Capítulo XIV - Contrastes da Vida A Rainha do Ignoto · Capítulo 14 de 70
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Capítulo XIV - Contrastes da Vida

XIV - Contrastes da Vida

Entraram todos para a sala de jantar.

D. Matilde colocou o vigário numa cabeceira da mesa e o genro na outra. As outras pessoas colocaram-se à vontade.

A princípio ouvia-se somente o surdo rumor que fazem os trinchantes nas asas das galinhas e papos cheios dos perus e leitões, depois o resvalar dos talheres nos pratos dos menos educados, e por fim rompeu, com o tinir dos cálices e copos que se chocavam, as vozes alegres dos brindes.

Cada convidado temendo, por parte dos donos da casa, alguma suspeição injusta, procurava por meio de saúdes e protestos de amizade fazer sobressair as suas atenções.

De repente elevou-se da sala, que os convivas haviam abandonado, uma voz triste como a do cisne em seu derradeiro canto.

As notas da música pareciam morrer no teclado do piano com o som que modulava a voz fraca da cantora, saudosa como um adeus à vida.

Ela cantava uma modinha brasileira em voga naquela época, dizia assim:

Como é triste morrer na flor dos anos

Quando vejo que o mundo é um paraíso...

Sinto que se me abre a sepultura...

Vejo da morte um irônico sorriso.

Todo o ar parecia impregnado de melancolia. Aquela voz chorava na soledade, como o cair das folhas nas tardes de verão.

A maior parte das pessoas deixaram a mesa do banquete e se dirigiram para a sala. Alice que ia na frente parou estupefacta a poucos passos do piano, todos fizeram o mesmo, escutando silenciosos, com os olhos fitos na cantora, que mais parecia um anjo de mármore fugido dos túmulos, que um ser vivo!

- Virgínia! gritou Carlotinha, que havia ficado à porta do corredor; mas, o que tens?

E correndo para ela rodeou-lhe o pescoço com os braços.

Ela pendeu a cabeça para a frente até tocar no teclado do piano; a respiração era miúda e ruidosa.

Carlotinha sentiu pesar a cabeça da amiga. O pescoço estava resistente e banhado de suor frio; a menina teve medo e chamou:

- Acudam que vai desmaiar!

O Dr. Edmundo adiantou-se, tomou-a nos braços, e foi recliná-la em uma cadeira de balanço junto ao sofá.

Ela abriu os olhos, tomou-lhe a mão, juntou a de Carlotinha e apertou ambas sobre o peito. Depois não fez um gesto! não deu um gemido! morreu como um cordeiro.

A filha da professora caiu de joelhos, e encostando a fronte no braço esquerdo da cadeira soluçava.

O Dr. Edmundo de pé ao lado direito estava comovidíssimo! Era outro coração sinceramente amigo da desventurosa órfã.

D. Matilde e as filhas faziam um alarido horrível! Eram choros, ataques de nervos, gritos lastimosos, uma confusão sem nome.

D. Paulina corria com uma garrafinha d'água florida para fazê-la cheirar a Henriqueta.

D. Sofia desatava o corpete do vestido de Alice que havia desmaiado.

D. Raquel consolava D. Matilde que blasfemava:

- Ai! minha querida sobrinha! tão moça! tão bela! tão paciente! Deus não é justo.

- Não blasfeme, minha amiga, foi vontade de Deus, ela está no céu, dizia a professora.

O Dr. Gustavo, com o semblante pesado, não ousava aproximar-se da morta, era todo cuidados para a esposa, que estava realmente incomodada sob o acúmulo do remorso.

Coisas da vida. Uma hora antes na alegria da festa ninguém se lembrava da infeliz que só em seu quarto delirava com febre e tossia sem descanso.

Desde a véspera que pressentia a morte, apesar de se achar melhor, e tendo voltado da cabana do caçador de onças não deixou mais o leito.

Os primeiros prelúdios do baile chegaram-lhe aos ouvidos e encheram-lhe a alma de tristeza. Tendo certeza de que morria pela madrugada, sentiu um desejo veemente de despedir-se da vida cantando ao piano aquela modinha. Levantou-se. A febre deu-lhe forças, penteou-se e calçou uns sapatinhos de cetim, que havia estreado no último sarau, naquele em que deixara a primeira golfa de sangue. Vestiu também o mesmo vestido branco que tinha guardado para servir-lhe de mortalha. Colocou ainda no peito uma rosa vermelha, Sangue de Cristo.

Se ela se tivesse visto ao espelho teria recuado espavorida!

As faces estavam cavadas, o nariz extremamente afilado se destacava do rosto projetando sombra nos olhos encovados, de cujas pupilas se irradiava uma luz sobrenatural!

Passou as mãos algentes pelo rosto e sentiu que ia morrer; foi então que aproveitando o momento em que todos estavam à mesa, no maior entusiasmo de alegria, subiu para a sala, sentou-se ao piano e cantou, como em um sonho que servisse de meta entre a vida e a morte, aquela modinha.

Depois de morta, deitada no sofá, parecia uma criança adormecida.

De pouco a pouco se tinha transfigurado; o intumecimento das carnes lhe deu às faces emagrecidas as formas redondas do tempo da saúde e da felicidade, uma leve sombra rosada parecia transparecer através da fina e alvíssima epiderme.

Era a formosura mística, espiritual duma santa!

Os convidados, para o sarau, mais comodistas e menos curiosos, retiraram-se logo após o triste acontecimento. Tinham razão, muitos vinham de longe e alguns tinham ainda aquela hora de atravessar o Jaguaribe em canoas e até em balsas.

Os mais íntimos ficaram, e passada a primeira impressão tratou-se do enterro.

D. Matilde era de opinião que se fizesse de manhã.

O vigário concordou, dizendo que coincidia muito bem com a comunhão das meninas, e poderia-se dizer uma missa de corpo presente, o que seria muito bom, visto ela ter morrido sem confissão.

- É só o que eu lamento, dizia D. Paulina, enxugando uma lágrima, é que ela morresse impenitente...

- Impenitente! que diz a senhora? Exclamou Edmundo, esta pobre moça que foi o tipo da virtude, só porque não foi sacramentada, julgam-na em perigo de salvação?!

- Não digo isto, tornou ela; mas sempre a gente cisma quando morre assim uma pessoa de morte apressada sem tomar Nosso Pai.

Naquele instante o Dr. Gustavo aproximou-se da sogra para dizer-lhe que o enterro só poderia ser feito às quatro da tarde, que era quando estava pronto o caixão.

Henriqueta ouvindo isso suspirou e disse:

- Em que havia de dar a festa de nossos anos! E eu que esperava divertir-me tanto!...

- É certo, acudiu Malvina, como poderemos passar o dia de amanhã, anojadas, sem ao menos ver a festa da coroação e a oferta das flores?! Meu Deus, em que dia veio morrer a Gina!

O Dr. Edmundo aborrecido de assistir àquela comédia humana, muito comum na morte das solteironas ou titias, na dos velhos ricaços e das órfãs como Virgínia, deixou a alcova onde se reunia a família e passou à sala de jantar.

Ali reparou em Carlotinha que de ordinário tão acanhada e tímida, se tinha transformado em uma senhora.

Ela havia trocado o vestido de salão por um traje caseiro, e com a maior atividade e desembaraço, tomava conta da casa de D. Matilde, abandonada pelo sentimento de lei.

Aqui guardava ela as iguarias que restavam esquecidas sobre a mesa, ali arrumava no guarda-louça os copos e os cálices que as pretas acabavam de levar, lá dobrava os guardanapos e apagava as luzes que já não eram necessárias; assim acudia a toda parte onde era preciso dar uma ordem ou receber um aviso.

Depois foi para a sala no meio da qual se achava o corpo de Virgínia rodeado de jarros de flores, e acendeu as velas de cera branca que estavam nos castiçais; ficando a olhar para a amiga entre as folhas de independência, ramos de alecrim, melindres entrelaçados de dálias amarelas, cecílias ou cravos dos anjos, como o corpo duma estátua que o vento tempestuoso houvesse estendido sob os alegretes do jardim.

Edmundo aproximou-se também.

Carlotinha comovida e trêmula, disse:

- Parece que está dormindo!

- Os anjos são ainda mais belos quando vão para o céu, respondeu ele, e retirou-se para uma saleta, aonde viu só Eduardo Gama fumando ao embalo duma cadeira que estava defronte da porta.

Sentando-se também ali, disse:

- O que pensas do procedimento de Gustavo para com esta pobre moça que ali está morta?

- Eu nada vejo de extraordinário no caso; ele fez o que faria qualquer outro em seu lugar, é verdade que escolheu Virgínia para noiva; mas ponderou que não podia convir a um moço pobre que acaba de formar-se à custa de sacrifícios da família, escolher uma esposa tão pobre como ele. Tu bem sabes que o futuro dum bacharel sem colocação é um casamento rico.

- Não concordo, disse Edmundo; mas continuemos o mesmo assunto, não dizem as más línguas que Virgínia teria sido rica se não fosse lesada pelo tio que se apossou de toda a herança?

- Está muito mal informado, Dr. Ela nem era filha de Elias de Moura, nem sobrinha do marido de D. Matilde. Provou-se, depois, que Virgínia era apenas sobrinha de mulher de Elias, e este, tendo-a adotado como filha, fazia disto tão grande segredo, que o próprio irmão o desconhecia; mas foi avisado a tempo por quem tinha os documentos precisos.

- E com que fim fizeram este mal à pobre órfã?

- Com o fim de receber uma boa paga de Tomás de Moura.

- Não duvido do que ouço, meu caro Eduardo; mas penso que Tomás de Moura devera ter dado um pequeno dote a esta moça, ao menos em atenção ao muito que lhe queria seu irmão que se não tivesse morrido tão desastrosamente a ela só deixaria sua fortuna.

- Acha pouco o que lhe fizeram? acolheram-na, educaram-na.

- Era o seu dever, disse Edmundo.

- Sim; mas não te falo da ingratidão com que pagou esses benefícios porque respeito a presença dum cadáver.

Eduardo saiu a chamado do Dr. Gustavo, e Edmundo ficou no mesmo lugar olhando uma preta velha que ajoelhou aos pés da morta; ela batia com os beiços e passava pelos dedos as contas dum rosário. Pôs as mãos, olhou para o céu, ofereceu a sua reza e levantou-se; mas em vez de seguir para o interior da casa foi direita a Edmundo e disse-lhe:

- Eu ouvi tudo, sinhô moço, não acredite... Seu Eduardo diz aquilo porque anda aqui arrastando asa à menina, sinhá Malvina. Aquela que está ali... morta, era uma santa...

E a velhinha desparou a chorar.

- Fui escrava da mãe dela... depois da tia, da mulher do sinhô Elias; mas seu moço, o que é bom não atura.

E a preta foi-se, enxugando os olhos no avental de riscado azul.

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