Capítulo IX - É Poetisa! Exclamou Maravilhado A Rainha do Ignoto · Capítulo 9 de 70
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Capítulo IX - É Poetisa! Exclamou Maravilhado

IX - É Poetisa! Exclamou Maravilhado

Eram apenas três horas da tarde; mas o tempo, para o Dr. Edmundo, corria com uma lentidão insuportável!

Consultava, de vez em quando, o relógio, e exclamava, impaciente:

- Está parado! Não é possível! Que tem este ponteiro que não anda?

Quando o relógio marcou quatro horas, montou a cavalo e saiu. Tendo chegado ao monte muito cedo, subiu alguns degraus toscos de pedra, e na que servia de trono à sua visão escreveu:

Por que alagas de pranto este caminho?

Por que fitas as nuvens sobre o monte?

Triste viajora... Ave sem ninho...

Que buscas tu na linha do horizonte?

A fumaça de um barco além perdido?

Saudades da pátria te consome?

Segreda à noite em voz sentida

Que eterno pesar? Que amor? Que nome?

Ocultou-se atrás de uma árvore fronteira, e esperou...

Poucos minutos depois, a fada, a rainha daqueles sítios apareceu.

Vinha como sempre acompanhada pelo horrível mono e o Terra-Nova.

Trazia um vestido de seda cor de lilás, talhado à última moda: a saia era orlada com fitas da mesma cor da fazenda, em tom mais claro, o corpo era ajustado por umas pregas que abriam no peito em forma de coração sobre um bofe de rendas da Inglaterra; o chapéu de palha arrendada era orlado na copa por uma grinalda de forget me not. Calçava botinas de veludo preto, e trazia luvas de pelica.

Edmundo estava deslumbrado, mas dizia consigo:

- Para que tanto luxo neste ermo? Que mulher fantasiosa!

Ela subia os montes de pedra com ares de princesa, parecia subir os degraus do paço.

Lançou a vista à extensa campina, que se desenrolava a seus pés como um verde e imenso tapete, e ficou estática na contemplação dos últimos raios do sol, que ainda banhavam de luz os telhados vermelhos das casas da povoação.

Havia naquele olhar uma vaga melancolia, uma tristeza profunda envolvendo-a toda, como em uma densa atmosfera.

O Dr. Edmundo continha a respiração, e mesmo assim temia que as palpitações de seu peito pudessem despertá-la daquele cismar.

Mas ela voltou-se de repente e cravou a vista nos versos que estavam escritos na pedra. Leu e deixou escapar um sorriso amargo e triste como a desventura.

Tirou do bolso uma carteirinha, escreveu a lápis em uma de suas folhas, arrancou-a, e a entregou a King fazendo uma recomendação por meio da mímica.

King desapareceu na entrada da gruta.

- Que vai ele fazer? pensava Edmundo, haverá ali outros habitantes? Quem são eles? De que espécie social?

Ela será a serva ou a soberana? Donde vem este luxo supérfluo que ela ostenta na solidão deste monte? Com certeza pertence a alguma quadrilha de salteadores! Mas por que casualidade caiu no poder dos bandidos tão interessante criatura? Será a nobre filha de alguma família reduzida a desgraça por um caso imprevisto? Se assim é, por que não foge? Está só... longe de seus algozes.

Eram milhões de ideias desencontradas que borbulhavam no cérebro de Edmundo. Estava ele nestas cogitações, quando King voltou trazendo o necessário para escrever na pedra.

A misteriosa, depois de ter escrito, encaminhou-se para a gruta, e desapareceu.

O moço aproximou-se do lugar, e por baixo das quadras que ele havia escrito, leu:

Eu busco, nesse espaço dilatado,

O caminho do céu... de outro planeta

Para onde meu ser vá transportado,

Quando quebrar da vida esta grilheta.

Se eu pudesse sofrer de nostalgia...

Que pátria? Que nação seria a minha?

Se tudo neste mundo me enfastia...

Que afeto posso ter que me definha?

- É poetisa! exclamou maravilhado, e voltou do monte com um desejo veemente de investigar o mistério; estava preso de uma curiosidade sem limites!

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