Capítulo XLII - O Mistério se Complica A Rainha do Ignoto · Capítulo 42 de 70
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Capítulo XLII - O Mistério se Complica

Capítulo XLII - O Mistério se Complica

A viúva Zuleika Neves vinha todas as noites depois das nove velar à cabeceira de Laura que continuava em seu delírio a tratá-la como inimiga. Mas D. Margarida não cessava de agradecer-lhe os grandes favores e de elogiar-lhe o coração benfazejo.

Clara Benício é que não estava muito satisfeita com essa enfermeira intrusa com quem não havia ainda travado conhecimento; mas de quem Laura fazia amiudadas queixas.

Na tarde daquele dia tinha comunicado o fato à Rainha do Ignoto, e ficado muito admirada de vê-la tão indiferente.

De volta da casa do pescador Laureno visitou Laura e achou-a muito sobre-excitada no delírio, não cessando de falar na viúva Neves, sem lhe pronunciar o nome, mas dizendo:

— Ela vem para me ver morrer... eu sei... quer o meu noivo... hei de viver, não é assim, doutora?

Clara Benício pediu a D. Margarida que fizesse com que a viúva Zuleika Neves não entrasse mais no quarto de Laura, sob condição de deixar o tratamento, se ela não quisesse anuir a seu pedido.

D. Margarida não obstante sentir-se pesarosa por ofender com uma recusa a essa senhora a quem estava devedora de muitas finezas e obséquios, prometeu que tudo faria para afastá-la. Mas apenas saiu a médica entrou Zuleika Neves, e D. Margarida, ocupada como estava nos arranjos domésticos, não a viu entrar para o quarto de Laura.

Armando e o Dr. Edmundo tendo chegado depois conversavam muito baixo na sala imediata.

Zuleika, sentada ao pé da cama como fazia todas as noites, tinha a vista no ponteiro de um relógio de algibeira que sustentava na mão direita, esperando assim a hora do remédio.

Laura estava calma e parecia dormir.

Zuleika levantou-se, tirou de cima de uma cômoda uma garrafa, despejou um pouco em um cálice e dirigiu-se ao leito.

A doente sentou-se repentinamente e exclamou:

— É tempo perdido, senhora! por este modo não arranja nada! Vá aventurar em outra parte.

— Eu aventureira! respondeu ela com angústia, tu és cruel, Laura!

E duas lágrimas silenciosas correram pelas faces pálidas.

Laura, excitada pela raiva de seu delírio especial, ergueu-se a meio e pegando em uma faca de mesa que tinham deixado por acaso em uma cadeira junto ao leito, cravou-a no peito de Zuleika quando esta erguia o braço para chegar-lhe o cálice de remédio aos lábios.

Ouviu-se um grito agudo, e o Dr. Edmundo que estava defronte da porta do quarto da doente prestando atenção ao que se passava, correu em primeiro lugar, e recuou dois passos vendo a moça estendida no soalho e uma fita de sangue a correr-lhe sobre a seda preta do corpo do vestido.

Acudiram todos assustados e Armando correu a chamar Clara Benício.

Esta examinou a ferida e disse:

— Não há perigo, o ferimento se fosse profundo seria mortal; mas vibrado com mão pouco firme achou resistência na seda do corpete do vestido e apenas atravessou a pele. Foi o susto que a fez desmaiar.

— Não estou desmaiada, falou Zuleika em voz muito baixa, cuidem da doente, vejam se a alteração matou-a. E procurou erguer-se com a mão sobre o peito para estancar o sangue, ou antes represá-lo.

Voltaram-se todos para o leito de Laura e viram-na com ar indiferente como quem ignorava o que tinha feito.

Zuleika puxou a mantilha para o rosto e saiu apressada sem dar tempo a nenhuma observação.

E o Dr. Edmundo quanto mais a tinha observado, mais semelhança havia achado com a Rainha do Ignoto quando a viu sem máscara no monte do Areré.

— D. Margarida, disse Clara Benício, é necessário que a senhora me esclareça sobre o motivo dessa antipatia entre sua filha e aquela senhora que acaba de sair ferida, qual o empenho que tem ela de estar na presença de Laura, cujo delírio tornou-se em mania, e cuja febre tomou um caráter nervoso.

— Não sei, doutora, e nem julgo que haja conhecimento algum entre uma e outra.

O Dr. Edmundo não era da mesma opinião de D. Margarida; mas guardou silêncio, e não deu parecer.

Armando, extremamente desanimado, sentou-se junto do leito, e perguntou a sua noiva se queria tomar o remédio, ela aceitou-o calmamente e em poucos minutos adormeceu tranquila.

D. Margarida veio tomar o seu posto junto da filha, e os moços retiraram-se apenas saiu a médica.

Esta, pensando no caso, cada vez mais acusava a indiferença da Rainha do Ignoto para com os avisos que tinha dado. Ao seguir pelas ruas silenciosas ouviu o rumor de um carro que se aproximava, reparando no número dele reconheceu ser o mesmo que tinha levado a viúva Neves. Fez sinal ao cocheiro e este fez parar o carro.

— Pode conduzir-me à casa da viúva Neves? Sou médico, e fui chamado por esta senhora, não sei aonde mora.

O cocheiro olhou para Clara Benício e viu um ancião respeitável, não duvidou de suas palavras; desceu da boleia, abriu a portinhola, e disse:

— V. S. pode subir; a viúva Neves mora em um sobrado na Rua do Norte, venho de lá agora mesmo.

Cinco minutos depois Clara Benício subia as escadas do sobrado da viúva Neves, e depois era conduzida por uma criada à presença da mesma, que visivelmente contrariada recostava-se à almofada de veludo bordada a ouro, que estava no sofá da sala de visita.

— Julguei que precisaria de meus serviços e vim correndo oferecê-los; mas, muito me surpreende encontrá-la de pé.

— Quem acaba de pensar golpes alheios está muito prática para curar o seu. Não foi nada, doutora, esteja descansada.

Clara Benício ficou pasmada de não ser vista por Zuleika como o fora pelo cocheiro, não havia dúvida que o seu poder hipnótico não servia para ela.

— Desculpe-me V. Exa., se torno a importuná-la; mas a singularidade do caso traz-me preocupada; e para estudar os sintomas daquela enfermidade, preciso saber se o que sucedeu foi resultado de um delírio que teve origem na febre ou se foi o desfecho de um drama da vida.

— Admira que a vossa ciência tivesse descarrilhado para o desfiladeiro em vez de seguir no trilho da verdade, disse Zuleika com firmeza.

— Mas se o golpe tivesse sido profundo, se a ferida lhe viesse a matar, qual era a minha obrigação?

— Dar parte à polícia, respondeu Zuleika, mas isto de nada valeria, porque Laura teria advogados pagos por mim e médicos que nos jornais provassem a irresponsabilidade de seu ato, e embora vós protestásseis seria debalde.

— Cada vez compreendo menos, disse Clara Benício, e desconfio mais; que interesse teve a senhora de visitar aquela família sem a conhecer?

— Não costumo dar conta de meus atos senão a mim mesma; se eles são bons aplaudo-os, se são maus, condeno-os, respondeu Zuleika com energia.

Clara Benício estava subjugada por aquele espírito forte e pensava:

— Só conheço uma mulher assim: a Rainha do Ignoto, se não é ela, esta pode gabar-se de ser tão extraordinária como a sua digna rival.

— Proíbo, doutora, que dê mais uma só palavra sobre o caso, disse Zuleika com autoridade; ele me pertence e não tem nada a ver com pessoa alguma.

Clara Benício depois de algumas frases de conversação banal retirou-se um pouco descoroçoada, dizendo consigo o que o Dr. Edmundo também repetia mentalmente, ao deixar a casa de Laura:

— O mistério complica-se!

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