Capítulo LIV - Eis Como Foi o Despertar dos que Sonhavam com Chuva de Diamantes A Rainha do Ignoto · Capítulo 54 de 70
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Capítulo LIV - Eis Como Foi o Despertar dos que Sonhavam com Chuva de Diamantes

Capítulo LIV - Eis Como Foi o Despertar dos que Sonhavam com Chuva de Diamantes

No sábado à tarde o capitão Matury voltava de um passeio aos arredores, tinha ido avisar aos parentes que fossem ao espetáculo daquela noite; quando o som de uma viola o conduziu aos tamarindos do córrego dos Cajueiros:

De repente seu cavalo estacou em frente do rancho dos ciganos.

O tocador de viola sentado em cima d'um bisaco acompanhava duas ciganas que cantavam a desafio.

A mais alta e morena cantou a copla seguinte:

— Quem sabe quantas estrelas

Vão luzindo pelo céu?

Quem sabe a quantos amores

Meu amor tira o chapéu?

A outra cigana respondeu:

— Meu amor tira o chapéu

Olhando p'ra uma menina,

Si ele me deixa por ela,

São coisas da minha sina.

Tornou a primeira:

— São coisas da minha sina

Cantar ao pé da viola;

Mas porque sou eu tão pobre

Nunca me sai da cachola.

Repetiu a segunda:

— Nunca me sai da cachola

Que meu bem é traidor

Como Herodes! como Judas,

Que vendeu Nosso Senhor!

Continuou a outra:

— Que vendeu Nosso Senhor

Por querer mais ao dinheiro.

Pois o tinir das moedas

É filtro de feiticeiro.

E as ciganas olhando para Matury, que falava com o cigano Fortunato, começaram a louvá-lo, como fazem os cantadores dos sambas sertanejos:

— É filtro de feiticeiro

P'ra quem sabe possuir

O faro bom do negreiro

Como o Senhor Matury.

Replicou a outra cigana:

— Como o Senhor Matury

Ninguém sabe ter escravos!

Coze negro na fornalha!

Tira grilhões, mete cravos!

— Tira grilhões mete cravos;

Mas foge de lobisomem

Tem medo d'almas penadas

De pretos mortos a fome.

O valente senhor de engenho, com o pelo arrepiado como um cavalo magro em noite de trovoada, partiu como uma flecha; pois não lhe agradou muito os olhares esguelhados que lhe lançava um grupo de ciganos que riam às escâncaras dos improvisos intencionais.

Chegou em casa ao anoitecer quando os da companhia começavam a acender as lanternas do circo ornado de bandeirinhas vermelhas e amarelas.

Era aquela uma grande festa para a localidade.

O senhor Trabuco trouxera uma orquestra, e dispunha d'um guarda-roupa riquíssimo!

O povo foi acomodar-se o melhor que pôde nas bancadas da plateia, e o capitão Matury com a família e os parentes se repimpavam nas cadeiras da frente.

Uma girândola de foguetes do ar deu sinal do começo do espetáculo.

Correram duas meninas sobre os cavalos, trabalharam o elefante, King e Fiel que fizeram muitas habilidades; o senhor Trabuco, que não era outro mais que o ex-sargento Marcos, fez muitas sortes de mágicas até a entrada da grande hipnotisadora que fitando os circunstantes e agitando os braços em todas as direções, disse:

— Durmam todos.

Os espectadores adormeceram de repente.

— Estão em macios leitos, não é assim?

— Estamos, responderam trezentas vozes.

— Agora está chovendo diamantes, disse ela.

— Sim, como são lindos! vamos apanhá-los.

E os espectadores do circo sem se atropelarem faziam gestos de quem agarra aos punhados alguma coisa no chão e nos ares, guardando depois nos lenços, nos bolsos e até no regaço.

— A noite vai alta, disse a hipnotisadora, guarde ao lado de si seus diamantes e durmam tranquilos até o romper do dia.

O povo tornou a sossegar reclinado nas cadeiras e no encosto das bancadas; mas cada pessoa abraçada a seu tesouro.

A hipnotisadora retirou-se, e lá fora já a esperava toda a companhia em ordem de marcha.

Quando um raio de sol penetrou pela empanada do pavilhão, os espectadores do circo despertaram pelos gritos do capitão Matury:

— As armas! as armas! estou roubado!

— Como? correu para ele o feitor Mourão, pálido como um defunto!

— Os negros, Mourão! os negros! nem um... na senzala!...

— Que está dizendo, Sabino? disse d. Vicência precipitando-se para fora do circo, na frente do povo que saía em um atropelo medonho!

— Já viu se estão trabalhando na baixa do capim, no canavial ou no engenho?

— Já corri tudo... não encontrei ninguém!

— Ninguém?!

Era uma vozeria infernal! Ninguém se entendia!

— Foram os diabos dos ciganos, de parceria com o ladrão do Trabuco. Deixem estar assassinos! se eu os pilho almoço sarapatel!

E o capitão Matury com o feitor e os seus quadrilheiros começaram a selar cavalos e a reunir: espingardas, cravinotes, facas, terçados e fouces. Cada um trazia às carreiras a arma enferrujada que na noite anterior havia ficado esquecida no canto da casa.

Os pobres da vizinhança voltaram com manifesta indiferença para suas choupanas. Eram pouco amigos do capitão Matury, o terror e flagelo daquela localidade.

Uma pobre velha mendiga que viu passar na estrada o troço armado, e soube do ocorrido, ajoelhou, ergueu as mãos para o céu e disse:

— Deus tarda, mas não falta. Foi o braço divino que te vingou a morte, filho de meu coração! arrimo da pobre velha... Eles irão mendigar como eu, em paga do sangue dos pobres e dos escravos.

O bando do capitão Matury dividido em quatro bateu o mato em todas as direções e voltou à noite sem nenhum roteiro dos fugitivos, sem a mínima notícia de sua passagem.

O senhor do engenho "Misericórdia" vinha furioso, quase apoplético! encontrou D. Vicência, sua mulher dando gritos lastimosos! com todos os sinais de alienada.

Eis como foi o despertar dos que sonhavam com chuva de diamantes.

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