Capítulo LXX - A Ilha do Nevoeiro (Conclusão)
LXX - A Ilha do Nevoeiro
Conclusão
Alguém que não tiver bem compreendido sob que forma de ocultismo foram passados os acontecimentos do romance da Rainha do Ignoto, e principalmente o local do seu palácio, perguntará:
— Onde existiu a Ilha do Nevoeiro? Qual era a sua latitude? Em que altura do mar ficava? Por que os geógrafos não a mencionam? Tão perto da costa e os navegantes não a veem, nunca a avistaram?
Vai saber.
As Paladinas do Nevoeiro que eram seres de carne e osso, como o leitor, carregaram o Tufão, o Grandolim e o Neblina com todas as riquezas do Ignoto. Cada uma delas, conforme as instruções que recebera, levava seu rumo e o encargo de estabelecer pessoas que estiveram na Ilha e fora dela, sob a proteção da Rainha do Ignoto.
Reunidas a bordo do Tufão, estavam preparadas para a última sessão espírita. Clara Benício servia de médium e Marciana invocou o espírito da Rainha do Ignoto.
Uma claridade de tons gradualmente azulados invadiu o salão de ré. Todas as Paladinas tornaram-se videntes e fitaram pasmadas um ser de estatura elevada que se apresentou diante delas.
Seu corpo vinha coberto por uma longa túnica branca, mas trazia os pés descalços completamente esfolados e sangrentos. As mãos e o rosto estavam da mesma maneira, sem pele, e da boca e dos olhos do fantasma corriam vagarosamente grossos fios de sangue. O coração, aparecendo através do linho da túnica, semelhava uma chaga.
Todas as assistentes foram tomadas de um grande terror. Ficaram pálidas, tremiam sem poder articular palavra. Marciana fez um esforço de coragem e perguntou:
— Quem sois? Em nome de Deus, dizei-nos.
— Sou aquela que chamastes Rainha do Ignoto, respondeu com uma voz tão doce, triste e harmoniosa como uma orquestra divina.
O som angélico daquela voz sossegou todos os corações e comoveu até o íntimo o mais endurecido deles. Marciana tornou a falar:
— Sofreis ainda? Por que vos vemos neste estado?
— Porque não posso mostrar-me no que estou presentemente e quero que vejais o meu espírito com a mesma forma que teve durante a vida, enquanto esteve encarnado.
— O espírito não é fluido?
— Sim, mas o meu era como se não fosse; tinha grande massa para a pequenez de seu corpo, e assim se feria, contido por ele que não tinha espaço para os estremecimentos causados pelas dores morais.
— E quais eram essas dores?
— Aquelas que vós todas sentis, punhaladas invisíveis, tratos desconhecidos que ficam na escuridão do mundo psíquico.
— E entrastes nesses combates da existência?
— Sim, além dos golpes da deslealdade vilã, da ingratidão monstruosa, do orgulho mal-entendido, da injustiça cruel, da inveja destruidora, tive que lutar contra a legião de meus próprios defeitos, contra o dragão de meu sentimentalismo exclusivista em seus afetos, entusiasta com o Bem e intolerante com o Mal.
— Qual foi a vossa missão na Terra?
— Não sei, nem vim para dizer-vos isto. Avaliai por vós mesmas os meus atos, classificai-os e deixai-me em paz; sofri muito na Terra; não gosto de voltar a ela.
— Explicai-nos ao menos o mistério da Ilha do Nevoeiro, pediu Marciana.
— O daquela ilha onde viram tantas maravilhas, onde ficou o Palácio do Ignoto?
— Sim.
— Vou dizer-vos: ela foi possessão de todos os espíritos que encarnaram e me precederam na ordem genealógica da família. Ela foi passando de meus bisavós a meus avós e deles a meus pais, que me conferiram o governo dela ainda no período de minha existência terrena. Eles me auxiliavam no modo de ocultá-la dos olhos humanos e me davam força e sabedoria para governar o meu reino invisível: este reino onde só se cuidava da elevação do caráter e do bem do próximo, esse, onde a virtude achava refúgio, e ante o qual a verdade não recuava com medo de ser batida como uma vil inimiga. Mas, ah! a Ilha do Nevoeiro vai desaparecer por um fenômeno natural. Ninguém o verá. É noite, não há navios por estes mares; afastai os vossos deste lugar, se não quereis ficar sepultadas no fundo do oceano.
O espírito da Rainha do Ignoto desapareceu com a flama azulada que tinha aparecido ali.
Os navios se afastavam com rapidez. Já à distância suficiente para salvarem-se, ouviram as Paladinas um estrondo horrível.
Uma enorme coluna de fumo aberta em forma de leque elevou-se até as nuvens. Depois, línguas de fogo vermelho iam crescendo em lençóis de chamas movediças, que dançavam no espaço.
As águas daquele mar ficaram em ebulição, cresceram até formar uma enorme montanha que subiu e desceu repentinamente, para engolir tudo que lhe ficava ao alcance.
A Ilha do Nevoeiro era de origem vulcânica; desapareceu no seio do oceano, como a Rainha do Ignoto no meio do infinito.