Capítulo LXIII - Probo e o Dr. Edmundo em Acordo
Capítulo LXIII - Probo e o Dr. Edmundo em Acordo
Enquanto a Rainha do Ignoto e Camilla Franco se ocupavam com a triste Severa, Probo ao dobrar o canto da Santa Casa de Misericórdia se encontrava com o Dr. Edmundo.
— Para onde vai? perguntou ele.
— Não sei, ando ao acaso, respondeu Probo.
— Vamos entrar no Passeio Público, convidou o Dr. Edmundo, hoje é quinta-feira, teremos música, e se quiser tomaremos um sorvete; venha comigo...
— Vou entrar somente para ver se as moças de sua terra são bonitas.
— Isso já não lhe deve interessar, o Sr. Probo já não é moço, além disso é casado...
— Quem sabe se ainda não ficarei viúvo, e...
Os dous homens entraram para o passeio.
A música tocava; mas, havia pouca gente, só alguns homens tomavam sorvete, e uma dúzia de senhoras passeava ao longo da avenida.
Eles deram também uma volta e foram sentar-se em um banco muito retirado. Ali podiam conversar à vontade.
— O Tufão parte amanhã às oito horas, precisamos ir cedo para bordo, disse Probo, já sabe? Voltamos, para a Ilha do Nevoeiro.
— Sei, mas lá não voltaria se não fosse levado por força maior.
— Bravo! já reconheceu o poder magnético da Rainha do Ignoto, o que me sucede há cinco anos já lhe está sucedendo há três!
— Não me refiro ao que o senhor pensa, falo da luz serena dos olhos de um anjo, vou para eles preso por uma recordação.
— E se não fosse isso, lá não iria?
— De certo que não. volveu o Dr. Edmundo, já estou farto desse papel ridículo que tenho feito, em parte obrigado pelo Snr.
— Não tenho contado só com minha força física para isto, conto também com o poder oculto dela; mas, se o Snr. se rebelar tenho que fazer consigo, disse Probo, com um riso infernal.
— Não temo a covardes... O Snr. Probo diz muita coisa que não cumpre, foi assim... que fez queixa ao Imperador dessa maçonaria de mulheres, disse o Dr. Edmundo com ironia.
Probo era covarde mesmo, diminuiu a força de sua energia e abrandando os gestos e a voz, disse:
— É verdade, não fiz queixa dela; mas, além de ser uma ingratidão era impossível cumprir o meu desejo! O poder dessa mulher é protegido por uma sombra de ocultismo tão terrível que é debalde procurar vencê-la. Ouça, por mais de uma vez, fui a S. Cristóvão, decidido a pôr em prática o meu plano contra ela, alcancei entrar no paço, tive ocasião de falar ao Imperador, mas quer saber o que aconteceu? Ele tomou-me por mentecapto! Riu-se muito com seus cortesãos e achou que o caso nem mesmo merecia a luz da publicidade. Eu retirei-me desnorteado, convencido da minha importância em tal assunto. Deveras, Dr., ela influi poderosamente sobre toda pessoa que tenta hostilizá-la. Por mais de uma vez senti que me paralisavam a língua, e uma força oculta me empurrava para trás!
O Dr. Edmundo ouviu Probo com atenção; mas, muito senhor de si, replicou:
— Tem tanto poder... mas, não teve ainda o de adivinhar que o seu templário não é a predileta muda, é um intruso... um espião.
— Vou lhe explicar isso: é porque o senhor não tem nenhuma intenção hostil contra elas, limita-se somente a satisfazer a sua própria curiosidade, é um espião inofensivo.
O Dr. Edmundo revoltava-se sempre que pensava... ou que Probo lhe lembrava o seu ridículo lugar de espião, por isso respondeu:
— Preciso definitivamente acabar com este viver fictício; quero tornar ao meu ser de outrora, tratar de meu futuro, já não bastam três anos perdidos?
— Quer o Snr. comprometer-me, e a si também, pela imprudência que cometeu em aceitar a minha proposição, disse Probo.
— Sim, já considerei nisso, e sugeriu-me um meio...
— Qual?
— O senhor bem sabe que Odete só morreu para nós, para elas vive ainda, não poderia morrer agora, e libertar-me?...
— E como arranjaríamos isso, sem que o Dr. ficasse debaixo da terra bem socado com o malho?
O Dr. Edmundo expôs o plano que tinha imaginado, e Probo foi de seu parecer; prometeu-lhe fazer a vontade na cabana do caçador de onças, aonde seria mais fácil executar o que tinham contratado.
O Dr. Edmundo saiu com Probo, do passeio e dirigiram-se para a rua do Imperador, entraram em uma casa sem vizinhos, baixa e de má aparência.
— Adriano está em casa? perguntou o Dr. Edmundo a uma mulata que lhe apareceu com uma criança escanchada em um lado.
— O senhor meu irmão é um peralta, Snr. Dr., entra e sai quando quer.
O marido da irmã de Adriano veio do interior da casa e disse:
— Ele está por aí mesmo, Snr. Dr., foi comprar cigarros na taverna.
Adriano apareceu no limiar da porta da rua, e olhou para o Dr. Edmundo, surpreendido:
— Santo Deus! É o Dr. Edmundo que vejo nesta pobre casa?!
— Me julgavas morto?
— Ora, desde aquela manhã em que o Sr. Dr. se despediu de mim, nunca mais ouvi falar no Sr. Dr...
— Volto outra vez para a Passagem das Pedras, e quero que tu vás logo arranjar-me casa, contratar a tia Úrsula, preparar tudo o mais que for necessário. Gostava muito que pudesses me alcançar aquela casa do fim da rua, onde já estivemos.
— Há coisas, Sr. Dr., que parecem mandinga! disse Adriano muito admirado, um mês depois que o Snr. Dr. saiu de lá, me aparece um matuto e me entregou uma chave dizendo que era o Snr. Dr. quem mandava guardar até voltar de uma viagem.
— E que chave é essa?
— É da casa que morámos na Passagem das Pedras; disse-me o homem que o Snr. Dr. a tinha comprado. Tenho indagado e soube que nunca mais se abriu depois que a deixamos.
Probo e o Dr. Edmundo se entreolharam.
— Foi dela a prevenção, disse Probo muito baixo.
— Dela quem? perguntou o Dr. Edmundo.
— Da Rainha do Ignoto.
— Com que fim?
— Ela o saberá.
— Fez-me um favor.
— E talvez ainda maior a outra pessoa.
O Dr. Edmundo lembrou-se logo de Carlotinha, e disse:
— Toma este dinheiro, Adriano, é para as despesas da viagem, vai esperar-me lá.
E o Dr. Edmundo e Probo retiraram-se.