Capítulo XX - Não Se Define
XX - Não Se Define
Depois da partida da família Martins para a fazenda, o Dr. Edmundo sentiu tédio e isolamento, por isso procurou distrair visitando mais a miúdo a casa de D. Matilde; mas o seu pensamento estava na misteriosa da gruta do Areré.
Debalde foi muitas vezes ao monte, não via ninguém, e nem encontrava a resposta de sua apaixonada carta.
Uma tarde estava ele ali, encostado ao tronco duma cajazeira quando viu surgir, entre a folhagem dos arbustos fronteiros, a negra cabeça do Terra-Nova.
Tirou de uma caixinha, que havia levado, uma bela flauta alemã e começou a tocar uns trechos do Guarani.
Pela primeira vez na vida o som melodioso e terno dum instrumento da civilização quebrou o silêncio daquelas brenhas, aonde só se ouvia o urro da onça, o canto da jandaia e o qui-qui do saguim!
A música de Carlos Gomes era levada, pelo eco, do monte ao vale, e até a gruta com uma tristeza pesada.
Nem os insetos zumbiam, as próprias folhas tesas nos ramos pareciam escutar.
Apesar disto, a bela misteriosa não aparecia.
De repente o feio orangotango soltou-se dos galhos da cajazeira e caiu em frente do Dr. Edmundo fazendo trejeitos.
Então ele tocou um tango muito em voga naquele tempo, e o orangotango dançou como um verdadeiro dançarino!
Fiel começou a ladrar e o mono desapareceu aos pulos.
O Dr. Edmundo, como nos dias anteriores, revistou os sítios conhecidos e achou nos galhos dum cardeiro a carta seguinte:
Senhor.
Não começo respondendo, começo analisando o primeiro ponto de vossa carta. Dizeis: "Formosíssima visão do monte! linda bateleira!"
Teria me rido, e rido muito, se a tristeza já não me tivesse selado os lábios há dez longos anos!
Eu formosa?!...
É verdade que nos primeiros anos da existência cansei de ouvir esta mentira que me fez vaidosa, quando atravessando as ruas de minha cidade natal, via todas as vistas cravadas em mim e choverem exclamações das portas e janelas.
Depois reconheci que tudo não passava duma ilusão de ótica.
Eu era feia! mais que feia! Era disforme! Do contrário...
No segundo ponto está a vossa curiosidade pelo extraordinário de minha vida.
Quereis a história de minha desventurada existência?
Ah! Senhor perguntai aos cardos porque nasceram tão eriçados de espinhos! perguntai aos mochos quem os colocou ao lado dos túmulos e não me pergunteis porque me afasto da realidade e transponho as raias do impossível!
O terceiro ponto me patenteais vosso coração ferido de súbito... à moda de faísca elétrica!
Confesso Senhor, se estivesse no vosso caso me sucederia o mesmo... Pois chegar a uma aldeia, e na mesma noite ao clarão da lua, fora de horas ver passar um bote com uma moça vestida de branco, tocando harpa, e além disso, cantando uma canção francesa, é para impressionar; mas felizmente não estou, vi só uma povoação que sonhava adormecida, em descanso das lidas do dia.
Sou filha da natureza, noiva do infinito!
Senhor, não olheis para a voragem!...
Ao pé de vós existe um lago azul, tranquilo como a luz dos olhos dum recém-nascido, navegai por ele que encontrareis o porto da bonança, e não velejeis por esses mares da visão.
Funesta.
Isto não é mulher, é o diabo! exclamou o Dr. Edmundo em desespero, deixa... que hei de saber tudo, aquele velho da cabana tem olhar de raposa; mas há de ser de lá, que terei a luz.
E saiu a trote esporeando o cavalo pelo caminho afora.
A noite estava escura, mas como já se aproximasse da povoação, desceu do cavalo para apertar a silha que havia afrouxado, e nesse tempo reparou que estava defronte da taberna do Vital e que lá dentro se falava de coisa de seu interesse, escutou.
Ali estava também Adriano que se tinha tornado em pouco tempo o rei dos frequentadores da taberna: todos lhe pediam a sua opinião e ele dando-se ares de importância, apavonado respondia sempre com uma redundância estulta que deixava os outros boquiabertos.
Um deles, a quem chamavam Bento da Tapera, estava assentado junto ao balcão sobre uma meia barrica de bacalhau, tinha o cigarro aceso entre os dedos e o chapéu na cabeça derreado para a nuca, levantou-se e bateu com a mão no ombro de Adriano:
- Não se me dá de apostar vinte contra dez, como ele é um penitente!
- Qual penitente, Sr. Bento, disse Adriano, com aquela cara de capitalista?
- Posso afirmar, pois me disse a Teresa do João Timóteo que ele passa dias e dias na mata do Areré fazendo penitência.
- Será comigo? pensou o Dr. Edmundo.
- Monomaníaco é o que ele é, volveu Adriano.
- Monomaníaco? Que quer dizer Sr. Adriano?
- Uma pessoa que se obstina!
- Obstina! pior um pouco, não entendo.
- Que teima! que embirra! Sr. Bento.
- Este Adriano é muito letrado, acudiu o taverneiro, mas não sabe tudo... o caçador de onças é o chefe de uma quadrilha... De noite, Deus me livre de me encontrar com ele!
- Não é verdade! gritou outro.
- Prove! disse o Bento da Tapera.
O taverneiro arrependeu-se do que disse e tornou:
- Não sei... é o que dizem por aí...
- Não senhor, o que se diz por aí é, que a filha do caçador de onças é como uma Nossa Senhora dos Remédios, aonde há necessidade d'algum benefício ela aí aparece com as mãos cheias de tudo.
- Ninguém escurece isto, tornou o teimoso taverneiro; mas que quer dizer aquele véu preto no rosto? Nunca ninguém lhe viu a cara, nem sabe seu nome, se fosse gente boa apareceria descoberta.
O Dr. Edmundo não quis ouvir mais, seguiu.