendo alta noite e não tendo a porteira dado pelo choro da infeliz, ela ali estava enregelada e morta de fome:

Uma preta velha que costumava a correr a cidade embriagada, tinha vindo na tarde daquele dia cair defronte da escadaria da porta da Santa Casa, e só acordou à meia-noite pelo vagido do pobrezinho: ergueu-se, pegou nele, e começou a embalá-lo nos braços, e procurando aquecê-lo no seio ressequido, lá se foi caminho da miserável choupana que o vento da praia soerguia as palhas do teto esburacado.

Aquela mendiga e bêbada deu uma lição de caridade aos ricaços empedernidos, e uma bofetada irônica na face da mãe desumana! Mas, ai! a pobre velha não tinha meios para criar o menino... nem sei o que lhe dava... Ele ia morrer, já tinha a pele pegada aos ossos, mal podia chorar, com um choro fraco de criança moribunda! Foi por esse tempo que o Tufão fundeou no porto da tal cidade:

Desembarquei com Ignez Racey, e fomos dar uma vista pelos bairros da miséria, então descobrimos o lastimoso quadro da velha mendiga, bêbada, cambaleando com o esqueletozinho nos braços.

Pedi para que mo entregasse, e ela não pôs o menor obstáculo: foi como quem se livra d'uma pesada carga. Pus as minhas agentes em atividade e descobri tudo... até os nomes dos pais da criança. Eis a história de Zoroastro.

- Ele sabe ou ignora isso? perguntou a doutora Clara Benício.

- Devia ignorar, disse a Rainha do Ignoto com tristeza; mas, foi impossível ocultar daquele espírito precocemente pesquisador, os lamentáveis fatos do começo de sua existência. Em criança pedia chorando que lhos contasse, mais tarde exigiu com energia a sua história jurando matar-se, se não lhe dissessem como tinha vindo parar a um recolhimento de enjeitados. Depois que ele está na academia só lhe tenho falado sob o disfarce do Cônsul Geral do Infortúnio; mas, tenho dele as melhores informações, e chegando ao Recife tratarei de colocá-lo, e depois faremos o casamento com Helena; sei que é este o sonho dourado do meu protegido e farei para que ele se realize.

- E ela, perguntou Martha Vieira, tem alguma inclinação para ele?

- Não sei, volveu a Rainha do Ignoto, vou agora sondar o seu coração.

Helena cessou de tocar, o piano calou-se, e as crianças exaustas da dança caíam rindo sobre o tapete, e enterrando nele as mãozinhas, como em macia relva. Outras agarravam-se ao rendilhado dos móveis ou aos pés dos grandes vasos de ouro que espalhados pelo salão sustentavam enormes tufos de flores.

Helena acudiu a um aceno da Rainha do Ignoto, e sentou-se ao lado da doutora Clara Benício.

- Estás contente com a viagem que vamos fazer, Helena? perguntou a Rainha do Ignoto.

- Que alegria me pode causar o tumulto das grandes cidades, senhora? disse a menina baixando os olhos negros e de longos cílios aveludados, aqui entre as minhas companheiras e mestras sou digna de hombrear com todas, lá... serei uma menina sem família... uma enjeitada.

- Quem te disse isto? perguntou a Rainha do Ignoto.

- Então no Ninho dos Anjos não existe um livro, onde se registra, não só o nosso nome como a forma porque fomos encontradas, e a data deste dia?

- Como leste este livro?

- Entrei por acaso na secretaria, lá não havia ninguém, encontrei o livro ali à mão, e li o que me dizia respeito. Fiquei sabendo que não sou órfã, como me faziam crer, pertenço ao número daquelas que não podem erguer a fronte ao lado das que se orgulham de ter uma família. Era feliz até aquele tempo, hoje sinto-me triste, e tenho medo do futuro.

- Oh! Deus! como a solidão faz o espírito amadurecer depressa! exclamou a Rainha do Ignoto, esta menina fala como uma senhora. Não, Helena, não te leves por essas ideias; sou eu quem se compromete a te fazer feliz; e, se não tens o nome de teu pai, terás o dum esposo muito digno, muito nobre por suas qualidades.

- E se ele não tiver também um nome, uma família?

- Aonde queres chegar, menina? eu te compreendo, disse a rainha; mas, explica-te.

- Com toda a franqueza, disse ela, nunca entrarei no seio d'uma família que possa lançar-me em rosto a desventura do meu nascimento, e também não me aliarei a outro enjeitado como eu, porque não poderemos aparecer nessa sociedade que condena inocentes e absolve culpados.

- Quem já te falou da sociedade, Helena? perguntou ainda a Rainha do Ignoto.

- Foi a mestra Magdalena, aquela que tiraram de lá, porque nos contava as amarguras de sua vida.

- Agora está feita porteira do Purgatório, contando a história da vida dos outros, disse Clara Benício, rindo.

- É uma santa mulher, volveu a Rainha do Ignoto; mas, coitada! sofreu muito, e tem a mania de indispor todo o mundo contra a sociedade. Aonde está tem licença de falar; com estas crenças era que não convinha viver; pois o meu desejo é que elas ignorem o maior tempo possível as dores e perversidades da vida.

A voz da Rainha do Ignoto tornou-se extremamente comovida e terna; mas continuou:

- Minha alma chora quando meus olhos fitam a doce calma, a viva alegria do rosto duma criança. A terra seria um paraíso se todas as existências findassem nessa idade de esperanças, de crenças, sonhos e ilusões! Falam com muito entusiasmo da mocidade; mas o que ela é senão um campo de luta, de onde há mais que temer do que esperar?

A Rainha do Ignoto guardou silêncio, e escutava com delícia o alarido que faziam as enjeitadas nos brinquedos que inventavam com muito espírito.

Era muito condescendente com elas, tinha imaginado dar-lhes todo o carinho que lhes fora negado pelas mães, e por isso, escolheu para empregar, no Ninho dos Anjos, viúvas que por ocasião de naufrágio, incêndio, guerra ou epidemia, tinham perdido o marido e os filhos, porque assim, fazia duas restituições, dando mães a filhos sem mães, e dando filhos a mães sem filhos. Só elas poderiam ter essa dedicação maternal, impossível nos corações ressequidos pelo misticismo da religião e do claustro.

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