Capítulo XXXVII - O Benefício é a Semente da Ingratidão A Rainha do Ignoto · Capítulo 37 de 70
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Capítulo XXXVII - O Benefício é a Semente da Ingratidão

Capítulo XXXVII - O Benefício é a Semente da Ingratidão

Dias depois do naufrágio da Zenon via-se a bordo do Tufão uma certa mudança, que não passava despercebida ao espírito observador e sutil da Rainha do Ignoto.

Sempre na expectativa olhava às vezes inquieta e triste para um capitão de artilharia que se extasiava ao pé do piano, arrebatado pela harmonia da música que se escapava por entre os alvos dedos da pequenina mão de Angelina Dulce.

Ele parecia beber ou respirar a melodia da ária que saía de sua garganta privilegiada!

Outras vezes de algum recanto, sem ser notada, porque diante dos náufragos era Probo que representava de comandante, ela reparava em Martha Vieira que ouvia muito atenta os galanteios de um bacharel presumido, que não cessava de falar com entusiasmo de sua candidatura a deputado geral.

Já mais de uma vez tinha observado o capitão da galera Zenon ao lado de Ignez Racey, contando-lhe a sua vida de marujo, cuja noiva morreu quando ele voltava ao porto para desposá-la.

Ela ouviu ainda estes senhores manifestando a sua gratidão às Paladinas do Nevoeiro, e alguns dando o nome de salvadora àquela que mais distinguia.

As próprias mulheres, mais curiosas que os homens, não fizeram reparo na temeridade de louca daquele fantasma de ser humano, só ajudado por um cão da Terra-Nova, deixando a direção do barco nas mãos de um orangotango, a salvar velhos e crianças, os feridos e todos quanto urgia acudir com mais pressa para não descerem ao fundo do mar.

Mas isto passou-se nas trevas, a confusão era muita! E as paladinas se apresentaram ao aparecer da lua, seus benefícios foram reconhecidos.

Depois a Rainha do Ignoto por causa da máscara não ousava apresentar-se, deixava que Odete o fizesse, porque era tida como louca.

Uma noite enquanto as Paladinas do Nevoeiro divertiam os náufragos, com música, canto, jogos e dança, a Rainha do Ignoto tirou a máscara e passeava no tombadilho, solitária escutando o bramido do mar, pensando sob o céu estrelado, a combinar novos planos para as batalhas do bem.

Passaram ao pé dela duas crianças que traziam pela mão um velho e fizeram-no sentar-se numa espreguiçadeira, dizendo:

— Sente-se aqui, velhinho, está fresco, melhor do que lá embaixo.

— Obrigado, meus filhos, disse ele com voz fraca e meia trêmula.

— Meus filhos não, respondeu o menino, meus netos; nós lhe queremos bem, porque o senhor se parece com o vovô.

— O pai do papai, disse a menina, rodeando-lhe o pescoço com o bracinho.

O traquinas do irmão já havia tomado a grossa bengala da mão do velho e corria montado sobre ela chamando-a cavalo.

A Rainha do Ignoto aproximou-se dele, prendeu-o nos braços e disse:

— Você me conhece, Ramiro? Já me viu alguma vez?

— Nunca.

— E quem foi que lhe tirou do mar quando você caiu dos braços de sua mãe?

— Não sei, disse o pequeno, procurando lembrar-se, foi um bicho preto, de dentes finos que me apertava a cintura mordendo assim:

E Ramiro querendo imitar a Fiel foi morder a irmãzinha.

— Basta, exclamou a Rainha do Ignoto, aí vem teu salvador, vai abraçá-lo.

— Não, ele me morde.

— Não tenhas medo, ele não ofende às crianças, nem aos velhos, tem muita confiança na fraqueza deles; olha, veio deitar-se a teus pés.

Ramiro e a irmã acercaram-se do animal, e se entretinham a puxar-lhe pelas orelhas, a alisar o pelo e a abrir-lhe a boca para ver os dentes. Tudo ele sofria com paciência.

Então a Rainha do Ignoto voltou-se para o ancião e perguntou:

— Que idade tem, Sr. Moraes?

— Tenho noventa e seis bem puxados, respondeu o velho.

— Quantos dias de felicidade pôde ainda contar nessa série de anos que já lá foram? tornou ela.

— Ah! minha cara senhora, pergunte antes quantos dias de infortúnio teve em sua calma existência que eu lhe direi, tive dois: um quando perdi minha mãe e meu pai no mesmo dia, outro quando morreu minha mulher, há já vinte anos... e outro que já me não lembrava, o deste maldito naufrágio.

— É possível! exclamou ela, três dias de infortúnio em noventa e seis anos de existência!

— É certo, senhora, eu fui feliz, louvado Deus: gozei saúde, vivi honradamente do fruto de meu trabalho, e encontrei uma mulher virtuosa que me amou, e cumpriu os deveres de esposa criando os nossos filhos na lei de Deus e dos homens; não tive mais que desejar na terra. Meus filhos vivem ainda, cuidam da minha velhice, e eu ensino aos seus netos o caminho do dever, assim como já ensinei a eles e a seus filhos.

— Seus filhos já têm netos?

— Já, benza-os Deus! São meu divertimento, era lembrando-me deles que sentia morrer no fundo do mar e ser comido pelos peixes. Felizmente essas senhoras que lá estão embaixo divertindo-se foram nossos anjos da guarda, nos salvaram. Deus lhes dê toda dita que merecem por tamanho benefício.

A Rainha do Ignoto ficou algum tempo pensativa e afastou-se. Da amurada olhava o espaço negro entre as vagas rumorosas e o firmamento povoado de estrelas. Ela comparava a pobreza daquele bom velho, preso à existência por tão longa cadeia de vidas, à sua riqueza deserta, e teve um momento de revolta:

— Os próprios astros têm sua família planetária, pensou ela olhando o céu, e eu divago na terra só, tenho o coração desprendido como um balão arremessado ao espaço onde até a luz desaparece no vácuo! Sem pai, sem mãe, sem irmãos, sem esposo, sem filhos e até sem sobrinhos! É verdade que tive uma família... família adorada que me foi arrebatada às parcelas pela morte, pelas distâncias... e até... pelo sentimento...

Ela suspendeu o pensamento tomada de uma dor profunda!

Depois continuou:

— E essas paladinas posso chamá-las minha família?

— Não: porque apesar de haver entre elas verdadeiras heroínas, estão ligadas a mim: umas por interesse próprio, outras por deveres comuns, pelo gênio, pelo caráter e nenhuma pelo coração. Dizem que a prática do bem traz a felicidade, é mentira! é ilusão! Aqui estou eu que desde criança não tive pensamento que não fosse nobre e digno! Não fiz uma ação que não fosse em favor dos meus ou em benefício dos estranhos, e o que tive em paga? Injustiças e ingratidões. Ah! mas, o bem já é para mim um vício! Corro a aliviar uma miséria, arrisco a vida para evitar uma desgraça como o jogador incorrigível atira-se a uma banca de jogo, onde sempre perde!

Ah! eu não amo a esta humanidade injusta, ingrata e egoísta... Faço bem maquinalmente, por um destino, uma tendência, como a do que se embriaga pelo desespero!

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