Capítulo VII - Ambos Pensavam, Mas com Alvos Diferentes
VII - Ambos Pensavam, Mas com Alvos Diferentes
Logo após a retirada das visitas, Carlotinha entrou para a alcova. Queria estar só, tinha medo que seus pais lessem, em sua fisionomia, o nome que, em clarões como de um sol, vinha aparecendo na alvorada do coração.
Acordava do seu descuido de criança como de um sono ermo de sonhos.
Pensava no vulto elegante e na fisionomia simpática de Edmundo e tremia. A ingênua moça receava ser descoberto o seu sentir como se fosse ele um crime.
A transformação por que passava seu eu lhe era manifesta; mas o que estava sentindo não podia bem definir, apesar de saber perfeitamente o que era, e como se chamava, não se atrevia a pronunciar, ainda que mentalmente, o nome do novo sentimento que tomou de assalto a fortaleza de sua alma.
Fora escusada a prevenção dos pais de Carlotinha contra os romances; porque amor não se aprende em livro algum: é instintivo, rubrica todas as páginas do livro da alma.
Ela ia fazer dezesseis anos, e além dos livros de estudo e de seu manual de missa só havia lido o Flos Sanctorum, que lhe emprestara o seu padrinho, vigário da freguesia.
Com as meninas de sua idade tratava somente sobre modas e trabalhos de agulha, ou então sobre os novos cânticos religiosos que sua mãe estava ensaiando para a próxima festividade.
Mas toda esta inocência preparatória não obstou que a filha da professora, na tarde em que viu o Dr. Edmundo apear-se à porta da casa vizinha, sentisse os primeiros rebates do amor. E na ingenuidade de seu pensamento puro como o de um anjo, satisfazia-se com os enlevos do novo sentimento, e não desejava que ele fosse descoberto, nem mesmo por aquele que o havia inspirado.
Pobre criança! Adiantava-se a noite, e ela não dormia, ao mole balanço da rede passava uma a uma pela mente as ninharias daquela tarde.
Outra pessoa também não dormia: era Edmundo; mas ouvindo àquela hora ranger o armador da casa vizinha, nem de leve lhe passou pela ideia que, além da parede de seu quarto, estava uma moça bonita pensando em si.
Recolhera-se preocupado com o que lhe haviam dito de Virgínia, e estava realmente penalizado.
Tinha visto em outro tempo aquela moça tão sensata, cujo trato ameno e discreto encantava a todos, e não podia aceitar nessa transformação em que lhe falavam D. Matilde e as filhas...
Mas por que seria a preferência de Gustavo por Alice, menos bela, estouvada e namoradeira?
- Explica-se, dizia ele consigo: Virgínia nada possuía e provavelmente Alice lhe trouxe um dote de trinta ou de quarenta contos de réis, isto para um moço que acaba de se formar à custa de sacrifícios, é uma espécie de sorte grande.
A fortuna, pensou ele, é uma casta de corça que não pode ser pegada por quem corre mais, e sim por quem sabe armar-lhe um laço.
Elias de Moura, pai de Virgínia, trabalhou muito desde criança, a começar de caixeiro-vassoura até patrão capitalista. Um dia lembrou-se de Tomás de Moura, seu irmão, que vivia pobremente na província do Ceará; mandou chamá-lo, admitiu-o no seu estabelecimento comercial, e meses depois deu-lhe sociedade.
Elias de Moura ainda entregou a Tomás a gerência da casa e foi à Europa para deixar Virgínia em um dos melhores colégios da capital do mundo elegante, da festejada e sedutora Paris.
De volta para o Brasil deu-lhe uma fantasia visitar a Norte-América, e ali foi juntamente com a esposa vítima de um desastre de estrada de ferro.
Tomás de Moura apenas teve notícia do lamentável acontecimento, deu a casa por quebrada. Fez-se a liquidação, nada havia em caixa, e as mercadorias existentes mal deram para contentar os credores.
D. Matilde fez logo ver ao marido que era preciso mandar vir Virgínia, visto não lhe ter o pai deixado com que pagar as despesas de uma educação tão cara!
Quando a filha de Elias de Moura, coberta de luto, entrou pela porta do tio, trazia no rosto a resignação e a bondade da órfã que agradece a grande caridade que lhe fazem; mas os curiosos vizinhos de D. Matilde segredavam entre si sobre esta grande caridade!
O consciencioso irmão não tardou muito a estabelecer-se com armazém de molhados, e morrendo dez anos depois deixou para a família uma fortuna de cento e sessenta contos, sem lembrar-se de Virgínia nem com uma pequena dádiva!
D. Matilde, passado o competente anojo, o luto de lei, abriu o salão à boa sociedade dos vizinhos, inclusive meia dúzia de estudantes de direito, no número dos quais entravam Edmundo e Gustavo.
Foi então que Alice e Virgínia, ao desabrochar da mocidade, puderam ser apreciadas segundo o caráter de cada uma delas.
Foi ainda por esse belo tempo que, enquanto Gustavo Braga parecia seriamente apaixonado pela sobrinha de D. Matilde, Edmundo Lemos completava o número de sexto namorado da filha dela.
A garrida Alice figurara entre as Julietas, Lauras, Marílias e Beatrizes cantadas por nosso Dr. Eis o seu antigo conhecimento com a viúva de Tomás de Moura.
Pensando nestes formosos anos do alvorecer da mocidade, o Dr. Edmundo acusava o amigo de falta de caráter e até de ambicioso; mas, reflexionando bem, veio a concluir que Gustavo teve razão, e fez o que faria outro em caso semelhante, visto não ser com amor que se manda ao mercado, às lojas de modas, ao joalheiro, ao empresário de teatro e a todos mais que fornecem o que há de útil e recreativo no mundo elegante.
Contudo indignava-se com a lembrança do procedimento de D. Matilde para com a pobre órfã, desde o berço vítima de ambição, e depois da deslealdade; e todavia essa indignação passou para dar lugar ao pensamento senhor de seu espírito, soberano de sua alma! Este pensamento era: a Funesta, a misteriosa bateleira, a visão do monte, a moça encantada do Areré.
Cogitando nos meios de escrever sobre a pedra que tinha visto com o nome de trono de Apolo, perdeu ainda muitas horas de sono.
Lembrava-se como Senefelder deveu a descoberta da litografia a uma pequena circunstância, e chegando ao fim de uma escala de ideias, recordou-se de que possuía um preparado químico próprio para isso, então decidiu de, na primeira ocasião, ir ao monte, e começar uma correspondência tão singular como a pessoa a quem era dirigida.