Capítulo XL - O Que se Passa na Casinha do Pescador Laureno A Rainha do Ignoto · Capítulo 40 de 70
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Capítulo XL - O Que se Passa na Casinha do Pescador Laureno

Capítulo XL - O Que se Passa na Casinha do Pescador Laureno

No dia seguinte à hora marcada estava o Dr. Edmundo ao pé do cais esperando Probo. Este não se fez esperar, saltou em terra depois de ter atracado uma catraia, aonde trazia uma rede de pesca, e foi falar-lhe:

— Agora sou o pescador Laureno...

— Aonde está morando?

— Não é longe, disse ele, ali mais adiante um bocadinho, está a casa arredada das outras, olhando para o porto.

— Aquela caiada de branco com porta e janela pintadas de azul, disse o Dr. Edmundo.

— Justamente, é ali que está agora a Rainha do Ignoto transformada em Olga, filha do pescador Laureno.

— O que tem feito?

— Não há tempo ainda, respondeu Probo, chegamos ontem; daqui a três dias é que ela começa a tomar conta das comissões de que encarregou às paladinas, se quiser assistir venha às cinco horas da tarde ter comigo. Eu estarei à porta consertando uma tarrafa: o senhor faz-me um sinal de longe e se elas estiverem alertas lhe farei conhecer continuando a trabalhar, se a ocasião for propícia irei ter consigo e lhe conduzirei ao oitão da casa aonde há uma fenda na parede da sala por onde se pode observar sem ser visto. Ela fica um pouco alta, mas dos galhos de uma mangueira pode-se ver à vontade.

— Mas quem o senhor julga que eu sou? perguntou o Dr. Edmundo, com indignação, serei algum moleque? O senhor não contente em reduzir-me a este cativeiro, quer degradar o meu caráter!

— O melhor, Dr., é deixar de fanfarrice de dignidade estulta; nem o senhor é o que quer parecer, nem eu acredito em homem de bem... e ainda que acreditasse já empalmei-o para ajudar-me no projeto, e não o largo. Fique certo de que é vigiado: não é com facilidade que me foge.

E riu-se com um rir perverso.

O Dr. Edmundo subjugado pelo olhar terrível daquele atleta gigante, de músculos de aço abateu-se, e disse:

— Pois bem, daqui a três dias, às cinco horas da tarde lá me acharei.

No dia aprazado estava ele às sete horas da noite com a vista ajustada à fenda da parede da sala da casinha do pescador Laureno quando viu entrar Clara Benício e Ignez Racey.

A Rainha do Ignoto sempre mascarada apareceu-lhe:

— O que há?

— Viemos dizer que nos merece particular atenção uma moça atacada de febre, que mora num sobradinho velho por cima de uma loja, nossa antiga conhecida... por isso alugamos uma casinha defronte; mas, ainda não podemos conhecer bem o terreno em que pisamos.

— Como se chama ela? perguntou a Rainha do Ignoto.

— Laura, disse a médica Clara Benício.

— Deixe a história dessa moça, e continue a prestar-lhe os seus serviços enquanto ela precisar deles, volveu a Rainha com enfado.

— É que Vossa Bondade não sabe da intervenção de uma viúva Zuleika Neves que vai lá embaraçar-me a cura, disse Clara Benício visivelmente contrariada.

Era a primeira vez que a sua Rainha deixava passar livremente, sem procurar investigar, um indício de infortúnio.

— Ignez Racey o que tem para dizer-me? perguntou ela, procurando desviar o fio da conversação.

— Uma novidade, senhora, o negociante da loja que fica por baixo do sobrado de Laura tenciona tocar-lhe fogo na primeira ocasião.

— Isso é grave! Ele está quebrado com certeza, e a loja está no seguro, disse a Rainha do Ignoto.

— Certo; mas o que Vossa Bondade não sabe, é quem é este sujeito, que depois de gastar a fortuna da mulher: no jogo, nos teatros e em quanto disparate há, desbaratou o depósito que o comércio lhe confiou, e quer agora acabar por um crime!

— Já adivinhei, é o marido da pobre Licina, aquela louca do Purgatório do Ignoto.

— É ele mesmo, o Onofre Montano, aquele canalha.

— Se ele voltasse para a mulher ela voltaria à razão, disse a doutora Clara Benício.

— Pois ele há de voltar, afirmou a Rainha do Ignoto.

— O que vai fazer?

— Saberá mais tarde, tornou ela, Ignez Racey qual é o roteiro que tem do sinistro projeto do Montano?

— Camilla Franco, a impagável paladina, a destemida amazona, que ficou o ano passado nesta cidade em comissão especial, leu já há três meses um anúncio de Montano que precisava de guarda-livros; por algumas observações que tinha feito, conhecia que ele procurava um guarda-livros tratante como ele, para fazer uma escrituração falsa.

Ela mudou de traje, pôs um bigode postiço e foi oferecer os seus serviços ao negociante quebrado, e soube por tal modo insinuar-se-lhe no ânimo que foi preferido a todos os outros concorrentes. Em poucos dias ganhou-lhe a confiança; mas em vez de fazer as coisas como ele queria, fez o contrário; o homem viu-se perdido; mas não duvidou da boa-fé do guarda-livros, e lhe confiou o seu meio de salvação pelo fogo.

— Pois bem, previna as nossas bombeiras que tenham tudo em boa ordem, e esperem aviso pelo telefone, e diga a Camilla Franco que quando ele preparar a loja para incendiá-la que ela subtraia o livro caixa e me entregue na ocasião do incêndio.

Clara Benício e Ignez Racey retiraram-se, e o Dr. Edmundo sem deixar o esconderijo pensava no modo de salvar a família de D. Margarida do perigo de que estava ameaçada.

Chegaram outras paladinas com diversas mensagens; mas ela não quis ouvir mais nada, retirou-se.

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