Capítulo LXI - Os Pobres Precisam de Pão, e Deus Não Precisa de Templo, Porque Tem por Altar o Universo!
Capítulo LXI - Os Pobres Precisam de Pão, e Deus Não Precisa de Templo, Porque Tem por Altar o Universo!
O Tufão vinha do sul singrando os verdes mares do Ceará.
Passou pelos alvos morros do Mucuripe e fundeou diante da cidade da Fortaleza.
O sol da tarde banhava de luz os vermelhos telhados das casas alinhadas em longas ruas planas e direitas como linhas geométricas.
Nelas em traje de trabalho se agitava uma população inteligente e empreendedora.
Aí, como nos outros portos, o desembarque foi o mesmo, feito com aparências as mais comuns. Poucas Paladinas do Nevoeiro vieram para terra; mas a Rainha do Ignoto sempre ávida por descobrir dentre as misérias e injustiças humanas alguma lágrima que enxugar, alguma ferida que pensar, percorria as ruas da cidade tendo por cavalheiro Camilla Franco.
Chegadas ao meio de um quarteirão da rua Amélia estacaram diante de uma casa de frente amarela e rótulas verdes.
Saía de dentro dela uma espécie de gemido que mal se ouvia.
A Rainha do Ignoto empurrou a rótula da porta e entrou para a sala; não havia mobília, nem se via pessoa alguma; o corredor estava deserto assim como a sala de jantar; só na cozinha uma rapariga morena, de vinte a vinte e três anos preparava um caldo.
Falando com as recém-chegadas e conhecendo as suas boas intenções levou-as à alcova. Ali haviam dous baús, uma cômoda tendo em cima um santuário, e um leito com rodapé de cambraia de quadrinhos, e cortinas brancas; sobre o leito estava estendida uma senhora já bastante idosa.
Pela nobreza de seus traços, pela distinção de suas maneiras, pelo asseio que a rodeava na extrema pobreza em que estava, via-se que tinha pertencido à antiga fidalguia, mas estava bem patente, em suas faces emagrecidas, o enfraquecimento de seu corpo, e o sofrimento de sua alma.
Ergueu a vista pasma e como interrogando as recém-chegadas.
— De certo vos admirais de nossa presença aqui, disse a Rainha do Ignoto, sossegai, sou senhora de caridade. Foram os vossos gemidos que me atraíram; se o vosso sofrimento pode ter alívio confiai-mo, e farei tudo por vós.
— Não vos conheço, disse ela.
Mas pareceu opressa por um silêncio forçado, e tinha necessidade de expansão, falou:
— Meu pai era militar, já morreu há bastante tempo; eu conto sessenta anos, nunca me casei, e sofro de uma moléstia crônica, talvez, há quarenta anos. Vivo só com esta afilhada.
E apontou para a rapariga que lhe apresentava o caldo.
— Sem incomodar a ninguém, continuou a pobre senhora, tenho vivido com o pouco que me deixaram meus pais. Possuía um terreno em um dos melhores bairros desta cidade; mas, ah! minha boa senhora, em quanto eu permanecia em um lugar do centro da província sentaram em meu terreno a pedra de uma igreja.
Imagine: a música de pancadaria se anunciando ao longe, os foguetes estourando no ar, o povo em regozijo pelo assentamento da pedra de um templo católico, e uma pobre senhora em ancias amargas pela mesma causa. Nessa mesma noite não dormi, com palpitações, e foi nessa ocasião que contraí a enfermidade do coração, que a levou à sepultura.
Essa senhora já velha, era minha irmã, a mãe de meu procurador e meu sobrinho, que morrera há dezoito dias de uma febre tífica. Ela soube que me espoliavam do meu maior haver, mas não pôde impedir a marcha daquela obra pia embargando o serviço, porque se achava doente com o sentimento da morte do filho. Angustiada participou-me o acontecido: parti imediatamente para a cidade, mas, já era tarde, nada pude fazer.
Os promotores da obra da igreja eram ricos, gozavam de grande importância social, e eu era uma pobre senhora, velha e desconhecida.
O serviço da igreja prosseguia, as paredes estavam em cima, iam pôr o travejamento, já trabalhavam no frontespício, e os moradores de duas casinhas, que me davam um pequeno aluguel, vinham queixar-se que não podiam mais habitá-las por causa da chuva de fragmentos de tijolos que dos andaimes da parede da igreja lhes caía sobre o telhado em risco de matá-los. As casas ficavam a dous metros da porta principal da igreja. Era impossível aquela gente continuar ali, mudaram-se, e eu fui esbulhada de mais este pequeno recurso. Em terrível angústia fui à casa de um rábula e entreguei-lhe a questão, ele questionou quase um ano, e obteve que a câmara municipal lhe pagasse pelo meu terreno indevidamente ocupado pela igreja só quatrocentos mil réis. Destes metade coube ao rábula que só me entregou duzentos!
Fiquei atentada! O terreno tinha-me custado quatro vezes mais em tempos muito favoráveis. Esperava no futuro vendê-lo por mais do triplo, e resguardar a minha velhice da extrema miséria; mas ah! enganei-me, a vaidade religiosa dos ricos saiu vencedora, e o meu direito curvou a fronte envergonhado para receber uma migalha que lhe atiravam quase por esmola!
Hoje vivo de tão pouco que por falta de meios deixei de pagar os foros do terreno em que estão situadas duas casinhas que possuo nos arrabaldes da cidade e que me davam um pequeno aluguel. Há pouco li em um jornal que vão ser vendidas em hasta pública para satisfazer a dívida da câmara municipal.
— Muito bem! disse a Rainha do Ignoto, a câmara que por uma pequena dívida manda executar os vossos escassos bens é aquela mesma que para satisfazer o capricho dos ricos, vos obriga a receber quatrocentos mil réis por um terreno desapropriado já há dous anos em vosso prejuízo! Se a lei é isto, se a religião é assim... muito folgo por me achar fora de ambas. Reconheço a vossa piedade, os vossos sentimentos católicos, por este santuário que vos fica ao lado; mas dizei-me, a vossa consciência não brada bem alto: Isto não foi uma iniquidade?
— Não posso maldizer de uma igreja.
— Senhora, os pobres precisam de pão e Deus não precisa de templo, porque tem por altar o Universo! São as forças da natureza que lhe oficiam eternamente num delírio de criações! São os nonilhões e nonilhões de sóis, que iluminam o infinito de seu invisível culto!
— Não blasfemeis! Tenho sofrido muito; mas seja feita a vontade de Deus.
— E achais que a vontade de Deus é que os ricos e poderosos estrujem as migalhas das mãos dos pobres, para lhe erguerem templos, onde muitas vezes vão ofendê-lo com feias ações de orgulho e de ambição?
— Não sei, disse a boa senhora, a religião para mim é sempre santa, é sempre justa.
— Continuai em vossa singela crença, a vossa felicidade é a fé; mas tomai esta bolsa e procurai com ela remover os obstáculos de vossa vida, e lembrai-vos que ela vos foi oferecida por uma triste criatura que tem firme confiança em Deus, mas que perdeu a fé nos embates terrestres.