Capítulo XII - As Primeiras Lágrimas
XII - As Primeiras Lágrimas
A professora trabalhava ainda à luz do candeeiro, sendo ajudada por D. Paulina e D. Sofia; estas duas excelentes criaturas, contando já bom número de anos gastos na prática da virtude e da religião, eram seres inofensivos e simples que só pensavam nos arranjos da casa e nas cerimônias religiosas.
Sob a triste aparência duma vida austera e monótona, são as verdadeiras beatas os entes mais felizes da Terra!
Nos seus corações, onde nunca passou a sombra duma ambição terrestre, está a serenidade e a consolação que debalde procuram os que riem de sua bem-aventurada ignorância.
As duas irmãs do vigário, cuja mocidade se havia passado ao pé dos altares, ao cheiro do incenso, tinham nas maneiras a ingenuidade humilde da criança, na voz a mansidão do cordeiro, no olhar a resignação do mártir.
Vendo chegar Virgínia com Carlotinha, D. Sofia adiantou-se e tomou-lhe a cesta exclamando:
- Que lindos ramos! Vejam todos... mais bonitos que os nossos.
- Que boa fada te favoreceu, Carlota? disse o Sr. Martins examinando também as flores, venha ver Sr. Dr. Edmundo, isto não foi feito por ela...
- Foi, papai, ajudada pela amiga de Virgínia.
- Quem é esta amiga de Virgínia? perguntou D. Matilde aproximando-se do grupo.
Foi então que a filha da professora notou-lhe a presença, e a das filhas.
- Seu nome minha tia, acudiu Virgínia, não vale a pena saber, é o da filha obscura dum caçador que vive em sua cabana.
Mas enquanto as circunstantes se ocupavam deste assunto, Henriqueta, sentada muito perto do Dr. Edmundo, não perdia ocasião de fazer uma crítica às pessoas presentes, e muitas vezes chamava dissimuladamente a atenção do moço para um gesto menos polido do Sr. Martins ou para uma silfada das irmãs do vigário.
Carlotinha havia percebido o manejo picante, e estava desconfiada, quase a chorar.
Ela revoltava-se contra o acanhamento excessivo que lhe tolhia a liberdade de falar diante do Dr. Edmundo, mas não podia vencê-lo.
Ele estava igualmente aflito, e procurava sair-se bem daquela posição falsa em que o havia colocado a imprudência duma moça mal educada, por meio de evasivas.
- Muito me divertirei amanhã com as toilettes extravagantes, e com as asneiras de nossos convidados, dizia ela, o Sr. há de ver uma verdadeira mascarada.
D. Matilde, preocupada como estava com as iguarias que tinha de preparar para o dia seguinte, nem reparava nos disparates das filhas; pois Malvina também com o fim de zombar fazia o Sr. Martins contar-lhe proezas campestres.
Felizmente vieram avisá-la de que acabavam de chegar alguns convidados que ela esperava do Aracati com o genro e a filha, a sua querida Alice.
Despediu-se apressadamente, e apertando a mão de cada pessoa presente com efusão pouco sincera, disse:
- Até amanhã, meus bons amigos; amigas de meu coração, preparem-se para dançar e comer bons bocados.
- Lá das sete para as oito horas, disse o Sr. Martins, nos terá em sua casa para cumprimentarmos as duas rainhas da festa.
- Nos dará muito gosto, tornou ela, será para mim uma grande contrariedade se vierem a faltar a esta festinha de família as pessoas de minha maior estima.
Henriqueta ao despedir-se do Dr. Edmundo disse-lhe em voz baixa:
- A primeira valsa e a segunda quadrilha são nossas... não é assim?
- Decerto, respondeu ele com um sorriso amável.
Ainda foi somente Carlotinha quem ouviu este segredo.
Apenas saíram as visitas ela entrou para o quarto de dormir, e atirou-se ao leito procurando abafar os soluços que lhe rompiam do peito como uma catadupa, e não conseguia.
Sua mãe ouvindo-a chorar entrou assustada:
- Que tens, menina? O que é isto? Estás doente?
- Não, mamãe...
- E por que choras?
- Não vou mais ao sarau de D. Matilde...
Henriqueta além de zombar de mim, tomou hoje a noite para rir-se descaradamente do papai...
- Só tu presenciaste estas coisas, menina, disse a bondosa mãe, tudo isto é asneira. Estás nervosa, é o que é.
- Não é nervoso, mamãe, ela critica tudo quanto eu uso, e com certo modo de proteção e de amizade, vai me expondo ao ridículo em presença... do Dr. Edmundo...
Carlotinha gaguejou, e tremeu pronunciando esse nome.
A prudente senhora entre carícias e ralhos moderados, procurava afastar do espírito da filha aquela intriga insignificante que tinha origem no ciúme.
- Vai dormir, dizia ela afastando-se, amanhã acordarás com mais juízo.
Mas enquanto D. Raquel concordava com o marido, em tirar uma licença para irem passar o mês de junho em uma fazenda, que possuíam no Poço do Capim, a filha atormentava a imaginação procurando um meio de apresentar-se bem no dia seguinte, em casa de D. Matilde.
Depois, dizia consigo mesma:
- Enfim, Henriqueta tem razão... eu sou matuta, e farei sempre em presença dele um papel triste. Sim, diante dele que tem viajado e visto as moças mais bonitas, mais elegantes e mais civilizadas do mundo!
A filha de D. Raquel, inconsciente da sedutora beleza que possuía, da graça infantil de seus modos, derramou abundantes lágrimas, as primeiras de sua juventude, até ali tão calma e tão ditosa.
Benditas lágrimas, aquelas que são derramadas no verdor dos anos, quando uma futilidade é um grande infortúnio.
Ah! como mais tarde a pessoa ri delas, e quase que tem saudades da hora em que as derramou.
E, assim como o orvalho da manhã que tremula no cálice de uma rosa é enxuto em poucas horas pelo calor do sol, assim as lágrimas da juventude são estancadas repentinamente pela exuberância de vida, de crença e de esperança.