Capítulo XV - O Pombo-Correio e a Grinalda de Flores de Laranjeira A Rainha do Ignoto · Capítulo 15 de 70
Obra Menu

Capítulo XV - O Pombo-Correio e a Grinalda de Flores de Laranjeira

XV - O Pombo-Correio e a Grinalda de Flores de Laranjeira

Carlotinha estava na sala mortuária lamentando com D. Sofia não poderem completar a mortalha de Virgínia, por faltar um véu e uma grinalda.

Mal acabavam de falar quando entrou pela janela aberta, e pousou ao pé da morta um pombo tão grande que assustou às duas senhoras.

O Dr. Edmundo passou da saleta para a sala, e perguntou:

- O que há, senhoras?

Carlotinha apontou:

- Veja, Dr. o que é aquilo!

- É um pombo-correio, pássaro chamado na Zoologia columba tabellaria.

- Não vê o que ele traz no bico?

- Vejo uma grinalda de flores de laranjeira, e também traz, atado por baixo da asa, um papel; vamos ver o que é.

E o Dr. Edmundo adiantou-se para o singular mensageiro.

Carlotinha sem atentar no que fazia, pousou-lhe a mãozinha no braço e disse:

- Espere.

Depois, com entusiasmo infantil, gritava para a preta velha que rezava antes, aos pés de Virgínia:

- Vá chamar D. Matilde, o Dr. Gustavo. Alice, Henriqueta, todos!...

- Estão dormindo, respondeu a velha.

- Vá chamá-los, disse Eduardo, também atraído ali, pela novidade, o dia vai amanhecer.

Num instante entraram todos de tropel na sala, indagando o que havia.

Então o Dr. Edmundo tomou a grinalda do pombo e entregou a Carlotinha, que a foi depositar na bela fronte de Virgínia.

Ele desprendeu ainda o papel, e o pássaro voou.

- Leia, Dr., disse D. Matilde, chegando-se para perto.

O Dr. Edmundo leu:

Pobre amiga! Os teus pressentimentos coincidiram com os meus.

Disseste:

Quando o pombo voltar à tua presença talvez já não exista aquela que te envia este saudoso e terno adeus.

Chorei repetidas vezes o teu bendito nome, e logo corri ao meu querido laranjal. Sentada debaixo da mais bela laranjeira, à luz duma lanterna, teci esta grinalda, que te ofereço como penhor dessa triste amizade atada pelos laços do infortúnio.

Mas, estou certa de que, quando ela chegar a teus pés, já o teu nobre coração terá deixado de pulsar, já teus lindos olhos terão se fechado para sempre, já tua alma cândida e sincera andará voando pelas regiões etéreas do infinito!

E com que alívio não despertará ela deste sonho mau, deste pesadelo que se chama vida?!

Adeus, excelsa criatura, recebe em tua gelada face o ósculo de minha eterna despedida.

D.

Ficaram todos impressionados e estupefatos. Gustavo guardava silêncio.

D. Matilde e as filhas afirmavam que aquilo devia ter partido da mesma fonte donde tinham vindo a garrafa do juízo e o manual de civilidade. Estavam convencidas de que existia por aqueles sítios uma trama oculta contra elas.

D. Sofia, com o espírito sempre propenso ao misticismo, contestava dizendo, que não podia deixar de ser um milagre de Nossa Senhora, pois nas vizinhanças não havia nenhuma laranjeira donde pudessem haver as flores, também o pombo não podia acertar com a casa se não fosse guiado pela Santíssima Virgem, que mostrava por aquela forma o seu poder, no dia de sua festa.

O Dr. Edmundo fazia conjecturas a respeito do caso; mas não as manifestava, era seu desejo que permanecesse o mistério.

As escravas da casa e algumas mulheres das vizinhanças, que vieram presenciar o caso, apenas alvoreceu o dia, saíram logo pela povoação espalhando a notícia do milagre e fazendo acreditar na santidade de Virgínia, já canonizada por elas.

Muitas exageravam a beleza divina que tinham observado no rosto da Santa; e até chegavam a afirmar que tinham visto, em torno da fronte da moça, um círculo luminoso, muito parecido com um resplendor!

Tanto pode o mistério no espírito do povo! Se ali em vez dum pombo tivesse aparecido um corvo ou qualquer ave detestada, ninguém recearia afirmar que a moça era uma réproba, uma precita!

1/1
Menu

Fazer anotação