Capítulo XXXI - A Rainha do Ignoto e as Paladinas do Nevoeiro Hipnotizando a Fim de Século A Rainha do Ignoto · Capítulo 31 de 70
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Capítulo XXXI - A Rainha do Ignoto e as Paladinas do Nevoeiro Hipnotizando a Fim de Século

XXXI - A Rainha do Ignoto e as Paladinas do Nevoeiro Hipnotizando a Fim de Século

O Dr. Edmundo saiu do asilo pensando no que tinha ouvido, ficara impressionado com a vista das pessoas tocadas de perto pela mão pesada da desgraça.

Roberta saiu limpando os olhos lacrimosos e dizendo:

- Assim mesmo Probo, acusas a Rainha do Ignoto! Quem há no mundo que faça mais bem?

- Quero que me diga, respondeu Probo, quem faz maior mal?

- Como, senhor? acudiu o Dr. Edmundo.

- Continue no papel de Odete, e verá o que não é preciso que lhe digam. Antes de partir tem de ver aqui na ilha se fabricar relógios, chapéus, panos, rendas, sedas, vidro, papel, louça, armas, e saberá porque forma se adquire o conhecimento de tais processos, e quem são os fabricantes.

- Quem são?

- A maior parte criminosos condenados à morte ou ao desterro! Existem aqui até niilistas que ela foi, ou mandou arrancar aos gelos da Sibéria!

- Probo, por Deus não fale assim... O que ela faz é livrar da morte infelizes condenados injustamente ou por bagatelas, disse Roberta.

Eles caminhavam por uma estrada solitária, ladeada de palmeiras, que ia ter a uns rochedos à borda do mar.

Viram de repente aparecer a doutora Clara Benício e Ignez Racey.

Probo cumprimentou-as e Roberta perguntou:

- Houve algum desastre doutora? Está ferido algum operário?

- Nada, não vou às fábricas, respondeu ela, dirijo-me apressada para o terceiro ponto cardeal.

- E o que há?

- Um navio francês que vai passando, a guarda-vigia veio avisar-me da parte da empregada, que diz não ter muita confiança na ciência... contra os franceses, que se impõem às outras nações por sua força magnética. E eu vou afirmar-lhe, que eles hão de ver a Ilha do Nevoeiro da mesma forma, que os outros habitantes deste planeta.

As paladinas tomaram a frente e tão depressa andaram que se sumiram numa volta do caminho.

O Dr. Edmundo que estava doido por saber o que queria dizer: o terceiro ponto cardeal, um navio francês que vai passando, a guarda não tem confiança na ciência contra os franceses, interrogou a Probo, que foi explicando-lhe:

- Nem o senhor nem ninguém sem a precisa explicação poderia acreditar que existisse uma ilha nas condições desta, tão próxima da costa, e que nunca navegante algum de nação alguma da terra desse notícia d'ela. Pois bem, é o hipnotismo que lhes fecha os olhos para tudo; mas, os abre para ver um denso nevoeiro! montões de vapores convertidos em tromba, muitas vezes, carregada de raios! Já tem havido tripulações de navios que com receio de irem ao fundo, têm querido romper a tromba imaginária a tiros de peça; mas, contentam-se com evitá-la e passar ao largo.

- Então é pelo hipnotismo que a Rainha do Ignoto faz tantas coisas extraordinárias?

- É; mas, a mestra é a paladina Marciana, que não sai nunca da ilha; as duas imediatas na ciência são a rainha e a doutora Clara Benício. Não ouvimol-a dizer há pouco, que ia ao terceiro ponto cardeal? Pois é certo que elas têm, ao norte, ao sul, a leste, e a oeste, uma torrezinha sobre um rochedo, com uma vigia para as embarcações que passam, e uma hipnotisadora para seus passageiros e tripulantes; de forma que, eles só veem um nevoeiro e nada mais.

- É certo isto, senhor Probo? perguntou o Dr. Edmundo.

- Mais que certo, respondeu, se quiser ver hoje à noite a Rainha do Ignoto, e as Paladinas do Nevoeiro hipnotizando a fim de século entremos na biblioteca; a sessão vai começar.

- Pronto, vamos, disse ele.

E entraram no salão da biblioteca suficientemente iluminado.

Ali estava um crescido número de paladinas sentadas em cadeiras colocadas ao longo das paredes. No centro da sala havia uma mesa em roda da qual permaneciam de pé: a Rainha do Ignoto, Clara Benício, e a célebre hipnotisadora Marciana, esta chamou:

- Lídia.

Saiu do meio das paladinas uma mocinha de cor morena, franzina e de feição doentia; sentou-se em uma cadeira, e Marciana fitou-a por um segundo, fechou-lhe as pálpebras, e disse:

- Dorme.

Ela encostou a cabeça ao espaldar da cadeira e ficou adormecida.

- Aonde estás? perguntou Marciana.

- No mar, respondeu.

- É noite ou é dia?

- Está escuro!... é noite, relampeja! está trovejando... e o vento faz jogar o Tufão!...

- E o que vês ainda?

- Uma galera que se perde, muita gente gritando, pedindo socorro!...

- E não podes dizer a quantos graus de latitude e de longitude se dá o naufrágio?

- Não; mas, posso dizer o rumo da galera, ali está marcado nos trinta e dois ventos da rosa náutica.

- Qual é o rumo?

- Norte, vem de Pernambuco para Belém.

- A quanto estás do mês?

- Estou a quinze de julho.

O Dr. Edmundo disse consigo:

- Estamos a dez, faltam cinco para quinze.

- Tomou nota? perguntou Marciana à Rainha do Ignoto.

- Tomei de memória; mas, fica anotado.

- O que mais vês? tornou a hipnotisadora.

- Já desembarcamos, eu vou pelas ruas da cidade de Belém.

- O que ali te chama mais a atenção?

- Um grande ajuntamento de povo.

- O que há?

- Um incêndio!

- Para que ponto da cidade?

- Lá para Baptista-Campos, é numa loja; mas, não há nela ninguém; no andar de cima é que está uma moça em risco de ser queimada.

- Segue, disse Marciana.

- Vou seguindo, tornei a embarcar.

- Aonde chegastes?

- A Pernambuco.

- Estás no Recife?

- Não; estou a três léguas de distância, num engenho de açúcar.

- O que estás vendo?

- Negros mortos de fome, esfarrapados com o rosto e as costas cheios de vergões! Uns trazem grilhões nos pés, outros estão amarrados aos troncos! Vejo negras tão magras como esqueletos aleitando criancinhas esfaimadas que em vez de leite encontram o sangue que verte do seio de sua mãe açoitada de pouco...

- Que horror! exclamaram muitas vozes.

- Está cansada, disse a Rainha do Ignoto, acorde-a.

A mocinha tornou para o seu lugar, e a Rainha do Ignoto lembrou:

- Odete é um bom médium, tragam-m'a, quero invocar o espírito do abade de Saint-Pierre para consultar sobre um meio que desejo opor à guerra.

Roberta veio apresentar Odete pela mão; fê-la sentar-se à mesa, colocou o papel, e entregou-lhe o lápis que Clara Benício apresentava.

O Dr. Edmundo empalideceu por baixo da máscara, e esforçava-se para não dar a perceber o tremor que lhe invadia todo o corpo.

Ela fez a invocação, e ouviu-se um rumor semelhante a uma rajada de vento; os jornais e os papéis que estavam sobre as mesas voaram.

Odete com um impulso frenético na mão corria o lápis sobre o papel com celeridade.

Suas ideias não tomavam parte no que escrevia, e a letra não era a sua, notou satisfeito o Dr. Edmundo, era uma letra de mulher, miudinha e igual muito parecida com a de uma sua namorada do tempo de estudante.

Ele terminou sem saber o que tinha escrito, entregou à Rainha do Ignoto, e ela leu alto:

«O abade de Saint-Pierre não pode se manifestar porque não é Odete...

Todas se entreolharam.

A rainha continuou sossegada:

Este é aquele estudante de direito que em Pernambuco morava na rua da Boa-Vista defronte da nossa casa. Olhava muito para mim, e em uma manhã mandou-me um bilhetinho pela preta do leite; eu acreditei que ele amava-me de veras e apaixonei-me loucamente! Mas meu pai era um sapateiro que só tinha o seu ofício e a sua honra, e o moço era rico! Frequentava a sociedade elevada: se formou, não precisava mais dos pequenos favores dos vizinhos, foi viajar sem nos dizer adeus.

Eu entristeci, entristeci muito! chorei, desesperei! até que um dia achei um pouco de alvaiade que meu pai tinha comprado para pintar uma tabuleta de sua oficina, e engoli metade... cessei de viver, e venho agora em lugar do abade de Saint-Pierre para dizer àquelas que ainda estão no mundo do embuste, no mundo da mentira, e do egoísmo, que não se matem por ninguém, lembrem-se do que está sofrendo nas trevas exteriores.»

Therezinha Meirelles.

O Dr. Edmundo julgou-se perdido. Não temia a morte; mas, o medo de ser descoberto no papel ridículo que Probo lhe tinha obrigado a fazer, gelou-lhe o sangue.

Probo também julgou que estava tudo descoberto, é que ia sofrer o resultado de sua imprudência; mas, a Rainha do Ignoto levantou a voz, e disse:

- Não podemos hoje contar com o concurso de Odete, pois acaba de manifestar-se um espírito leviano que veio zombar de todos nós... e...

Não acabou a palavra, ouviu-se bater sobre a mesa uma grande pancada, e pareceu que todos os livros das estantes haviam rolado das prateleiras!

- Está suspensa a sessão, disse a Rainha do Ignoto.

Todos se retiraram; mas, só, o Dr. Edmundo sabia a verdade do fato manifestado pelo espírito.

Saiu muito impressionado com o suicídio de Therezinha Meirelles, que ele julgava viva, de boa saúde, já casada com algum barbeiro ou contínuo de repartição.

Lembrava-se bem da infeliz menina, tão bonitinha, tão sossegada costurando as camisas dos irmãozinhos, ajudando a mãe a cozinhar, a engomar a roupa do pai; e a tarde bem penteada, com um botão de rosa no cabelo, junto à janela, ia sentar-se fazendo seu crochet.

Que remorsos sentiu ele de haver por uma leviandade de estudante ocasionado um desastre no seio d'uma família pobre; mas, honrada.

- Fingir amor é um crime de morte! dizia ele com pesar.

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