Capítulo X - Dois Anjos A Rainha do Ignoto · Capítulo 10 de 70
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Capítulo X - Dois Anjos

X - Dois Anjos

Era uma formosa manhã de maio. Esplêndido brilhava o sol no azul do céu entre as franjas mimosas de nuvens alvíssimas, e cintilava como diamantes perdidos nas gotas de orvalho que a neblina havia espalhado na relva florida do campo.

A natureza parecia em festa naquele dia.

Entrava, pela janela do quarto de Virgínia, o cheiro balsâmico das flores agrestes, assim como o canto alegre dos pássaros festejando os ninhos nas ramadas das árvores.

Ela passara bem a noite, e despertou confortada; mas uma voz interior lhe dizia que não estava longe o fim de sua peregrinação sobre a terra.

Levantou-se, foi a uma cômoda, abriu as gavetas, e delas tirando um a um todos os vestidos, os foi estendendo sobre o leito; cada uma daquelas peças de sua vestuária lhe trazia à memória uma recordação íntima, uma cena de sua malfadada existência:

Havia sido com aquele vestido azul celeste, que no sarau do aniversário de Alice, ela ouvira pela primeira vez Gustavo jurar-lhe um amor eterno. Com aquele de cassa estampada tinha passado um dia no campo, o mais feliz de sua vida. Aquele outro de seda cor de rosa lembrava-lhe o jantar que assistira no dia da formatura dele... ainda um lhe recordava o começo de suas desventuras. Este era branco, e se lhe afigurou uma mortalha.

Mas, sobre cada um deles que lhe recordavam uma alegria ou uma tristeza, ela foi derramando lágrimas de eterna despedida.

Beijou as fitas, as flores, e as joias que foram de sua mãe, depois trancou tudo dizendo:

- É para os pobres, o meu mal não é contagioso porque é da alma; além disso, só usei estes adornos quando era boa, quando era feliz.

Virgínia havia deixado sobre o toucador um cofrezinho de madrepérola que com mãos trêmulas procurou abrir e não pôde.

Estava com a mente tão cheia de recordações, que defronte do espelho não reparou na extraordinária mudança que se havia operado em seu rosto outrora tão belo.

Penteou os longos cabelos em duas tranças, pôs um cache-nez, tomou o cofrezinho e firmada ao cabo do chapéu de sol, saiu para a sala.

- Para onde vai assim? disse D. Matilde vendo-a.

- Vou despedir-me de uma amiga, respondeu ela, quero que me dê sua licença e também o mulatinho José para ir comigo até a casa de D. Raquel, de lá irei com a Carlotinha. Até a noite, minha tia.

D. Matilde apressou-se em mandar o José com a sobrinha de seu finado marido, e respirou aliviada, pois a presença da moça lhe era inteiramente incômoda por muitos motivos...

Depois nem ela, nem as filhas podiam suportar a vista de uma dor física ou moral. Estavam sempre onde estava o riso e nunca ao lado do pranto.

Se lhe faziam convite para um baile, um jantar, um casamento ou outra qualquer festa, dizia logo D. Matilde às filhas que era indispensável comparecer sob pena de perderem as simpatias das boas e antigas relações; mas, se lhe mandava dizer uma amiga que acabava de perder o filho, o genro, ou o marido, ela depois de grandes lamentações e fingidos desmaios em presença do portador, mandava dizer que ficava doente do grande pesar e do susto que lhe causara a notícia, por isso não podia ir fazer-lhe companhia na solidão do anojamento.

Também não lhe interessou saber de quem ia Virgínia despedir-se, porque sabendo que as suas relações eram com gente baixa no seu modo de falar, não lhes conhecia nem o nome nem a morada.

Entretanto Virgínia, tendo respirado o ar livre e puro da larga rua da povoação, sentiu reanimarem-se-lhe as forças e voltar-lhe ao peito a desmaiada sombra de uma fraca alegria.

Entrando em casa de D. Raquel encontrou ali as irmãs do vigário e Carlotinha sentadas em roda de uma mesa, onde se via: tintas, goma arábica, papel de cores, arame, e folhas de lata. Estavam fazendo flores para o altar e o andor de Nossa Senhora que tinha de sair em procissão no último dia de maio.

A professora nas festividades religiosas do lugar era tão necessária como o vigário:

Era ela quem ensaiava os cânticos, preparava as meninas para a comunhão, oferta das flores, coroação de Nossa Senhora no último de maio, e ainda vestia os anjos para a procissão. Por isso na véspera dessas grandes solenidades viam-na sempre cansada, agitada, entrando e saindo da igreja. Às vezes mandando pregar um arco de flores, mudando a toalha do altar, por intermédio do sacristão, recebendo dele os castiçais para mandar limpar ou procurando colocar o tapete que é uma ou duas vezes por ano desenrolado para servir na festa do Padroeiro, e na do Mês.

- Venho pedir-lhe um favor, D. Raquel, disse Virgínia entrando, consinta a Carlotinha ir comigo para passarmos o dia em casa de uma amiga.

- Com muito gosto... mas estamos tão atarefadas com os preparos da festa do Mês Mariano... Amanhã é o último dia, e, como sabe, ela me ajuda muito.

- Sim; mas não sirva isto de obstáculo, tornou Virgínia, podemos levar o trabalho, e com mais vantagem será feito por duas que por uma.

- E você pode trabalhar, menina? Perguntou a professora com ar de dúvida.

- Eu certamente não, mas a amiga para cuja casa vamos. Ela é tão hábil quanto serviçal.

- Pois bem, ela irá. Carlotinha arruma na cesta as rosas que estão talhadas e leva... é só para hastear.

Carlotinha, sempre dócil, arrumou o que era preciso para o trabalho das flores na cestinha e tendo-a enfiada no braço saiu para a rua com Virgínia.

Ao dobrarem o canto viram o Dr. Edmundo na sala lendo um jornal, este vendo-as passar aproximou-se da janela e cumprimentou:

- Oh! D. Virgínia, muito me alegro... vai passear, é sinal de melhora.

- Realmente, disse ela voltando, parece que a minha enfermidade é condescendente, quis fazer-me a última vontade... Se morresse sem despedir-me de Diana, sem vê-la, morreria desconsolada.

- Bom dia, vizinha, disse ele dirigindo-se a Carlotinha, que se conservava meio escondida atrás de Virgínia, desde ontem que não a vejo.

- Estava ocupada, respondeu a menina muito corada, baixando os olhos.

- Mas quem é esta Diana? tornou ele.

- É a filha do caçador de onças, respondeu Virgínia, mora ali naquela cabana à entrada da mata, na ribanceira do Jaguaribe.

- Nunca ouvi falar nessa deusa, tornou ele, e já estou aqui há mais de um mês, nem tão pouco no caçador de onças.

- Ninguém se ocupa em falar nesse urso, disse Virgínia, pois ele só trata com os animais bravios da serra. Diana é um verdadeiro enigma, assim como sua mãe e uma rapariga muda que as serve.

- Como a senhora comunica com ela?

- Por um favor especial, uma particular simpatia; mas ela proibiu que falasse em seu nome a quem quer que fosse, portanto já cometi uma imprudência, queira guardar segredo.

- Nem sabe o interesse que tenho de conhecer esta singular família, volveu Edmundo, mas esteja descansada que serei discreto.

- Obrigada. Recebeu convite de minha tia para o sarau do aniversário de Henriqueta?

- E de D. Alice, acrescentou ele, tive convite de ambas; para quando é? Estou esquecido.

- Para o dia trinta, penúltimo de maio.

- Estou embaraçado na escolha dos presentes, pode indicar-me o que mais agradará a estas senhoras?

- Poderia dizer-lhe, mas é uma inconveniência... Vamos, Carlotinha.

As duas moças seguiram pela encosta do Jaguaribe, e Edmundo, apesar de acompanhar com a vista aqueles dois anjos de resignação e de candura, pensava no mistério da gruta do Areré, e procurava combiná-lo com o da cabana do caçador de onças. Ele queria agarrar novos fios, para desembaraçar o labirinto em que tinha a mente desde a sua chegada àqueles sítios.

Lembrava-se de que na tarde em que escrevera os versos na pedra do monte solitário, vira a misteriosa, a quem o povo chamava Funesta, com os olhos fitos na cabana da entrada da mata, naquela mesma que Virgínia lhe dissera ser a do caçador de onças.

Ele desesperava por não poder avançar mais depressa no conhecimento da verdade, e por coisa alguma deste mundo abandonaria aquele lance dramático, que o acaso lhe havia posto ao alcance.

Julgou então de absoluta necessidade vigiar a cabana suspeita, e determinou dirigir para ali alguns passeios.

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