Capítulo XXVI - Maravilhas sobre Maravilhas! A Rainha do Ignoto · Capítulo 26 de 70
Obra Menu

Capítulo XXVI - Maravilhas sobre Maravilhas!

XXVI - Maravilhas sobre Maravilhas!

Às dez horas em ponto bateu o Dr. Edmundo à porta da cabana.

Tinha deixado cartões de despedida às famílias de suas relações, e instruído o criado no que devia fazer, se por acaso, não voltasse dentro de quinze dias.

Probo vestiu-lhe um hábito novo com a cruz vermelha dos templários, pôs-lhe também uma máscara igual a que trazia Odete, e disse:

- Vamos, o senhor está exatamente como ela, tem a mesma altura, e até o mesmo corpo.

O Dr. Edmundo seguiu-os com alguma coragem; mas quando os viu mergulharem na entrada daquela gruta escura e fria do Areré, estremeceu...

Roberta ia na frente e Probo atrás, este estendeu a mão para o Dr. Edmundo, e disse alto:

- Entre, não tenha medo Odete, disse depois baixo: o senhor da entrada desta gruta em diante, é mudo, lembre-se bem, se falar está perdido.

Foi naquela hora que ele considerou no passo que tinha dado! Se aquela gente fizesse parte duma quadrilha de salteadores o que seria de si? Como pagaria tal imprudência? Talvez com a vida! mas era tarde, já não podia recuar.

Caminhava nas trevas sem saber para onde ia. O ar pesado e úmido da gruta açoitava-lhe o rosto, passando em assovio por baixo da máscara. Sentia o esvoaçar das asas dos morcegos passando-lhe rente pelos cabelos, que se eriçavam de medo!

Depois entraram em uma galeria muito estreita a princípio, mas que se foi alargando gradualmente, e a uma certa distância divisava-se um foco de luz avermelhada como a que se acende nas caldeiras dos vapores.

Probo sentiu tremer a mão do Dr. Edmundo que ele sustentava ainda guiando nas trevas, e disse:

- Não se assuste, Sr., vamos chegar à estação da estrada de ferro; e o trem vai partir, apressemos os passos.

- Como, Sr. Probo, um caminho de ferro subterrâneo?! perguntou o Dr. Edmundo admirado.

- Sim, Dr., é muito natural, pois a soberana do Ignoto não podia transpor tão depressa as cinco léguas que separam o porto de seu reino desta gruta sem ser por caminho de ferro.

- Já começo a crer na maravilha do conto...

- Conto não! Veja com seus olhos, disse Probo, e depois me chame visionário.

A voz dos caminhantes era respondida da abóbada da galeria subterrânea por um eco soturno e cavo, que enchia de pavor as pessoas desacostumadas àquele trajeto, por isso o Dr. Edmundo guardou o silêncio a que estava condenado, voluntariamente, por conveniência própria.

Chegaram efetivamente a uma estação de caminho de ferro; dali em diante a galeria subterrânea era construída por arcadas de abóbadas de tal solidez capaz de sustentar um mundo!

Era um verdadeiro túnel como o de Londres, que fica por baixo do rio Tamisa, e que foi construído sob a direção do engenheiro Brunel em 1825.

Na estação solitária e mal iluminada a máquina apitava dando o sinal da partida.

O Dr. Edmundo seguiu Probo e Roberta, que enfiaram pela portinhola dum vagão também despovoado de passageiros; mas antes de entrar olhou para a maquinista, e ainda mais para a foguista, uma gigantesca norte-americana, vestida de azul, com os braços arregaçados, sujos de carvão e de azeite.

O apitar da máquina, o rodar do trem nos trilhos subterrâneos era medonho e cavo, aquelas mulheres fantásticas, tudo avultava no espírito do pobre moço, vítima de sua curiosidade.

Ele já não sabia se estava acordado, julgava-se em um pesadelo.

- Estou aturdido, disse ele quase ao ouvido de Probo.

- Ainda é cedo, muito cedo para isso; o senhor ainda não viu nada, disse o velho, eu a princípio também andei estatelado; queria por força estar sonhando. Mas vamos cuidar do que serve, vou dar-lhe algumas instruções proveitosas: quando chegarmos ao Ignoto há de ser meia-noite, hora em que vai começar a sessão, que tem de haver na véspera da partida; o senhor acompanhe Roberta à sala do Nevoeiro e sente-se no lugar destinado a Odete, que é junto à Rainha do Ignoto. Observe... admire, mas não faça o menor movimento que denuncie a sua estranheza, porque será descoberto; é preciso fingir a indiferença de estátua que ela sempre conservava em presença de tudo.

- Farei todo possível por conter-me; mas, queria tê-lo ao pé de mim para depois explicar-me o que ignorasse.

- Não pode ser, porque não sou admitido lá, e só sei do que há pelo que me conta a Roberta, que já goza de muita confiança da rainha; mas amanhã na visita que ela tem de fazer às fábricas, às oficinas, ao observatório, ao gabinete de química ou laboratório, aos estabelecimentos de caridade, irei ao pé de si e da Roberta e conversarei com esta a propósito das perguntas que sei que não me pode fazer em seu papel de muda.

- O que não compreendo, disse o Dr. Edmundo já mais tranquilo, é como esta Rainha do Ignoto pode tirar a essência de todo o progresso para concentrá-la em sua ilha!

- O que mais admira, senhor Edmundo, é ela entender de todas as indústrias, de todas as artes, de todas as ciências e letras e até ser uma utopia de governo! Só vendo se pode fazer uma ideia... é incansável! Todos os momentos de sua vida são aproveitados numa atividade útil! Tanto sabe ostentar o luxo asiático, como encobrir-se na miséria londrina da cidade pobre. O senhor terá ocasião de vê-la no trono cercada dum esplendor e dum fausto igual ao que havia em um dia de Luís XIV em Versailles; mas logo terá de vê-la no meio de suas paladinas, vestida de camponesa, dormindo ao relento sobre um carro de feno!

O trem deu sinal de chegada.

A estação ali ficava por baixo dum morro na foz do Jaguaribe.

O morro, assim como a gruta também tinha as honras do encantamento.

O povo, e com especialidade as lavadeiras quando voltavam à cidade com suas trouxas de roupa, vinham contando histórias do morro mal-assombrado: contavam que em certas noites se ouvia tocar tambor ali, via-se sair rolos de fumo; e algumas até afirmavam que lá andava um bode preto fazendo correrias e ladrando como um cão!

Mas deixemos as lavadeiras em sua crença e tornemos aos viajantes noturnos:

Eles saíram da estação, e encontraram logo ao pé do morro à beira do rio, onde estava amarrada uma barca: a barqueira imitou o canto da noitibó; Probo respondeu da mesma forma, e se adiantavam para ela quando o Dr. Edmundo perguntou baixinho:

- O que significa este canto?

- É a senha da noite senhora muda, disse ele.

Então o Dr. Edmundo lembrou-se que devia estar calado.

A barqueira remava silenciosa por águas desconhecidas dos navegantes.

A barca deslizava em caminhos estreitos entre penhascos fragosos mais ou menos alcantilados.

Às vezes era uma verdadeira garganta onde ela parecia passar quase roçando a quilha nos cachopos, onde o mar se espraiava numa gargalhada de espuma.

O Dr. Edmundo tornou a sentir o mal-estar, o pavor desconhecido que havia experimentado na travessia do caminho subterrâneo; mas era arrastado por um magnetismo que julgava fatal!

Finalmente chegaram à ilha, cujas costas eram naturalmente defendidas por mil fortalezas de baixos, parcéis, restingas e sirtes.

1/1
Menu

Fazer anotação