Capítulo XXIX - A Ingratidão, Uma Víbora Entre Flores!
XXIX - A Ingratidão, Uma Víbora Entre Flores!
Era quase meio-dia quando o Dr. Edmundo despertou quase sem se recordar do lugar onde estava.
Esfregando os olhos ainda sonolentos procurou coordenar as ideias: sentia a cabeça pesada, e lhe pareceu ter sonhado muito no desacordo d'uma febre intensa.
De pouco a pouco foi reconhecendo seu erro, e, se persuadindo de seu modo de ser entre aquela gente singular.
Ele correu a vista pela mobília do quarto, e achou que apesar de rica, não tinha nada de gentil nem de atraente: não se via ali esses pequenos nadas que caracterizam o quarto d'uma moça: fitas, leques, perfumes, caixas de pós, flores, figurinhas de biscuit e muitas outras insignificâncias.
- Que ornatos esquisitos! disse ele consigo, fitando uma tosca cruz de madeira que s'erguia da cúpula do cortinado da cama, que era de renda preta.
Nos braços da mesma cruz estavam enramadas ervas e flores secas.
Para onde ele lançava a vista via disparates e extravagâncias!
Então lembrou-se que estava representando Odete, e que havia dormido no quarto e no leito que fora d'uma doida.
Apressou-se em deixar aquele aposento contristador para ir ter com Probo. Não vendo o velho no palácio, desceu ao jardim, e ficou passeando ao longo d'uma ruazinha de murtas.
O Dr. Edmundo olhava pasmado para o palácio do Ignoto e dizia a meia voz:
- Não é mentira, nem conto de fada... ali está a escadaria e o pátio, tudo de mármore! A balaustrada das escadas e varandas tudo de coral com frisos d'ouro!
Cada vez mais ele admirava e descobria deslumbramentos: as próprias varandas eram de prata cinzelada, onde se viam embutidas diversas figuras de pássaros e de flores, com diferentes matizes formados pelo engaste de pedras finas e preciosas!
Aquele palácio era como o sol! não se podia fitá-lo por muito tempo. Nele estava o gosto artístico d'um verdadeiro pintor, com os retoques d'um ideal de poeta!
Os jardins eram uma surpreendente maravilha! haviam neles todas as flores de cujo desabrochar Lynneu compôs um relógio, de forma que eram as pétalas recendentes desses mimos da natureza que ali marcavam as horas saindo do cálix, onde estiveram em botão.
Tudo quanto a Botânica e a Zoologia possuem de belo, de raro e de precioso, os jardins do Ignoto ostentavam bem ordenado, e classificado por mão de mestre!
As dependências do palácio eram uma cidade ativa pela fumaça das fábricas que trabalhavam, pelo bater do ferro nas oficinas, e pela voz das crianças nas escolas.
O Dr. Edmundo andava perdido de admiração em admiração, aproximando-se de tudo que lhe causava curiosidade; cansado de andar, fatigado de surpresas parou junto a um banco de jaspe sombreado por um jasmineiro, e sentou-se:
De repente uma mão desenganchou os ramos de duas roseiras, e passou entre elas a figura elevada de Probo, um verdadeiro Moisés bíblico, com sua longa barba branca.
- A que tempo o procurava, disse ele estendendo a mão ao Dr. Edmundo, e sentando-se a seu lado.
- Posso falar aqui, não há perigo? perguntou o moço em voz baixa.
- Não há, estamos bem, podemos conversar à vontade: sabe o que disse a rainha hoje pela manhã: que estava estranhando Odete, pois que sempre àquela hora lhe vinha trazer um ramo de amores-perfeitos... e não a tinha visto ainda.
- Devo ir logo levar-lhe o ramo? perguntou o Dr. Edmundo.
- Não, agora será fora de tempo: o sol já vai alto e pende para tarde.
- Supôs que não acordasse tão cedo, principalmente depois d'uma sessão que terminou quase às cinco horas da manhã.
- Ora, Dr., cuida ainda lidar com umas dessas fidalgas enervadas pelos cômodos e mimos da vida? Engana-se, o título de rainha, segundo dizem, não lhe vem pelo gozo, vem pelo martírio. É um espírito de ferro inclinando, dobrando, movendo um corpo que fecha na mão como uma luva de seda! Para esta mulher não há dia nem noite, há somente a necessidade de momento! Ela deita-se sempre calçada, atacada, e pronta para seguir a qualquer ponto! Tem o sono tão leve que poderia despertar ao rumor sutil d'uma pétala de rosa lançada n'água!
- Oh! exclamou o Dr. Edmundo, mas, porque tanta inquietação? Julga-se cercada de perigos? Tem muitos inimigos?
- Nada, disse o velho, é que ela é a força centrífuga dessa sociedade de malucas...
- Porque as chama malucas?
- Porque são mesmo. Não vê o senhor uma fortuna como esta tão mal empregada em benefícios que só elas conhecem. Vivem errantes, obscuras, perdidas no seio da humanidade como as areias no fundo do oceano, no seio das vagas! Quando podiam gozar de tudo que é dado na vida ao poder do ouro!
- E fazer bem ao próximo, não é uma virtude recomendada por Cristo?
- E pensa o senhor que esta maçonaria de mulheres não tem um desígnio funesto para o país?
- Qual! Sr. Probo, elas só têm coração e fantasias.
- Aí! aí! eu cá sei, já não denunciei-as à polícia por falta de provas... mas, meu amigo, disse o velho com mistério, eu não lhe dei entrada aqui com outro fim, foi para ajudar-me a descobrir a trama, e levá-la ao conhecimento do governo.
- Mas, senhor, o que tem o governo que ver com elas? disse o Dr. Edmundo indignado, sem fitar o rosto d'aquele velho ingrato e traidor, que já lhe estava causando asco.
- O que tem o governo que ver com elas? Tem muito, ele não autorizou esta sociedade secreta... Este tesouro acumulado na mão deste diabo deve ser considerado um crime! Ela não podia explorar as minas da ilha e explorar: não contente com isso funda com nomes imaginários: casas comerciais, fábricas, engenhos, centros de lavoura e grande criação de gado; de forma que tem em todas ou em quase todas as províncias do Brasil, um rendimento fabuloso! E para que? Para desperdiçar em fantasias loucas! em benefícios extravagantes! Em fazer mal à propriedade alheia; pois rouba ao senhor para dar ao escravo. Que absurdo! É abolicionista! Já eu a ouvi dizer que não há lei alguma de direito humano que possa escravizar um cidadão, que a condição de escravo resultou d'um abuso da força: contra a fraqueza, e urge reagir...
- Tem ideias levantadas e sãs, disse o Dr. Edmundo.
- Que sãs?! exclamou Probo exaltado, veja, examine o que ela teve a petulância de declarar em um discurso, que fez, na penúltima sessão do Nevoeiro: A pena última é o recurso dos governos impotentes para regenerar o criminoso pela instrução e pelo trabalho.
- Bem pensado! senhor Probo.
- Bem pensado também incutir no ânimo dos que a rodeiam, que o rei é o produto da ignorância dos povos antigos, que ainda não estavam em estado de governarem-se, e formar uma república.
- Bravo! uma rainha republicana!
- Como Robespierre! ou como Danton! acrescentou Probo.
- E o senhor quer-lhe mal por isso?
- Não é só por isso, senhor Edmundo, é por muitas outras ideias subversivas... Para não faltar-lhe mais nada do que subleva os espíritos!
- Espírita! mais este crime! disse o Dr. Edmundo zombando.
- O senhor zomba porque não conhece os males que ela causa: as mais santas instituições, como sejam: o direito de propriedade dos senhores, a monarquia e a religião.
- E que faz ela para destruir esta trindade.
- O senhor há de ver como eu tenho visto. Olhe, aqui na ilha não há templo católico nem de religião alguma, há somente sessões espíritas, na biblioteca, onde ela possui todas as obras de Allan Kardec, de Flammarion e outros malucos como ela. Enfim o senhor verá.
- Bem, disse o Dr. Edmundo, estou de acordo consigo e pronto para entrar em seu plano; mas, deixe tempo à minha observação, e não faça nada sem comunicar-me.
- Está firmado, Dr. Acredito que quatro olhos veem mais do que dois, e duas cabeças acertam mais do que uma.
- Mas, olhe que, assim como, uma substância inofensiva é formada de duas; que separadas produzem a morte, um veneno e um antídoto podem salvar.
O velho não compreendeu bem o sentido do pensamento do moço, e levantando-se recomendou-lhe muita cautela em não se deixar descobrir, e de fazer toda diligência para representar bem o papel de Odete.
O Dr. Edmundo pensou ainda alguns instantes em tudo que ouvira e vendo Probo se afastar pela alameda do jardim, disse consigo:
- É uma víbora entre flores!