Capítulo XXXVIII - O Desembarque Foi Comum A Rainha do Ignoto · Capítulo 38 de 70
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Capítulo XXXVIII - O Desembarque Foi Comum

Capítulo XXXVIII - O Desembarque Foi Comum

O dia vinha amanhecendo brumoso e triste; contudo sentia-se a bordo um calor sufocante! A atmosfera parecia de chumbo!

Quem não tinha nada com as manobras do Tufão dormia ainda; mas seu comandante tratava de fundeá-lo, pois tinham chegado ao porto.

Na ocasião havia muitos vapores e navios de vela ancorados, arfando nas águas da baía de Guajará.

A saída ou a entrada de um deles só ocupava a atenção dos que tinham interesses particulares em seu carregamento, ou atraía as vistas dos catraieiros portugueses, que divisando algum que não atracou no cais, cercavam-no com suas catraias a porfiar uns com os outros cada qual a querer levar em seu barco todos os passageiros, em risco de lhe darem o último banho.

Apenas o Tufão deixou cair o ferro, ouviu-se um borborinho de vozes alegres, um alvoroço a bordo, como sempre acontece nos desembarques.

A Rainha do Ignoto, encerrada em seu camarote, esperava que as Paladinas do Nevoeiro fossem para terra; estas davam a seu desembarque feições tão comuns, tão naturais que era impossível duvidar de sua passagem em um navio mercante qualquer.

Já levavam o destino de suas moradas na grande cidade de Belém, cuja casaria branca de telhados vermelhos elas avistavam do porto doidas de alegria.

Nos poucos dias que ali permanecessem iam elas apresentar-se na sociedade cada uma na altura do grau de educação que recebeu figurando na classe média, nobre, ou plebeia conforme a realidade de seu nascimento.

A Rainha do Ignoto não exigia de suas companheiras o sacrifício de subir ou descer senão nos momentos especiais, forçada pela necessidade momentânea.

Ela sim que mergulhava no oceano humano como um infusório no fundo do mar trabalhando para formar um continente!

É das trevas que se pode contemplar a luz.

Da pobreza e da obscuridade se veem as dores humanas por um telescópio, da fortuna, da felicidade só se enxergam os que se apresentam através das vidraças dos palácios e carruagens.

A Rainha do Ignoto mandou procurar para si uma casinha pobre, numa rua afastada do movimento comercial da grande cidade; era dali que ela queria fazer o seu ponto de partida para todos os dramas, comédias e tragédias da vida, onde tinha de figurar de protetor ou de juiz.

Ordenou que não desembarcassem Odete por causa de seu hábito de cavalheiro, que podia chamar atenção.

Probo aproveitou a confusão do desembarque e falou de parte com a fingida Odete:

— Sabe, o acaso se combina para proteger sua aventura.

— Como? disse o Dr. Edmundo.

— Odete não desembarca, fica sob a guarda de uma maruja velha que mal se lembrará dela nas horas da comida; Roberta foi quem se encarregou de vir a bordo todos os dias para saber dela; então o Sr., em todos os portos pode ir para terra, envergar o fraque, pôr a bengalinha na mão, o chapéu na cabeça, e sair por aquelas ruas a palestrar com os amigos, beber cerveja, jogar bilhar, namorar... enfim é meu prisioneiro como eu sou destas malucas, eu hei de vigiá-lo como elas me vigiam:

— Muito obrigado, Sr., pela licença que me dá, não tema que eu abuse dela; pois estou demais interessado por penetrar no mistério.

— E eu doido por acabar com ele, disse o velho pensando no modo de atirar o seu bote de Serpente.

Ele não queria desprender-se do Dr. Edmundo, porque contava convencê-lo e supunha ganhar um aliado inteligente e ativo. Este também por sua vez planejava em sentido contrário, e por isso procurava agradar a Probo mostrando-se de seu parecer.

Ao separar-se, dele disse:

— Aonde o encontrarei todos os dias para informar-me do que houver?

— No cais, às sete horas da noite, e às oito da manhã.

— Me dá a liberdade sem nenhum temor, não receia que eu abuse dela ao menos pelo quinhão que toca à língua? perguntou o Dr. Edmundo.

— Pior para si, meu caro, disse Probo encolhendo os ombros, pensei que já podia avaliar a força desta maçonaria de mulheres; mas enganei-me, portanto vou explicar-lhe mais esta: elas têm sinais convencionados pelos quais se conhecem em toda parte onde se encontram; mas eles são de acordo ao grau de cada uma, de forma que às vezes uma paladina de ordem superior manifesta-se à outra inferior pelo sinal da ordem dela, ou mesmo não corresponde, não se dá a conhecer para lhe servir de guarda secreta. Se a tal conta em família o que viu no Ignoto da ilha do Nevoeiro, instalam-se disfarçadamente algumas nas vizinhanças, e em poucos dias a pobre moça vai ter ao asilo das loucas, porque elas com ar de proteção e derramando benefícios convencem aos estranhos e aos próprios pais de que a filha perdeu a razão e está a dizer coisas extravagantes. Se o Sr. deseja ir para a casa dos orates conte o que tem visto neste curto espaço de tempo.

— Com certeza Sr. Probo, eu não me atreveria a contar o que tenho visto a quem quer que seja, com receio de passar por louco, visionário...

— Pois bem, meu amigo, é por esse mesmo motivo que eu me calo esperando uma ocasião azada para o golpe definitivo.

— O que tenciona fazer?

— Mais tarde lhe direi: até logo, a Roberta me acenou, creio que agora em vez de caçador de onças vou ser pescador de...

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