Capítulo XIX - As Cartas Sumidas e o Álbum de Carlotinha A Rainha do Ignoto · Capítulo 19 de 70
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Capítulo XIX - As Cartas Sumidas e o Álbum de Carlotinha

XIX - As Cartas Sumidas e o Álbum de Carlotinha

O Dr. Edmundo sentiu-se aborrecido, contrariado no resto da manhã, não lhe saíam da cabeça as frases apaixonadas que tinha escrito na carta que depositara à entrada da gruta, e sem saber em que matasse o tempo até a hora de tornar ao monte, foi buscar um livro.

Mas notando uma certa diferença nos papéis, que estavam sobre a secretária, abriu as gavetas.

À primeira vista tranquilizou-se, não lhe faltava nem uma das notas que havia deixado na carteira; mas, revolvendo alguns papéis empalideceu: faltava-lhe dentre os maços de cartas que recebera das moças que fingira ou pensara amar nos seus anos de acadêmico, aquele que continha as cartas de Alice.

- Forte imprudência! exclamou ele, não ter queimado isto! Mas com que fim fazem estas coisas? A mim não pode danificar este roubo.

E leu em uma tira de papel:

Foi para completar o romance da vida de Virgínia.

- A mesma letra da carta que trouxe o pombo-correio! Com certeza existe um inimigo oculto que persegue essas senhoras, disse ele, e chamou Adriano:

- Quem veio aqui?

- Não veio ninguém, senhor doutor... Somente uma velhinha a quem dei uma esmola, e retirou-se logo, não mexeu em nada.

- Pois bem, fique sabendo que não quero que introduza pessoa alguma em minha sala.

- Não, senhor, não fui eu que introduzi, tornou o faceta do criado, já vim encontrá-la bem à vontade no estrado da banca.

- E ainda me dizes que ela não mexeu em nada! Que figura tinha essa mendiga?

- Era bonitona! tinha rosto moço e cabelos velhos, vinha embrulhada em um xale de quadros vermelhos e azuis como os das portuguesas.

- Diabo! se te apanho... disse contrariado, e saiu para a casa da professora a fim de serenar um pouco as ideias que lhe assaltavam a mente.

Mas na casa vizinha achou tudo em desbarate: aqui eram baús e malas de couro, ali selas e cangalhas, adiante peias, cabrestos e mochilas.

- Desculpe, Dr., disse o Sr. Martins afastando uma gamela com milho que estava na calçada, onde os cavalos comiam a bater com as patas.

- Não se incomode, Sr. Martins, disse ele.

- Nada, Dr. Sente-se aí mesmo para um baú, estamos de viagem.

- Para muito longe?

- Não; é aqui perto, umas duas léguas. Fique convidado desde já para ir passar S. João conosco: havemos ter milho verde assado na fogueira.

- Não faltarei, estimo muito ter ocasião de tornar a ver os meus bons vizinhos.

- Obrigado.

Carlotinha apareceu com os olhos vermelhos, tinha acabado de chorar às escondidas.

- Vai sempre nos deixar, D. Carlota? disse o Dr. Edmundo amavelmente.

- Pelo meu gosto não, pelo do papai e da mamãe.

- A povoação vai ficar triste com a falta de V. Ex.ª.

- Henriqueta e Malvina sim é que fazem a alegria da terra... E eu não faço falta, como Virgínia que em três dias já ninguém se lembrava dela.

- Eu me lembro, disse o moço com galanteria.

- Lembra-se... repetiu a moça enleada; pois escreva neste álbum que foi dela; conservo-o como uma relíquia!

E tirou de sobre a mesa um rico álbum de capa de veludo azul com os cantos chapeados de ouro, e entregou ao Dr. Edmundo.

Ele lançou a vista sobre aquelas páginas repletas de versos tolos, de prosa bombástica, e lendo um daqueles elogios fofos e pouco sinceros, exclamou:

- Quanta mentira!

Julgou assim porque já começava a entrar na fase da razão. Riu-se dos protestos de amizade feitos a Virgínia por algumas pessoas de seu conhecimento; mas carregou os sobreolhos quando deu com um juramento solene assinado pelo acadêmico Gustavo Mello.

- Veja em seguida, disse Carlotinha, a dedicação que ela me fez.

Ele voltou a página e leu:

Carlota, deixo em tuas nevadas e pequeninas mãos este buquê de flores artificiais desbotadas pelo tempo; mas, que terão a utilidade de te fazer lembrar que foram mais conhecidas pelos espinhos que pelas cores, pois estas perderam-se logo, e aqueles ficaram para sempre.

Quando a mimosa primavera de tua existência fizer aqui desabrochar uma rosa para enlevar o teu singelo espírito, nega-lhe o orvalho do teu plácido coração, e deixai-a morrer mirrada entre o pó destas folhas que encerram ainda uma partícula do veneno que roubou a vida de tua desventurada amiga.

Virgínia de Moura.

- Era um anjo a minha pobre amiga, disse Carlotinha, é pena que não tivesse acertado na escolha...

Ela acanhou-se de dizer o resto.

O Dr. Edmundo disse:

- Ela desejou amor e teve um culto.

Depois tornando a folhear o álbum exclamou:

- Ah! senhora, aqui temos o Amor, vamos ver como o define este tolo.

- Se merecesse o qualificativo, deveria chamar-se tola e não tolo, volveu ela sorrindo.

- A definição dada por uma pena do belo sexo deve ser ainda mais interessante, vamos ler, disse ele.

O Amor

Oferecido a quem chamou meu coração um álbum em branco.

Falou-me sério um instante,

Cobrindo o rosto, escutei...

Foi tão grave o que me disse,

Que incontinente chorei:

A máscara queres que desça?

Disse tristonho e severo:

Pois vou fazer-te a vontade,

Vou ser contigo sincero:

Da Terra eu tenho a idade,

Meu todo enche o universo!

Movo o buril da Ciência!

Guio o carro do Progresso!

Exprimo em todas as línguas,

Todos os credos são meus!

Tenho culto em toda parte,

Entre cristãos ou judeus!

Atravesso os continentes

E sulco todos os mares,

Levando a paz ou a guerra

Penetro em todos os lares!

Ditando as leis absurdas

Entro na choça ou no paço,

Seja mendigo ou fidalgo

Curvo à força de meu braço:

Os monarcas me obedecem!

Os sábios curvam-me as frontes;

Vou aos salões de casaca,

De gibão percorro os montes:

Aos lagos visto de luz,

De perfume a serrania,

Levo à festa o entusiasmo!

Às solidões a alegria.

Coroam-me a fronte as estrelas,

Tenho por manto o luar,

Por voz a doce harmonia

Do mais melífluo cantar.

E ufano do meu poder

Destrono muito ideal...

Aos mais fiéis de meus servos

Em vez de bem faço mal!

Ao fulgor de meus olhares

Ofusco a luz da razão...

Tenho uma amiga, a injustiça!

Tenho um ministro, a traição!

Sou mais terrível que Nero!

Mais do que ele sou rei!

Meus vassalos quando gemem...

Rio do mal que causei!

E espremo por entre os dedos

O sangue dos corações!

Em taças d'ouro esmaltado

Faço as cruéis libações:

Não conheço a condolência,

Sou assassino e malvado!

Cometo todos os crimes!

Tenho a desgraça a meu lado!

Sou quem dispara o revólver

Na fronte do suicida!

Quem aperta o ferro em brasa

No peito d'alma descrida!

Só prantos matam-me a sede!

Só me alimento de dor!

Sou rival do próprio Deus!!

Tremei! meu nome é Amor!!!

Dizei-me então se não devo

Respeitar tal entidade?!

O sumo da tirania!

Flagelo da humanidade!

Ficai pois de sobre-aviso,

Que ele é ruim... é vilão!

Fechai, com trancas de ferro,

As portas do coração.

Diana.

- Apre! que satã medonho é o Amor! E quem é esta Diana? perguntou o Dr. Edmundo.

- É a filha do caçador de onças, respondeu Carlotinha.

- É possível!

- Por quê?

- Acho extraordinária essa lógica, e esta ortografia para uma camponesa ignorante.

- Ignorante! Quem diz? Fala com mais acerto que todas as senhoras da capital que eu tenho conhecido, disse Carlotinha.

O Dr. Edmundo perdia-se em conjeturas. Dar-se-ia o caso de que a moça da gruta do Areré fosse a mesma filha do caçador de onças? Ambas poetisas, pensava ele, a letra do álbum tinha o mesmo caráter daquelas dos versos escritos na pedra; mas como certificar-se da identidade da pessoa?

- Faz-me um favor, D. Carlotinha? disse ele, apresente-me na cabana do caçador de onças. Pedirei a D. Raquel e ao Sr. Martins para nos acompanhar até lá.

- Não posso, disse ela, fui proibida por Virgínia até de falar no nome da gente da cabana da mata.

Naquele momento entrou na sala o Sr. Martins que andava por fora da porta tratando com os arrieiros.

Então o Dr. Edmundo entregando o álbum a Carlotinha, disse:

- Não posso também escrever nada aqui, a filha do caçador de onças aí está de carabina em punho para não deixar passar um contrabando.

Carlotinha não compreendeu o gracejo e despediu-se enleada do vizinho doutor.

D. Raquel apareceu nesta ocasião para recomendar que não faltasse o convite do Sr. Martins, que fosse passar S. João na fazenda.

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