Capítulo LIX - Domingo de Carnaval A Rainha do Ignoto · Capítulo 59 de 70
Obra Menu

Capítulo LIX - Domingo de Carnaval

Capítulo LIX - Domingo de Carnaval

Era domingo de carnaval. Uma alegria infantil agitava os habitantes da cidade de S. Sebastião.

As crianças e os moços não sentiam a fadiga dos esforços empregados para abrilhantar a festa do deus Momo.

A dobrar esquinas, a correr pelas ruas, via-se, ao som das flautas, dos violões, das caixas e das trompas, bandos de mascarados em diversos caracteres: sérios, interessantes, bizarros e até irrisórios.

Debruçadas na varanda dos sobrados e nas janelas das casas via-se em atitude curiosa os vultos elegantes das moças que ostentavam as cores garridas de seus vestidos talhados à última moda.

Elas riam, mas estremecendo de ansiedade para reconhecer entre os grupos de mascarados das sociedades carnavalescas, um gesto, uma configuração que lhes denunciasse o escolhido de sua alma sob aquele traje representativo ou bufo.

As crianças rindo e batendo as palmas iam e vinham ao longo das calçadas num alarido ensurdecedor e invejável.

No começo da rua vinha aparecendo um carro de seis rodas representando um navio, era puxado por elefantes, a cujo pelo haviam dado um verniz dourado, de forma que pareciam elefantes de ouro.

Uma névoa transparente envolvia uma imensidade de crianças vestidas de ló branco como da espuma do mar.

As nevadas asas daqueles anjos tremiam ondulantes numa atmosfera de luz.

Eles estavam colocados em grupos interessantes desde a quilha do simulado barco até as vergas dos mastros.

Sobre a cabeleira loura traziam grinaldas de rosas pálidas.

Uma orquestra de violinos e flautins acompanhava o hino seráfico que elas faziam ressoar no espaço com uma doçura enlanguecedora e mórbida.

Em outro carro, em seguida ao primeiro, vinham mulheres meio enterradas em montes de cinza e tendo sobre a cabeça em forma de meia lua uma nuvem azulada em cuja transparência luminosa se lia, com as cores do íris a palavra — Lágrimas.

Vinha ainda um terceiro carro representando uma embarcação pintada de negro; mas que parecia envolta em uma aurora boreal. Aos lados escaleres cheios de ninfas, náiades, dríades e naiadríades. Dentro do barco vinham todos os deuses e deusas da mitologia.

Seguia-se a este carro uma ordem de mascarados representando o trabalho. Trazia cada um na mão direita o instrumento que simbolizava a indústria e o ofício que exercia, e na mão esquerda a bandeira da associação onde se lia: — Trabalho e coragem!

Seguiam-se os representantes da Ciência com a divisa: — Luz e prudência. Entre eles a Química dava a mão à Medicina, o mascarado, que representava a ciência de Esculápio, distinguia-se por uma serpente enrolada no braço, como símbolo da prudência, e trazia ao lado um galo; depois vinham: a Zoologia, a Botânica, a Mineralogia, a Retórica, a Filosofia e a Matemática.

Nos grupos que representavam as Belas Letras e Artes distinguiam-se os representantes da Música. Vinha um com o título de Jubal, o inventor do saltério e da harpa no ano de 1040 da criação do mundo. Outros representavam ainda os maestros, os cantores e cantoras de raro merecimento, que têm dado brado nas principais cortes da Europa.

A sociedade dos representantes da Pintura traziam à frente uma grande bandeira com os nomes das quatro escolas de pintura mais célebres da antiga Grécia: Sicião, Corinto, Rodes, Atenas.

O dístico da escola florentina era apresentado por seu fundador João Cimabue, seguiam-lhe-se os principais pintores: Miguel Ângelo Buonarroti, Leonardo de Vinci, André Del Sarto, e Daniel de Volterra.

Depois o fundador da escola romana: Rafael de Urbine; o fundador da escola flamenga, João Van-Eyck e muitos outros de outras escolas.

A Literatura tinha também muitos representantes figurando os principais escritores da Europa e da América.

A Poesia estava no carro da frente, de pé sobre o passadiço do simulado barco em que iam as crianças louras, vestidas de branco e coroadas de rosas.

No carro pintado de negro e envolto numa aurora boreal, entre os deuses e deusas da mitologia, estava de pé sobre uma meia coluna de coral um vulto de mulher; ela trazia um longo vestido muito negro primorosamente tecido de penas de aves. Seu manto era de arminho; sobre a cabeça via-se uma coroa de ouro, mas em forma de espinhos entrelaçados. O cetro que ela sustentava vinha coberto de pedras preciosas e rematava por um foco de luz.

Aquela imensa procissão de mascarados percorreu as ruas arrancando bravos! e servindo de assunto a todas as conversações das salas.

Já ao cerrar da noite chegou ela a um largo e parou defronte de uma casa de boa aparência, ali os parentes reunidos se regozijam na contemplação de seus filhos, um rancho de crianças que dançam na sala ao som do piano tocado por uma mocinha de quatorze anos.

Desce do carro a Poesia, e acompanhou a mulher vestida de penas negras e de cetro luminoso na mão, e entrou com ela na sala da dança infantil.

Fez-se ali um silêncio profundo e todos concentraram sua atenção nas recém-chegadas, principalmente na do cetro; esta foi direito ao piano, e enquanto a mocinha acompanhava-lhe as palavras ao som de um recitativo, ela expressava-se com voz doce e triste nestes versos dedicados à infância:

Oh! leda e doce infância,

Esplêndida ilusão,

Aos poucos s'evolindo,

Em breve esvaecida:

És tu somente a fé,

O riso da esperança,

A rosa da ventura,

O favo, o mel da vida.

— Que fada tão benigna

Aquela que pudesse

Cortar em vossas almas

As asas da razão,

Deixar-vos pequeninas...

Assim a vida inteira,

Alegres no brinquedo,

— Ileso o coração.

— Depois deste descuido

Que súbita vertigem

No brusco despertar

Em lago de amargura!

Pois vem a mocidade,

Barqueira que nos leva

Da praia do sossego,

Do porto da ventura.

— Os anos como ondas

No curso da viagem

Em trevas converteram

A luz de minha aurora...

Oh! anjos de inocência,

Crenças que folgais,

Sorri hoje por mim

Que eu choro-vos agora.

Apenas ela terminou, a menina ergueu-se do piano e exclamou:

— Mamãe é...

Não pôde acabar, a mascarada pôs-lhe a mão enluvada sobre os lábios, apertou-a sobre o coração, e batendo com o cetro sobre o tapete, como se fosse uma varinha mágica espalhou-se sobre o soalho uma grande quantidade de diamantes, rubis, opalas, esmeraldas, turquezas, safiras e outras pedras preciosas.

Ela fugiu precipitadamente para rua com a outra companheira que representava a poesia e as crianças ávidas de curiosidade e doidas de alegria apanham as pedras preciosas como se fossem confeitos.

1/1
Menu

Fazer anotação