Capítulo XXI - A Noite de S. João na Fazenda do Poço do Capim
XXI - A Noite de S. João na Fazenda do Poço do Capim
Chegou o dia 23 de junho, estamos certas de que nenhuma de nossas leitoras deixa de conhecer o singular costume das fogueiras e das sortes, modo poético de festejar S. João em nosso caro Brasil.
Nas cidades não deixam as moças de dar seu bocadinho de culto às poéticas superstições deste memorável dia; mas, é principalmente nas roças e fazendas que elas são praticadas com maior graça e mais sincera crença.
O Dr. Edmundo tão preocupado andava com os mistérios da gruta e da cabana, que tinha esquecido o convite do Sr. Martins, mas na manhã daquele dia, foi surpreendido pela visita de Eduardo Gama que vinha concordar a hora da partida.
Às quatro em ponto tornou à porta do Dr. acompanhado de um troço de rapazes da povoação que também tiveram a honra de ser convidados.
À frente do bando alegre e folgazão ia o célebre Boão do Poço soltando foguetes, e dando vivas a S. João.
O Dr. Edmundo deu tréguas às suas ideias e contrariedades, e cavalgou alegremente ao lado dos outros.
Pelo caminho quando anoiteceu, viram, aqui e ali, entre a ramagem da oiticica ou do juazeiro, brilhar a chama duma fogueira que o pobre habitante da choupana próxima também acendera em honra do santo.
Já avistavam a grande fogueira e os fogos que as moças e as crianças soltavam na casa da fazenda que era no meio dum cercado de ripas de carnaúba presas em esteias fincadas de longe em longe.
A casa era rústica, bastante espaçosa; mas, muito baixa; tinha um alpendre na frente onde se viam alguns bancos de madeira altos e estreitos, muito pouco cômodos para servir de assento.
Logo no oitão ficava o curral das vacas, o chiqueiro das cabras, e mais adiante a capoeira das galinhas.
Um velho cão de caça deitado no pátio, levantou-se e ladrou dando notícia, aos de casa, que chegava alguém de fora.
Aos rosnados do cão veio um moleque, rodou o grosso toro de pau-ferro que servia de tranca à pequena porteira, e escancarou-a deixando passar um a um os cavaleiros recém-vindos.
Eles se apearam, e foram entrando no terraço debaixo duma chuva de faíscas de rodinhas e pistolas acompanhadas de bombas e outros fogos de estalo.
Foram recebidos entre risos e palmas: até o vigário que já lá se achava trincando uma espiga de milho verde assado, ria a bom rir, dum modo franco, vendo Boão do Poço a cavalo fazendo corrupios à roda da fogueira, para obrigar o pobre animal a saltá-la.
Foi preciso D. Raquel interceder em favor do sendeiro, do contrário seu amo, na intenção de mostrar-se, ia sacrificar-lhe a barriga à crepitante labareda!
À claridade dos lampiões que pendiam dos esteios do alpendre o Dr. Edmundo divisou, entre as duas irmãs do vigário, Henriqueta com cara de quem se aborrece; mas, ao vê-lo, levantou-se e foi-lhe ao encontro alegremente:
- Ainda bem Dr., disse ela, que veio ajudar-me a apreciar um S. João no Poço.
- Na cidade não o teríamos melhor, respondeu ele.
- Apoiado! gritou o vigário dando-lhe assento ao pé de si.
- Ora Dr., tornou ela, o que temos na roça que possa exceder aos esplêndidos bailes da capital?
- A sinceridade dos corações, volveu ele sorrindo.
Carlotinha lançou-lhe um olhar agradecido e desapareceu por uma porta que dava para o interior.
O vigário, que estava sempre pronto para exaltar as qualidades da afilhada, dizia acompanhando-a com a vista:
- Não há Sr. Edmundo uma menina como esta! É impossível a gente deixar de querer-lhe bem! Que gênio brando! Sensível, caridosa, obediente! nunca vi tanto!
Henriqueta afastou-se despeitada dizendo a meia voz:
- Livre-me Deus das sonsas...
Mas enquanto os convidados conversavam ou tocavam algum instrumento que divertisse a sociedade, a filha do Sr. Martins assistia a preta mexer a canjica, que devia ir para a reza bem quentinha.
Depois mandava encher os copos de aluá, e assim velava por tudo para que todos saíssem satisfeitos; mas, a mola real de seus desvelos era a presença do Dr. Edmundo na festa. Desde a véspera daquele dia que as pretas estranhavam a impertinência da menina: não haviam guardanapos, toalhas ou copos que estivessem limpos, os bolos feitos por sua mãe estavam malfeitos, a casa não estava bem varrida; afinal tudo lhe parecia inferior, indigno de figurar na festa a que tinha de assistir aquele, que lhe fez pular pela primeira vez o seu inocente coração.
Ela não sabia o que fizesse para dar maior realce aos móveis, à luz, à louça, à sala enfim. Mirava e tornava a mirar os aprestos da ceia, ia fazendo aqui e ali uma ou outra modificação sem jamais se sentir satisfeita.
- Oh! mocidade! engano da vida! disse consigo uma velhinha experiente, que a observava de parte.
Vieram chamá-la para tirar sortes, e ela apareceu na sala risonha e feliz como só pode ser uma alma num corpo de dezesseis anos engolfado nas ilusões do amor e cujo coração transborda iluminado d'esperanças muitas vezes mentirosas.
- D. Carlotinha tire uma sorte, disse Boão do Poço, para ver se se casa este ano.
A menina meio risonha e meio acanhada deu volta à roda da fortuna.
- Onze! gritou o rústico, leia D. Henriqueta.
- Um velho careca, disse esta rindo-se muito.
- A Carlotinha enfia, acudiu o Sr. Martins, erguendo-lhe o rosto pelo queixo.
- Não de caveira, minha afilhada, disse o vigário.
Ela tomou a entrar para o interior, e voltou seguida por uma mulatinha que trazia uma bandeja.
Esta deu logo na vista do vigário que exclamou:
- Olá! Vamos aos doces, aos bolos de S. João.
- Nada, meu padrinho, não mexa ali, disse Carlotinha defendendo a bandeja que ele queria atacar, mando ver bolo, canjica, aluá, o que o Sr. quiser; mas isto é só para as moças, e não para os velhos.
- A nós também é defeso? perguntou Eduardo Gama.
- Isto está na vontade, é aquele que quiser.
- Mas o que é isto? perguntou Henriqueta fazendo-se estranha àquelas usanças populares: chave, cordão de ouro, cinza, carvão, sal, pimenta, livro, quanta parandanga há!...
E enquanto enumerava estas coisas ia levantando-as da bandeja, e mostrava-as aos circunstantes com um sorriso mordaz.
Carlotinha que não quis que faltasse a seus hóspedes nenhum dos divertimentos próprios do dia e reveladores dos segredos do coração, ficou deveras desconfiada, e não se animou a responder.
Ana Rosa, uma roceira desenvolvida, julgando que Henriqueta realmente ignorava o brinquedo ou adivinhação, levantou-se e foi dispor tudo sobre a mesa, dizendo:
- É assim, coloca-se cada coisa à roda da mesa, e depois a pessoa que vai tirar a sorte traz um lenço amarrado nos olhos, aquilo em que pegar significa o ofício da pessoa com quem tem de casar.
- Vamos lá isso, exclamou o vigário com entusiasmo, queremos saber a profissão dos noivos de vocês.
- E também das noivas dos homens, acudiu Boão do Poço com toda seriedade.
- Bravo! Boão, disse Eduardo Gama, o Sr. tem o mesmo direito de saber a profissão de sua noiva: é preciso ver se as adivinhações de D. Carlotinha lhe são mais favoráveis que a roda do destino.
- Diabos me levem! gritou Boão do Poço, se eu namoro a preta do vatapá, como disse a sorte.
As risadas eram gerais, ninguém se incomodava com os psius de Ana Rosa para começar o jogo.
Boão do Poço foi o primeiro que se apresentou para que a moça lhe vendasse os olhos, depois dirigiu-se à mesa tateando pelas cadeiras das senhoras que fugiam entre risadas, e finalmente pisou o calo dum burguês que saiu para o alpendre com o pé levantado nos ares, apertando entre os dedos a ponta da bota.
Houve nova explosão de riso; mas o silêncio restabeleceu-se logo, porque Boão do Poço erguia a mão em toda altura do braço dizendo em voz lamentosa:
- Tirei... um... carvão!
Ana Rosa acudiu de pronto:
- Se o Sr. fosse mulher casava com um carvoeiro, como é homem não sei...
- Deve ser alguma cozinheira destas que fazem vatapá, disse o Dr. Edmundo.
Boão do Poço ia zangar-se; mas Ana Rosa gritou:
- Vamos, Carlotinha, não levante o lenço.
- É um doutor! disse a roceira.
- Não, interveio Henriqueta, pode também... ser um poeta de roça, um letrado!
- Sim, senhora, afirmou Ana Rosa, é um doutor quem mais labuta com os livros, a Carlotinha há de casar com um doutor, tirou um livro.
Henriqueta ia replicar; mas, ouviu dizer:
- O Dr. Edmundo tirou sal!
- Sal! é a noiva que anda embarcada, disseram.
- Sou eu mesmo que tenho de embarcar breve, disse ele.
Henriqueta deu um muxoxo, Carlotinha abafou um suspiro.
Depois de esgotados os objetos da mesa, a incansável Ana Rosa ainda comandou muitos outros brinquedos ou sortes de S. João, como fosse o dos três cotos de vela acesos e pregados um no meio e os outros nas extremidades duma vara deitada no ladrilho: cada coto de vela representa um ano, se o primeiro se apaga antes dos outros a moça casa naquele ano, se é o segundo, daí a dois anos, assim por diante.
Uma lembrou-se de plantar o alho para ver se amanhecia nascido.
Mas enquanto as moças se entretinham com estas coisas, o Dr. Edmundo recordando-se de seu tempo de estudante combinava com Eduardo Gama uma palhaçada:
Foram ambos procurar Boão do Poço e lhe disseram em particular:
- Olhe, Boão, vamos lhe ensinar a melhor sorte de S. João; esta não falha...
- Qual é? Diga.
- A pessoa enche a boca d'água e vai postar-se atrás da porta do corredor, o primeiro nome que ouve chamar lança fora a água, porque é este o da moça que há de ser sua noiva.
Boão do Poço não se fez rogar, encheu as bochechas d'água, e foi esconder-se atrás da porta indicada.
Os dois moços tornaram a entrar na sala a fim de combinarem uma burla para o tolo.
Henriqueta dizia:
- Chamemos Sinhá.
- Barroméa, dizia Eduardo.
- Barroméa, repetiam todos.
Mal findavam a combinação quando D. Sofia gritou de dentro do corredor:
- Carlotinha!
- Ui!... Ouviu-se ao mesmo tempo. Quem está atrás desta porta! Que atrevido me atirou uma bochecha d'água?!
E a ingênua senhora entrou na sala toda molhada, e logo atrás dela apareceu Boão do Poço, radiante, com um sorriso alvar nos lábios:
- Eu bem pensava que era este o nome de minha noiva.
- Sr. do Poço veja o que me fez, disse D. Sofia espremendo uma parte da manga e da saia do vestido que escorria água na sala.
- Se deve ser assim mesmo, dona, quando a gente ouve dizer o nome larga a bochecha d'água.
- Que bochecha d'água, senhor do Poço! Não me dirá o que fazia atrás da porta?!
A hilaridade era geral, o próprio vigário, ria a bom rir vendo o espanto no rosto da irmã, a cada explicação nova que lhe dava o Sr. do Poço.
Depressa se consolou a bondosa senhora com as desculpas que lhe pediu D. Raquel quando lhe dava outro vestido para mudar.
Era mais de meia-noite, e a lenha da fogueira quase toda consumida alimentava apenas uma pequena chama no meio dum braseiro.
Parte dos convidados do Sr. Martins saíram para o pátio e ali à roda da fogueira se agruparam as filhas de D. Matilde, Carlotinha, as irmãs do vigário, o Dr. Edmundo e Eduardo Gama.
Ana Rosa convidou outra roceira para ser comadre.
Ela adiantou-se e foi rodeando a fogueira em sentido oposto, depois voltando-se apertou a mão da companheira e disse:
- S. João mandou que quando nos encontrássemos fôssemos comadres. Viva S. João, comadre!
- Viva nós também, comadre!
E assim, dando-se as mãos, elas rodearam a fogueira três vezes, e ficaram comadres.
Um camponês cheio de fé no santo, propôs-se para passar a fogueira com os pés descalços, e como de fato passou, chegando a ficar com as brasas pegadas na sola dos pés! Contudo afirmou não se ter queimado.
- Que fé! disse D. Paulina.
Algumas crianças e dois ou três velhos já davam sinal de sono bocejando.
Minutos depois começou a retirada, ficando somente para dormir na fazenda: o vigário com as irmãs, a família de D. Matilde, o Dr. Edmundo e Eduardo Gama.
A espirituosa Ana Rosa ao despedir-se recomendou a Carlotinha:
- Levante-se muito cedo, de madrugadinha, para irmos ver nossa cabeça n'água do açude, quero saber se morro este ano.
- Como pode saber isso? perguntou Malvina.
- É tão velha esta experiência, e a senhora não sabe? No dia de S. João muito cedinho, a pessoa vai ver a cabeça n'água, se só vê o corpo morre naquele ano.
A moça seguiu, e Henriqueta, sem atenção aos donos da casa, disse:
- Estas matutas têm cada uma?...