Capítulo XI - Uma Deusa
XI - Uma Deusa
Carlotinha, enquanto se distanciava, voltou mais de uma vez a cabeça para a janela do Dr. Edmundo, e vendo-o ainda na mesma posição olhando para elas, sentia-se feliz.
Virgínia parecia ter voltado aos bons dias de ventura e de saúde. Invejava a amiga, que animada e vigorosa corria alegre como uma criança, na relva entre as árvores, a colher flores e frutas silvestres.
A filha de D. Raquel estava encantadora na liberdade de seus movimentos e na singeleza de seu traje. Com seu vestido de cassa de florinhas azuis e suas longas tranças louras parecia filha do sol!
Com a voz cheia de alvoroço infantil disse:
- Vê Virgínia, vê, ali vem descendo a ribanceira a redinha de Diana... Já nos viu... vem ao nosso encontro... toma, toma, Minuza, Minuzinha.
- Espera beija-flor, dá-me o braço para subir a ladeira, estou cansada, disse Virgínia.
Carlotinha fez movimento para oferecer-lhe o braço; mas Diana adiantou-se e tomando-a pela mão, a sobrinha de D. Matilde entrou com ela na cabana, e fê-la sentar em um banco.
- Vim despedir-me de ti, disse Virgínia com voz ofegante.
Diana voltou os olhos lacrimosos para Carlotinha e perguntou:
- Que trazes na cesta?
- São flores para acabar, mamãe não queria que eu viesse por causa deste trabalho, por isso fui obrigada a trazê-lo.
- Mãos à obra, disse a filha do caçador de onças, colocando no meio da sala uma mesinha sem verniz, mas bem trabalhada.
Virgínia lançava a vista ao redor de si reparando no asseio daquela morada.
A cabana do caçador de onças era coberta de palhas de carnaúba. Tinha as paredes de varas tapadas com barro, e só se avantajava das outras daquele sítio por sua dimensão e altura.
O compartimento da frente e todos os outros que se lhe seguiam eram ladrilhados com ossos da pá dos animais selvagens que o caçador matava. As paredes pelo interior eram forradas de couro de onça e de maracajá.
Do teto pendia um lampião rodeado de pingentes formados por chifres de veado presos em delgadas correias. A um canto estava uma carabina, um forcado, e uma azagaia.
O caçador de onças entrou na cabana e cumprimentou as moças secamente tirando-lhes o barrete de pele de gato bravo, e fugindo para o interior de sua morada.
Era um velho de grande estatura e grandes barbas brancas. Tinha feições finas, e a tez alva e corada como a dos alemães. Embora vestido de peles, o seu corpo vigoroso e direito tinha um certo ar aristocrata e orgulhoso.
Enquanto Diana e Carlotinha trabalhavam, Virgínia as observava tossindo de vez em quando. Elas terminaram as rosas, juntaram-nas em ramalhetes e começaram a conversar.
- Não sei o que traz Virgínia naquele cofrezinho, disse Carlotinha, em caminho pedi-lhe para trazer, e mais duma vez ela me o negou.
- O que é Virgínia? perguntou Diana.
- É o legado que te prometi. Depois de o ter deixado em tuas mãos morro descansada. Queima-o ou faz dele o que quiseres.
Diana tomou a caixa, abriu e disse:
- Aqui estão encerrados os apontamentos para o romance de tua vida, ele breve estará pronto, eu te prometo.
E espalhava sobre a mesa alguns maços de cartas e tiras de papel escritas. Entre estas achou um retrato. Pegou na fotografia, e depois de contemplá-la, disse:
- Quem poderia adivinhar que sob estas feições simpáticas, tão calmas e doces, se pudesse ocultar a mais negra deslealdade, a mais feia ambição?! Ah! quem dera que naquele tempo eu te conhecesse... quem dera que alguém te houvesse dado um bonito dote. O amor se compra a peso d'ouro como qualquer mercadoria.
- Cala-te Diana, cala-te, tem piedade de mim! Afasta estas coisas de minha vista, disse Virgínia magoada, sabes que impressão me causam? Aquela que sentiria contemplando o sangue de meu pai e de minha mãe no lugar do desastre que foram vítimas!
Diana abriu uma gaveta e nela fez desaparecer as cartas e o retrato.
- Vamos conversar em coisas alegres, disse ela, não vale a pena falar do passado, é o futuro o caminho que temos a seguir... Carlotinha estás preparada para o sarau de D. Matilde?
- Se não vale a pena falar do passado, disse Carlotinha com tristeza, também não vale a pena preparar-me para o tal baile. Por mais que me empenhe em primar pela elegância ou bom gosto, sempre os meus vestidos ficam feios, e Henriqueta e Malvina têm que notar-lhes os maiores defeitos.
Virgínia interveio contando o que se havia passado no domingo em casa de D. Matilde.
Carlotinha se mostrava ainda mais ressentida, porque elas a criticavam em presença do Dr. Edmundo.
- Cuidado! cuidado! disse Virgínia olhando para ela, parece que estás muito inclinada a esse Dr. Estou certa de que é esta a causa de Henriqueta chasquear de ti. Olha, não se brinca com aquelas sereias...
- Eu? exclamou Carlotinha, e baixou os olhos muito corada.
- Tu mesma criança, tornou Virgínia acariciando-lhe a face, era meu desejo que não amasses nunca, mas como já amas, ouve o conselho duma amiga à borda da sepultura: não consideres muito este cruel sentimento... zomba dele logo que começar a zombar de ti.
- E, Diana, o que me diz a este respeito? perguntou ela entre meiga e risonha.
- Que te pode dizer sobre isto a triste filha de um caçador? respondeu ela; vejo somente o céu estrelado! Escuto só o murmurar das águas, e o ciciar das folhas. Minha alma é uma harpa eólia onde vibram todas as harmonias da natureza; mas que se perdem como elas nas solidões do espaço!
- Assim o teu coração é um álbum em branco, disse Virgínia.
- Falaste em álbum, lembrei-me... Já escreveste no meu, Diana? perguntou Carlotinha.
- Ainda não; mas vou responder nele o que me perguntaste com relação ao amor.
- Muito bem! disse a menina alegre, muito bem!
- Sim; mas não te admires do que eu disser, porque é a verdade. Sinto muito mostrar-te a nuvem negra que quase sempre tolda o céu de rosa da mais feliz juventude.
- E tu não és feliz? perguntou Carlotinha ingenuamente.
- A felicidade, minha amiga, não existe em parte alguma da terra. Não é absoluta, nem relativa. É simplesmente uma ligeira consequência da infância e da adolescência, assim como o delírio é proveniente da febre. Na mocidade ela começa a evaporar-se como essas brilhantes gotas de orvalho que, pela manhã, tremulam nos cálices das flores e à tarde desaparecem sugadas pelos raios ardentes do sol. Na idade da razão já ela não vive, fugiu com os sonhos e ilusões dos primeiros anos.
Havia na voz de Diana um acento tão profundo de convicção e de tristeza que passou às duas moças desacostumadas a vê-la naquela fase.
- Se esta fosse a linguagem de um velho desenganado pelos anos, replicou Virgínia, não me surpreenderia; mas tu Diana! ainda na primavera da vida!
- Vinte e nove longos anos já passaram por minha fronte cismadora! E assim como as tempestades marcam com ossos a passagem do viajante no deserto, eles me deixaram na mente os esqueletos de meus sonhos. Desfolharam minhas crenças, minhas esperanças, assim como fizeram murchar os encantos que enfloravam a minha poética e desditosa mocidade.
- Ficaste triste, Diana, disse Carlotinha, afasta estas sombras.
Nesse ponto da conversação foram interrompidas pela voz de Roberta, mãe de Diana, que as convidava para jantar.
Elas passaram a outro compartimento. Ali estava posta a mesa, cuja toalha era a pele macia de um animal desconhecido das visitantes. Nos pratos de madeira artisticamente trabalhados fumegavam diversas caças. Alguns ramos de flores silvestres, colocados em garrafas brancas, cheias de água anilada ou rubicada, davam àquele singular banquete um ar festivo. Nele nada faltava do que se pudesse considerar necessário. Sob a aparência de rusticidade e pobreza aquela cabana possuía o conforto e o bem estar dos palácios!
Enquanto Virgínia mais acostumada ao fino trato da sociedade, reparava nas maneiras polidas do caçador de onças, e de sua mulher, Carlotinha observava a dessemelhança que havia entre eles e a filha.
Diana não tinha um só traço dos pais, nem se podia imaginar que houvesse parentesco entre eles.
Ao pôr do sol as moças voltaram pelo mesmo caminho. Virgínia perguntou repentinamente à amiga:
- O que pensas a respeito de Diana e de seus pais?
- Nada, respondeu Carlotinha; apenas notei que são muito diferentes, e que eles a tratam com um respeito mais próprio de inferiores para com superior do que de amor de pais para filha.
- Eu notei mais do que isto: acho um grande contraste com a elevação de espírito de Diana, com a sua educação e a de seus pais, a posição que eles representam; mas qualquer que seja o segredo que os obrigue a disfarçarem-se, eu de boa vontade o respeito.
- Eu também, disse Carlotinha, apesar de que, não simpatizo muito com o velho.
- Tem um olhar velhaco de jogador, volveu Virgínia; mas a mulher tem ares de santa, parece a encarnação da paciência.
- E Diana?
- Esta é uma criatura sublime! uma fada! uma deusa!