Capítulo XIII - O Sarau Interrompido A Rainha do Ignoto · Capítulo 13 de 70
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Capítulo XIII - O Sarau Interrompido

XIII - O Sarau Interrompido

Findava o dia, e as sombras da noite estendendo o seu negro manto semeado de estrelas deixavam que a treva empunhasse o cetro da tristeza e do mistério!

O povo chama ao anoitecer "boca da noite", pois, a boca da noite é como a boca de um abismo! A nos aproximarmos de uma ou da outra, sentimos uma espécie de terror pânico, que não se explica, senão pelo desconhecido que nos cerca, pelo ignoto que nos confunde!

Mas ao clarão das luzes, que se acendiam em casa de D. Matilde, não se podia deixar de sentir um certo bem-estar, e vida, a animação parecia entrar por todos os poros com o aroma das flores e o perfume esquisito dos lenços de meia dúzia de camponesas que já esperavam na sala o romper do baile.

Entre aquelas burguesas acanhadas e pouco elegantes, sobressaíam as filhas de D. Matilde com seus vestidos de flanela cor de rosa, talhados à última moda e ajustados a seus corpos costumados ao espartilho e afeitos a menear-se com o chic da cidade.

Alice, morena como as irmãs, era dum tipo agradável sem ser bonita; um tanto gorda, de rosto curto, nariz pequeno e bem feito, boca grande; mas, guarnecida de dentes alvos e iguais, que favoreciam ao constante sorriso que lhe parava nos lábios. Os olhos é que, apesar de diminutos, ressaltavam nadando em uma alegria ruidosa.

Ela se embalava descuidosa em uma cadeira de balanço a conversar em modas, enquanto o Dr. Gustavo contendo os filhos, que punham tudo em desordem, não sossegava um instante:

Aqui as crianças desatavam as fitas com que tinham prendido as toalhinhas de crochê aos espaldares das cadeiras, ali arrancavam as flores dos jarros e as atiravam no chão, e lá tomavam o leque de uma convidada e o queriam rasgar, logo depois davam murros no teclado do piano e entre dentadas e gritos agudos disputava cada um a honra de ser o pianista.

D. Matilde, dando uma última revista à mesa, onde se ostentavam, tostadinhos do forno, e enfeitados de papel de cores, os perus, os leitões, as galinhas, as compotas e os bolos, grita de vez em quando da sala de jantar:

- Vê, Alice, o que estão fazendo estes meninos! Ah! fora não tem gente! Olhem que eles estragam o piano.

Alice não prestava atenção, e os meninos continuavam.

Malvina não se cansava de ir visitar uma saleta onde se achava coberta com uma bela colcha a mesa destinada a receber os presentes.

Os camponeses, ou os mesmos habitantes da povoação desconheciam esta forma de fazer anos da cidade; mas as filhas de D. Matilde estudadamente tiveram o cuidado de os prevenir a tempo, contando-lhes os brilhantes presentes que receberam no ano anterior, e acrescentando que nas praxes civilizadas ninguém se atreve a apresentar-se em festa natalícia sem primeiro enviar uma oferta.

Era por isso que se viam sobre a mesa em exposição: lenços bordados, toalhas de labirinto, rendas de bilros, pássaros em gaiolas, coelhos alvos como a neve e muitas outras coisas próprias do meio, e de tão singela sociedade.

Carlotinha fez também o seu presente às duas irmãs: eram dois pares de sapatos de veludo bordados a seda e a ouro. Um trabalho delicadíssimo! digno das mãos duma professora de prendas domésticas.

Mas de todos os presentes o mais rico era o de Edmundo, pois consistia em dois broches de ouro, ambos com o feitio de uma sempre-viva com um pequeno brilhante no centro.

Esta prodigalidade fez com que Henriqueta supusesse em boa conta a sua pretensão.

Via a noite adiantar-se, a sala cheia de gente, e mostrava-se inquieta. Olhava para a porta, ia debruçar-se à janela, depois voltava ao espelho arranjava melhor um laço, endireitava o penteado e tornava a consultar o relógio. Faltava-lhe alguém. Era o Dr. Edmundo.

Por outro lado o Boão do Poço, com seus modos atoleimados, contribuía ainda mais, passeando na sala com o charuto na boca, a botar baforadas de fumo.

D. Matilde já se tinha sentado ao piano disposta a tocar a primeira valsa, quando apareceram na sala a família Martins e o Dr. Edmundo.

Todos os olhos se cravaram curiosos na figura elegante e bela da filha da professora.

Carlotinha estava radiante! Trazia um vestido de fazenda transparente e cor de neve, uma faixa de fita cor de rosa lhe apertava a cintura e caía em farto laço até a bainha do vestido orlado de folhos de renda finíssima. Nos cabelos louros, bem penteados, trazia somente um botão de rosa.

Henriqueta ao vê-la dardejou-lhe um olhar terrível. Era um desafio; desde aquele momento a formosa menina podia contar com uma inimiga.

Ela encaminhou-se para a janela, onde Edmundo se recostava a conversar com o Dr. Gustavo, genro de D. Matilde, e seu antigo companheiro de estudo.

- Por que demorou-se tanto, Dr.? perguntou ela.

- Esperei pela família do Sr. Martins... somos vizinhos...

- Logo vi que a demora, disse ela, era para a filha da professora enfeitar-se; e aparecer aqui como uma rainha de Congo.

- Como uma sultana! como uma estrela! exclamou o Dr. Gustavo, é uma das criaturas mais lindas que tenho visto em minha vida!

- Vou consultar a Alice para saber se ela participa do mesmo entusiasmo, disse Henriqueta despeitada.

- Se ela não participar do meu entusiasmo, minha cara cunhadinha, me dá o direito de supô-la despeitada como você, volveu ele rindo-se.

- Dê a sua opinião Dr. Edmundo, consultou ela impaciente.

- Realmente D. Henriqueta, a menina Carlota Martins não é feia, disse ele receoso de exasperá-la; mas, o acanhamento que a domina, tira-lhe parte do encanto.

O piano fez-se ouvir, e ele dando o braço a Henriqueta começou a passear, e no momento oportuno rompeu o baile com a primeira valsa. Outros pares imitaram-no.

Boão do Poço não se conteve, cotovelando os que dançavam, enganchando os pés nos vestidos das senhoras que estavam sentadas, chegou até Carlotinha e convidou-a para valsar.

Ela desculpava-se dizendo que entontecia valsando, e que por isso preferia ficar sentada.

O brusco saiu da forma que entrou resmungando.

Alice colocada entre D. Paulina e D. Sofia ficou rindo francamente, e as duas senhoras forcejavam para conservar seriedade.

O piano calou-se, os pares valsantes sentaram-se, e o Dr. Edmundo saiu para o pátio com Eduardo Gama, um seu amigo do tempo de estudante no Recife.

Ali ao ar livre encontraram Boão do Poço que vociferava num grupo de burgueses:

- Se eu adivinho que não dançava com a Carlotinha do capitão Martins, e que as donas mangavam de mim... cobra me mordesse se eu mandasse o meu cevado gordo!...

- O senhor mandou um cevado? perguntou Eduardo, chegando-se ao grupo disposto a zombar.

- E uma carga de rapadura, volveu ele.

Eduardo conteve a explosão duma gargalhada; mas espirituoso e alegre, e valendo-se da liberdade que podia gozar em um sarau de aldeia, exclamou:

- Muito bem, senhor do Poço, gosto de ver um homem assim; franqueza em todo caso.

- Não sou de caixas encordadas, meu caro, tornou o matuto, pão, pão, queijo, queijo.

Eduardo encontrou uma mina de perversices para explorar, e fingindo-se sério animava-o a dizer galanteios às moças para fazer ciúmes a Carlotinha.

O tolo aprendeu decorada a lição de galanteio que o gaiato amigo do Dr. Edmundo lhe tinha dito ao ouvido, e entrou na sala ao lado deles.

Correu a vista pelos senhores e foi direito à Henriqueta, esta levantou-se imediatamente da cadeira, que ficou desocupada entre D. Paulina e Carlotinha.

- É aqui mesmo, disse ele, olhando para a irmã do vigário. Quero ficar perto de Vossa Incelência que está rainha do baile!

A velha senhora arregalou os olhos admirada, e exclamou:

- Que é isto Sr. Boão? Com quem pensa zombar?

- Eu! zombar de Vossa Incelência, a rosa dos jardins da Itália! a sultana de meu coração?!

- Credo! senhor Boão, exclamou ela, o Sr. não está certo, tomou o seu bocadinho.

O bruto estourou como uma bomba no meio da sala:

- Bebo não, senhora Paulina, é que o fio do capitão Miguel é conhecido em toda esta redondeza! Mas quem teve a culpa foi ali seu Eduardo Gama que me disse: Vá cortejar as moças... está em que deu! Com todos os diabos! me chamar bobo... eu o moço de mó conduta da terra...

O riso foi quase geral entre os convidados de D. Matilde, exceto alguma burguesa aspirante à mão do rico fazendeiro e o Sr. Martins que o prezava muito em atenção à sua conduta verdadeiramente exemplar, e a seu amor ao trabalho.

D. Raquel conseguiu apaziguá-lo, e com seus modos doces e insinuantes fez voltar-lhe a confiança e a alegria.

Era mais de meia-noite, e o baile crescia em animação. O próprio Dr. Edmundo esquecido na dança esqueceu naquelas horas a sua visão do monte, a formosa cantora do bote.

E até Carlotinha entregue aos enlevos dum amor nascente, impressionada com a presença do escolhido de seu coração, nem reparou que do centro daquela casa, onde reinava a alegria, levantava-se de vez em quando uma nota destoante.

Era a tosse rouca de Virgínia que rompendo as paredes de seu quarto, vinha ressoar na sala como um remorso vivo no meio do baile.

Ah! esses dramas trágicos do amor atraiçoado passam silenciosos pelos rumores da vida, ocultos, bem ocultos no manto do pundonor que os resguarda da irrisão dos indiferentes. Dos convidados de D. Matilde só o Dr. Edmundo podia fazer a comparação do prêmio com que o destino tinha recompensado a sinceridade, e com o que tinha concedido à leveza.

Pobre Virgínia! há alguém que não te esquece, é uma boa fada que ama a todos os infortúnios e detesta a todas as deslealdades! Ela deixa cair duma mão uma chuva de consolações e de graças para os que sofrem injustamente, e da outra o castigo sobre os opressores que riem.

Quando o baile havia chegado ao mais alto grau de animação, quando os pares dançantes terminavam uma quadrilha baralhados de suor e arquejantes de cansaço procuravam as cadeiras limpando o rosto com seus lenços perfumados e continuando em alegres colóquios, um menino, filho de uma das famílias presentes, apareceu na sala com uma salva de prata na mão, e disse:

- Aqui está um presente que me entregaram na porta dizendo que... não sei quem mandava para as aniversariastas... também não sei quem se chama aqui aniversariastas.

Boão do Poço adiantou-se e tirou da salva uma garrafinha branca cheia de um líquido rosado, e leu o rótulo em voz alta descansando em cada sílaba:

Ju...í...zo de Ali...ce... presen...te de As...tol...fo... vindo ago...ra do rei...no da lua...

Alice levantou-se arrebatadamente, e quando tomava a garrafa com modo desaforido, esta se lhe escapou das mãos e ao som de um trim-tim-tim de pedaços de vidro quebrado esparramou na sala um perfume delicioso.

Boão do Poço não entendia de melindres, pegou no outro objeto e leu como no primeiro:

Manu...al de civi...lida...de en...via a Henriqueta um peda...gogo.

Henriqueta ergueu-se furiosa, arrebatou o livro, rasgou as folhas acetinadas que o cingiam, e atirou-as pela janela.

Fez-se um silêncio profundo. Os burgueses olhavam uns para os outros sem entender nada daquele embrulho.

O Dr. Edmundo estava envergonhado, e lamentava do íntimo d'alma a sorte de seu amigo Gustavo.

D. Matilde alçou a voz titubeando:

- Quero saber quem é que nesta miserável aldeia se atreve a desrespeitar minhas filhas?! Sr. Boão! o senhor foi bem mandado! Olhe com quem brinca! disse ela, lançando-lhe um olhar consciente.

- Eu dona! não tive culpa, estava assentado no tapete... e por que estava assentado, não sabia que era segredo...

Apesar do modo grotesco com que Boão do Poço disse estas últimas palavras ninguém riu, todos ficaram sérios temendo que a dona da casa ajuizasse mal de si; mas, comentavam o caso em voz baixa sem achar explicação para ele. Não conheciam na povoação pessoa que pudesse ter tal petulância.

Henriqueta lançava de quando em quando à Carlotinha olhares carregados de ódio.

Já teria rompido em uma chuva de acusações contra ela se não temesse a reprovação dos circunstantes.

Estava informada de que a filha da professora, desde o tempo de criança quando aparecia vestida de anjo nas festas do Senhor do Bonfim, para a procissão, era o ídolo dos habitantes da povoação e dos campos vizinhos.

Estas considerações a continham; mas em particular manifestava ao Dr. Edmundo o ressentimento de que estava possuída contra a família Martins.

- Já fiz ver à mamãe a inconveniência de tratar com gente bruta, mas ela demora-se aqui ainda alguns meses porque se tem dado bem de saúde, dizia ela.

O Dr. Edmundo apesar de conhecer que o presente era muito bem merecido, disse:

- Não posso atribuir a quem cabe aquele gracejo de mau gosto. O que não admito é que ele partisse dos habitantes deste burgo... parece mais gaiatice dum estudante vadio e mal educado, que fruto do espírito singelo deste povo.

- Sei muito bem de quem desconfio, disse ela, e vou chamar o menino para perguntar que figura tinha a pessoa que lhe entregou a salva.

Henriqueta saiu um instante e voltou para junto de Edmundo com o menino pela mão.

- Vem dizer aqui, Boaventura, quem te entregou aquele presente. Era homem ou mulher? Como estava vestido?

- Era negro, disse o menino singelamente, um moleque bem vestido, pachola, que trazia galão dourado na manga e no chapéu alto de pelo.

- É singular! disse D. Raquel aproximando-se, este mesmo preto de chapéu agaloado, há poucas horas antes, deixou em minha casa uma bandeja com aquele vestido que a Carlotinha trouxe para o baile, disse-nos ele que era a madrinha dela que mandava. Não acreditei, pois minha comadre mora à distância de dez léguas, e desde o batizado de minha filha, nunca se lembrou dela para presentes.

- Esta provocação duns tempos para cá tem se tornado um foco de malefícios, disse uma moça chamada Ana Rosa, porque deixou, minha madrinha, a Carlota vestir o vestido enfeitiçado?

- Não acredito em feitiços, menina.

- Não se dança mais?! perguntou Ana Rosa.

- Só depois do chá, respondeu D. Matilde aproximando-se. - Vamos para a mesa.

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