Capítulo XLIII - Não Tarda o Rebate!
Capítulo XLIII - Não Tarda o Rebate!
A doutora Clara Benício, na tarde do dia seguinte ao caso passado em casa de D. Margarida, foi ter com a Rainha do Ignoto, em casa do pescador Laureno; mas só encontrou Roberta, e perguntou-lhe:
— A Rainha do Ignoto, onde está? Quero falar-lhe já.
— Não pode, senhora, porque ela saiu, disse Roberta com tristeza.
— Para onde?
— Melhor que eu, senhora, sabeis vós que ela não diz nunca para onde vai, nem quando vem.
— Bem sei, tornou Clara Benício, com enfado, mas ela tinha marcado o dia de hoje para uma conferência com as paladinas que faltaram à última sessão.
— Pode esperar à vontade, doutora; mas creio que ela não virá.
— Por que então?
— Não sei; mas hoje guardou o leito todo o dia e não tomou alimento algum.
— E saiu?
— Saiu, alguma coisa extraordinária está se passando aqui nesta cidade, volveu a bondosa Roberta, deixando deslizar pelas faces duas grossas lágrimas.
— Qual tem sido o nosso caminho? disse Clara Benício, em quantos lances perigosos não nos temos achado nas aventuras do bem?
— Sim, disse Roberta, mas tenho um pressentimento fatal sobre a vida dela.
— E seu marido, Roberta, que é feito dele?
— Ah! senhora, quando chega aos portos, tem tantas comissões a desempenhar que só me aparece às pressas, e muito raras vezes.
Pobre mulher! disse Clara Benício consigo, ou ignora ingênua o procedimento do marido, ou santamente lhe encobre as manhas: deixei-o há pouco jogando bilhar; à noite vai ao espetáculo lírico, e vestido a lorde gasta na sociedade todo o dinheiro que a Rainha do Ignoto lhe dá para remir a necessidade dos pobres que ele pode conhecer no papel de pescador.
Naquele momento entrou Camilla Franco, e seguiram-se a ela outras paladinas, que estavam comentando a ausência da Rainha do Ignoto, quando ela apareceu no interior da casa.
— Eis-me, senhoras, pronta para ouvi-las.
Clara Benício adiantou-se, tomou-lhe a mão, e exclamou:
— Santo Deus! Está com febre! Senhora, o vosso pulso está muito alterado, e apesar disso... vossa mão tão branca parece não ter uma gota de sangue! Que sentis?
— Nada, Clara, absolutamente nada, respondeu ela, estás hoje visionária; tratemos do que serve; vamos, quero saber: o que fizeram?
— Eu por mim nada fiz, disse a doutora Clara Benício, e estou muito aborrecida com aquele caso da rua ***. Não sei se tome o partido da viúva Neves ou o de Laura; preciso acabar com esta questão e não sei o que devo fazer para não sair dela desairosa.
— O melhor é continuar a tratar Laura, e guardar silêncio sobre o fato, disse a Rainha do Ignoto, que vos importa essa infeliz Neves no seu incógnito, se ela fez mal querendo fazer bem? Se é a primeira a reconhecer a ação de Laura, como uma ação inconsciente devida ao seu estado doentio? Apesar de que a sua moléstia não tem gravidade, segundo as informações que tive, creio que de vós mesma.
Clara Benício contrariada não respondeu.
Camilla Franco aproximou-se trajando unicamente uniforme de casimira cinzenta, chapéu de massa da mesma cor, gravata à última moda e bengalinha de castão de ouro. Ela representava um rapaz de vinte e cinco anos, de altura mais que regular e maneiras desembaraçadas. Até a voz cheia e firme não lhe traía o sexo; depois o hipnotismo fazia o resto, podia estar segura no campo das suas operações.
— Camilla, o que há? perguntou a Rainha do Ignoto.
— A loja está preparada como um fogão, disse ela com ar galhofeiro, só falta chegar o fósforo e tocar rebate, irem os bombeiros, correr o povo, os agentes do seguro...
— Tiraste os livros?
— Tirei, ensopadinhos de querosene como um rolo para isca de fuzil.
— E como conseguiste subtraí-los?
— Obtive uma chave da porta de trás que não tem tranca por dentro, e depois que ele fechou a loja, em que propositadamente estou morando nos fundos, fui pelo quintal e arranjei tudo.
— Que horas são? perguntou a Rainha do Ignoto, deixei meu relógio parado.
— Nove, disse Camilla, puxando o dela e vendo as horas.
— Bem, das dez para as onze o fogo declara-se, mas estou muito inquieta por causa da família que mora por cima da loja.
— Ah! malvado! disse a Rainha do Ignoto, agora me prestarás contas do que fizeste sofrer a pobre Licina, depois de gastares os seus haveres.
Otávia Milão se aproximou e disse:
— Venho dar contas do que me encarregou.
— Ah! sim, como vai a pobre rapariga? perguntou a Rainha do Ignoto.
— Vai bem, volveu ela; mas a pancada foi forte! rachou-lhe a cabeça com um talho enorme! Contudo tem melhorado muito, não há remédio como a alegria! Na esperança de casar-se com Cypriano, e de possuir uma casinha nova, Faustina tem feito todo o esforço para curar-se, segue com todo cuidado as prescrições da doutora, é uma heroína.
— E ele?
— Está arrependido, trata-a bem agora, recebeu a chave de casa e o dinheiro que lhe entreguei, um pouco desconfiado, dizendo que duvidava que a Sociedade de S. Vicente de Paula dê tão grande dote à Faustina; mas não pôs dúvida em realizar o casamento, já está com os papéis arranjados e logo que ela possa ir à igreja se fará.
— Não quero partir desta cidade sem deixá-la no lugar que lhe compete por direitos do coração. A mulher que ama assim é sempre digna. Faustina já estava purificada pelo amor, que é o batismo da união, o casamento é o crisma. Mas estou pensando... não tarda o rebate!