Capítulo LVIII - Um Episódio da Vida da Rainha do Ignoto A Rainha do Ignoto · Capítulo 58 de 70
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Capítulo LVIII - Um Episódio da Vida da Rainha do Ignoto

Capítulo LVIII - Um Episódio da Vida da Rainha do Ignoto

Depois de uma manhã chuvosa veio a tarde tão linda como nos dias de verão.

No firmamento azul brilhava o sol pendendo para o ocaso e banhando de luz a relva orvalhada e as flores do jardim.

As borboletas brancas passavam em bandos, doidas de alegria.

O céu desmaiado e sereno, docemente triste derramava na alma da Rainha do Ignoto um punhado de recordações da infância e dos primeiros anos de sua mocidade.

Ela estava debruçada na varanda de um lindo chalé, e fitava pensativa as águas da baía do Rio de Janeiro.

Havia sobre o balaústre ao lado dela, um vaso com uma roseira, cujos ramos pendiam-lhe sobre a cabeça.

A tépida viração da tarde embalava a haste de uma rosa meia aberta, e parecia dizer em sua muda linguagem saudades do passado.

Se alguma das Paladinas do Nevoeiro pudesse ver ali a Rainha do Ignoto, sem o disfarce da máscara, recostada no parapeito, com a frente pendida na mão; e a face sulcada por uma lágrima, talvez que pudesse adivinhar o seu segredo.

Mas só Fiel deitado a seus pés erguia para ela o seu olhar lânguido e triste como o rumor das ondas que se quebravam na praia.

A infeliz tinha acompanhado com a vista a fumaça de um barco a vapor que se afastava e comparando o seu fumo evolindo-se no ar às ilusões da vida, chorou.

Ouviu passos na sala imediata e retirou-se da varanda com seu disfarce habitual.

Entrou Clara Benício acompanhada pela muda Odeth.

— Salve Sol do Ignoto; disse ela, eclipsado de nossa vista.

— Bem-vinda seja a interposição da luz entre mim e minhas companheiras, respondeu com tristeza.

— Sofreis Senhora? exclamou Clara Benício mudando do tom alegre em que tinha falado, porque estais triste?

— Porque vou chegando ao fim da jornada da vida; e receio não encontrar porto.

— Mal vos compreendo senhora; mas vejo que tendes na alma uma dolorosa impressão, uma enfermidade talvez...

— Sim, daquela que não tem nome na vossa ciência, que os médicos não conhecem, e só um Deus a pode curar.

— Nunca amaste Senhora? perguntou Clara Benício, perdoai a minha indiscrição.

— Nunca, respondeu ela. O único homem que mereceu ser amado por mim foi aquele... Vem ver...

E chegando à varanda com a Dra. mostrou-lhe um salteador que passava na rua conduzido pela tropa e seguido de um bando de curiosos.

— Jayme Ortiz!... Meu Deus, que horror! exclamou Clara Benício entrando.

— Juro pela fé de meu caráter, volveu a Rainha do Ignoto com energia, que nunca o amei; mas repito: foi o único capaz de corresponder aos sentimentos de minha alma com toda força, verdade e constância da vida inteira, aquele poeta e bandido de coração diamantino. Vês por isso, que nasci condenada a não amar: porque os outros, nobres perante a lei ou sociedade, são bandidos no amor, e não há onde escolher.

— Pobre Ortiz! exclamou Clara Benício compungida, quem diria que com tão má tendência possuís um coração tão aprimorado?

— Sim, disse a Rainha do Ignoto, o mundo tem desses contrastes.

E falando a esmo como no sonambulismo de um sono profundo dizia:

— Ah! já lá vai bem longe o tempo em que engolfada em um interminável sonho poético, num idealismo infinito! pouco se me dava do que existia ao redor de mim. Não ouvia as falsas lisonjas dos impertinentes proclamadores da formosura. O mundo exterior só existia para mim pelo lado estético das graças da natureza; seus encantos não me deixavam tempo para as apreciações particulares de salão.

Clara Benício estava admirada daquela expansão espontânea tão avessa ao gênio da Rainha do Ignoto.

E ela continuava:

— Havia eu completado quinze anos, e foi justamente por esse tempo que Jayme Ortiz me viu pela primeira vez. Era em uma bela manhã de Maio, passeava eu com minha mãe pelo campo, e juntava em ramalhete as flores que colhia.

Depois, continuou ela, vi-me algumas tardes a bordar à sombra de uma parreira. Por aquele tempo Jayme Ortiz habitava com sua velha mãe um miserável pardieiro que deitava as janelas para o jardim de nossa casa. Vendo-o sempre pregado ao peitoril da janela, com um livro aberto entre as mãos e os olhos fitos nas árvores de nosso pátio, ou na varanda de nossa casa, nem de leve me passou pela ideia a verdadeira causa daquela assiduidade, pois tive o ingênuo pensamento de considerá-lo louco.

— Comuniquei essa ideia a minha mãe e ela na experiência de sua idade, tendo compreendido primeiro a infeliz paixão de Jayme Ortiz abanou tristemente a cabeça e disse:

— É preciso deixares por algum tempo as tuas flores, ao menos enquanto lhes esvoaça em roda um inseto venenoso.

— Deixei por algumas manhãs de descer ao jardim; mas depois com os olhos cheios de lágrimas pedi-lhe que não me separasse de minhas roseiras, meus bogaris, cravos e sempre-vivas. Ela comoveu-se; sabia da minha predileção pelas plantas, e deixou-me continuar na visita habitual a minha família de vegetais.

— E todas as manhãs e à tarde quando o sol morria deixando no horizonte rosadas nuvens, ia sentar-me no portão da chácara para ver brincar as crianças dos vizinhos. Então pela rua quase deserta via passar Jayme Ortiz com aquela cor bronzeada, aquela barba espessa, cabelos meio longos e anelados, as pernas arqueadas, trocando os pés, pondo o direito onde devia pôr o esquerdo, e sentia uma espécie de repulsão misturada de condolência:

— Ele cravava-me um olhar terrível! Aquele olhar tinha a cor vermelha da lava do vulcão!

Uma vez atirou-me uma carta e ela ficou sobre a calçada; eu fugi medrosa e o infeliz tornou a guardá-la no peito, e desapareceu:

— Minha mãe ralhava-me sempre pelo meu descuido nesses passeios, temia que ele me apunhalasse, e não poderia perdoar-lhe o sacrilégio de amar-me com tal paixão! Embevecida nos doces sonhos dos primeiros anos eu nada via, nada percebia da grandeza daquele afeto! da enormidade daquela dor!

— Muitas vezes encontrava entre as flores do jardim, versos escritos com a veemência de um grande coração de verdadeiro poeta.

Neles tachava-me injustamente de cruel, e de pérfida! Nunca enganei a ninguém; mas, lhe perdoa a cegueira. Pois, uma vez que estava expressando palavras de ódio e de desprezo contra a vida, vomitando injúrias contra a sociedade, alguém pronunciou por acaso o meu nome; e ele na maior fúria em que estava, embriagado, cambaleando, deixou cair o copo em pedaços no chão da taverna; ameigou a voz, pendeu a cabeça para o balcão e acabou soluçando!

— E este homem! que nunca conseguiu o simples prazer de trocar comigo duas palavras, em uma conversação banal, teve a coragem de amar-me sem esperança quinze longos anos! Pobre Ortiz, o teu louco amor foi um terrível anátema para meu coração amaldiçoado por ti! réprobo eternamente!

A Rainha do Ignoto entrou a cismar, e a Dra. Clara Benício perguntou:

— Nesse tempo, Jayme Ortiz já era salteador?

— Provavelmente, pois já tinha trinta anos, pouco mais ou menos; mas, ele fazia acreditar que todos os desmandos de sua vida provinham dessa paixão frustrada. Tenho certeza de que não começou daquela data, pelo menos a sua embriaguez, e, apesar disto sempre que me recordo deste episódio de minha vida, fico em extremo compungida.

— Chamais a isto um episódio, senhora, disse a Dra. Clara Benício, dar-se-á o caso que vosso coração tenha uma história muito longa e complicada?

— Não, Clara, meu coração não tem história, porque se tivesse, para contá-la seria preciso inventar uma língua diferente de todas quantas se falam na terra.

E a Rainha do Ignoto pendeu a cabeça em profundo meditar, e Clara Benício retirou-se impressionada.

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